quinta-feira, novembro 09, 2006

O ORGÃO FIXO COLOCADO NA IGREJA DE S. PEDRO NO século XVIII

Por : Fernando Engenheiro
A tradição musical da Igreja é um tesouro de inestimável valor que excede todas as outras expressões de arte, sobretudo porque o canto sagrado, intimamente unido com o texto, constituí parte necessária ou integrante da Literatura solene.
Não cessam de a exaltar, quer a Sagrada Escritura, quer os Santos Padres e os Romanos Pontífices a partir do Santo Padre Pio X (1 903/1 914), que vincaram com mais insistência a função ministerial da música sacra no culto divino.
Sempre a Igreja Católica e também outras confissões religiosas - mormente as saídas da Reforma -, utilizaram o canto como elemento importantíssimo da Liturgia... e o orgão surge no primeiro plano.
E, pois, de grande apreço na igreja Católica o orgão de tubos, instrumento musical tradicional cujo som é capaz de dar às cerimónias do culto um esplendor extraordinário e de elevar poderosamente o espírito para Deus.
Porque todo ele se revela como elemento preponderante na Liturgia da igreja e porque a sua existência fez “nasce entre nós artistas músicos que deixaram composições maravilhosas que hoje nos deleitam, é importante em Portugal o património organistico existente.
Também a Cidade de Peniche, na majestosa Igreja de S. Pedro, desde os fins do século XVIII, mais propriamente na sua última década, passou a ser possuidora de um grande orgão - instrumento musical de tec1 com sons por tubos construídos em estanho.
No interior daquele templo, ao levantarmos a vista para a altura do coro, na época também designado por coreto, os nossos olhos prendem-se, no seu velho orgão que, pela imponência, nos maravilha com a sua caixa, ensamblamento e toda a composição onde encerra os tubos e a sua maquinaria.

Ao admirarmos aquele belo exemplar, que a muitos frequenta dores daquela Casa de Deus poderá passar despercebido, mais nos orgulhamos do nosso passado, do legado que nos deixaram e mais sentimos o imperioso dever de o conservar e, se possível , de lhe dar nova vida para nos poder deliciar os ouvidos com o sopro musical saído dos seus tubos...
Foi a partir da construção do referido coro (Livro de receita e despesa da Irmandade do Santissimo Sacramento de S. Pedro, de 1749/1805, fls. 78v.) com capacidade para os capitulares tomarem assento no lugar que lhes competia para em coro rezarem o oficio canónico: constante de salmos, leituras da Sagrada Escritura e orações e distribuído pelas diversas horas d Matinas, Laudes, Prima, Tércia, Sexta, Nona, Vésperas e Completas, o que possível mente nunca teve essa actividade, que se colocou numa parte daquele espaço o Orgão de que falamos, em lugar escolhido como o mais eficaz para obtenção dos melhores resultados act
Não se conhecem as suas origens nem como foi adquirido, nem tão pouco a sua classificação, embora as suas características apontem para que seja classificado como “Orgão Ibérico” ou, simples- mente, como “Orgão Português”.
Também não se pode dar como certo o seu construtor, embora na época, entre 1756-1828, tenha existido em Lisboa o célebre e famoso organeiro António Xavier Machado e Cerveira, que construiu mais de uma centena de orgãos, colocados em diversos pontos do país e até do Brasil. Machado e Cerveira construiu orgãos por encomenda própria, enviando todas as peças para os locais onde seriam montados por um dos seus oficiais ou por alguém do local, embora talvez não tão habilitado.
Não me foi poss fazer a identificação própria destes casos já que, quase sempre,todas as peças vinham numeradas, classificadas e até com instruções de montagem escritas a tinta preta na própria peça. Para tornar o seu custo mais acessível não perdendo porém as qualidades próprias da sua construção, até peças eram aprove de outros órgãos.

- Com o mestre que fez o orgão_____________________________________________________223.200
- Com um homem que serviu ao dito mestre___________________________________________ 1.980
- Com um oficial do dito que se lhe deu de luvas _______________________________________1.200
- Com o pintor que dourou os canudos, e frontaria do

orgão e ouro para a dita obra__________________________________________________________4 820
- Com o entalhador que fez a caixa do dito orgão _______________________________________3.900
-Com madeira para a dita caixa, e coreto que se fez ___________________________________19.075
- Com jornais de oficiais que fizeram a dita caixa e coreto_______________________________26.760
- Com ferragens para a dita caixa e pre para o coreto____________________________________6.885
TOTAL ______________________________________________________________________________287.820

Com a colaboração dada pelas Confrarias das almas e de Nossa Senhora do Rosário, aprovadas pelos seus Juízes, Oficiais e Mordo mos, com assento na Igreja de S. Pedro, foi possível ajudar a com partilhar nas despesas da aquisição daquele instrumento musical,
a cargo da irmandade”do Santíssimo Sacramento da Igreja de S. Pedro, iniciativa em que se despenderam as seguintes importâncias:
Com a informação destes preciosos elementos, concluímos que só o miolo foi importado e que todo o resto foi feito no próprio espaço onde actualmente se encontra.
Teve a sua solene inauguração na festa anual que se fazia naquele templo em louvor de Nossa Senhora do Rosário, a cargo da sua Confraria (de Brancos e Pretos), cuja imagem se venerava no altar onde hoje se rende culto a Nossa Senhora da Boa Viagem.
A partir de então e até à abolição das Ordens Religiosas (que ocorreu a partir de 1834)foi a manutenção do orgão entregue aos cuidados do Convento do Bom Jesus de Peniche até porque ali existiam elementos competentes para o desempenho de funções de organista.
Não é difícil imaginar o grande interesse dos amantes da musica sacra por aquele instrumento musical.
Na época aqui vivia José Leal Moreira, mestre da musica desta então Vila de Peniche, com o partido de quarenta mil réis em cada um ano pagos pelo “Cofre dos Sobejos das Sisas” da mesma Vila havendo-os, sendo o dito mestre da música obrigado a ensinar de graça os moradores da referida vila;por provisão da Rainha D. Maria I de 5 de Dezembro de 1778.Talvez a ideia da aquisição do orgão se deva ainda que de uma forma indirecta aquele professor de musica que teria todo o interesse em formar alunos organistas.
É exemplo disto seu filho Eleutério Leal Moreira, seu aluno, que foi mestre da Capela da Sé Patriarcal, organista e professor de piano, durante os últimos anos do século XVIII e princípios do XIX. Escreveu somente musica religiosa com acompanhamento ao orgão. A maior parte das suas composições encontra-se na Biblioteca Nacional, na Biblioteca da Ajuda e no Arquivo da Sé de Lisboa. Muitas das suas obras terão sido tocadas pelo seu autor no orgão da Igreja de S. Pedro. Faleceu em Peniche, de onde era natural, depois de 1839, solteiro e sem geração.
Por longos anos ecoaram naquele templo os sons do velho orgão, “enchendo a alma” acompanhando solenes “Te Deum Laudamos” - acções de graças a Deus - especialmente cantados quando em Peniche eram recebidos membros da realeza, altos eclesiásticos e militares de alta patente.
Outros organistas exploraram as capacidades do majestoso orgão mas não há memórias da sua actuação até aos primeiros anos do século XX aquando das solenidades litúrgicas que assinalavam os dias do corpo de Deus; de S. Pedro, Orago do templo; da Cadeira de S. Pedro; de Nossa Senhora do Rosário; o Domingo de Páscoa e o Natal.
E já depois da Implantação da Republica, pela mão do mestre José Cândido de Azevedo Mello, continuou o velho orgão a encher de sonoridade musical a Igreja de São Pedro.
José Cândido, figura ímpar na arte musical em Peniche, fez realçar aquele instrumento em momentos litúrgicos de grande esplendor. Alguns alunos seus também o usaram, como os organistas Joaquim Desidério Júnior e sua nora D. Romana Ester Caldas Pereira Fausto de Mello.
Alguns anos antes da morte do mestre José Cândido, ocorrida a 1/9/1950, mergulhou aquele grande instrumento musical num silêncio profundo, que pela minhas contas já lá vai com 60 anos, sem que ninguém tentasse a sua recuperação do estado de abandono em que se encontra uma das jóias do nosso património local.