quarta-feira, dezembro 31, 2008

GENTES HUMILDES QUE PENICHE CONHECEU

Por: Fernando Engenheiro
As pessoas a que me vou reportar são por alguns designadas por “figuras tipicas” da nossa terra. Não me apraz esta designação pois prefiro recordá-las como personalidades com um caracter muito forte, muito próprio e muito pessoal.
Isto porque se entende por carácter dum individuo o conjunto de maneiras habituais de sentir e de reagir que lhe são próprias. É o cunho particular que o distingue dos outros indivíduos que, quase
sempre, se deve às influências do ambiente, à educação, à experiência, ao esforço do indivíduo sobre si mesmo e, até, à influência que sobre ele exerce a forma como é encarado na família e no seu meio ambiente, por vezes com desprezo que retribui.
Estas figuras existiram em todos os tempos no nosso País e, sendo Peniche, por força da sua situação geográfica e do desenvolvimento do seu porto de pesca, uma terra de imigração”, aqui afluíram sempre pessoas desamparadas em busca de arrimo na sua luta pela sobrevivência.
Alguns destes indivíduos, muitas vezes maltratados pela sociedade do seu tempo pois eram por ela encarados de uma forma um tanto infeliz: eram designados por “pilantes da Ribeira”. Levavam por vezes uma vida de escravos, a trabalharem para os senhores, em actividades que iam desde o trabalho nas traineiras, quando atracadas, na descarga do peixe ao carregamento para venda fora de Peniche.
Sem tecto para dormirem, tinham o seu dormitório na praia: uma lancha virada de quilha para cima era onde passavam as quatro estações do ano.
Recuando até aos anos 40 do último século, vou narrar o que me possa ser possível recordar lembrando-me de algumas “figuras tipicas” da nossa terra, entre as quais vários indivíduos que sofreram na pele as amarguras a que acima me referi. Para muitos dos nossos leitores as alcunhas serão familiares:
O mendigo conhecido por “MANHOSO” atropelado por um automóvel de Caldas da Rainha, faleceu a 28/1/1942 no Hospital da Misericórdia de Peniche.

“O PIRILAU” - Amadeu Martins Serrão, filho de Joaquim Martins Serrão e de Francisca da Conceição, natural da freguesia de Gradil, concelho de Mafra, de 38 anos de idade, cujo passatempo era fazer soar música à maneira de castanholas, servindo-se do seu próprio queixo auxiliado pelos coutos dos dedos).

O “QUILO E MEIO” - Joaquim da Silva, falecido com 54 anos de idade a 14/4/1954. natural de Caldas da Rainha. Viveu numa albergaria no Matinho.

O “NENE “. Este ainda entre nós e muitos outros do mesmo tipo que, por falta de conhecimentos ou elementos seguros, não me foi possível completar.

Com referência a pessoas tidas como ‘ típicas” afectadas por problemas psíquicos, estou a lembrar-me de:

A “MARIA PANELAS” - Maria dos Remédios, natural de Peniche, falecida com 72 anos de idade a 17/12/1940.
A “MARIA DA CHOUPA” — Que não tinha eira nem beira. Onde lhe dava o sono era onde dormia.
O “BELCHORA Francisco Esgaio Limpinho, solteiro, filho de Elias Periquito Limpinho e de Maria José Esgaio, natural da Nazaré e falecido em Peniche em 7/1/1954 com 30 anos de idade.

A “ELVIRA QUIALHOS” - Elvira de Jesus Quialhos, viúva, filha de Antônio Quialhos e de Rosa de Jesus, natural da Nazaré e falecida em Peniche, com 62 anos de idade, em 29/11/1956.
O “MIMOSO” que também viveu numa abegoaria na antiga Cerca do Matinho.
O “FACHICA” - Francisco Neni, filho de Constança Neni, natural de Peniche, que na última fase da sua vida foi varredor municipal.

A “CAROLINA” - Carolina da Conceição, nasceu em Atouguia da Baleia, faleceu com 58 anos de idade a 6/5/1952. (Os miúdos, ao se aperceberem da sua fraqueza pelo álcool, cantavam, a seguir os seus passos Sim Carolina ó i ó ai sim Carolina ó ai meu bem)

O “ÁGUA LUSA” - Joaquim Feliz Dias, natural de Vila do Bispo, falecido com 56 anos a 20/8/1956. Lutava pela sua sobrevivência com todo o seu’ lado esquerdo praticamente paralisado. Continuava a ser aguadeiro ao domicílio, com um almude de 20 litros na mão direita. Com passo estreito ao longo de algum tempo conseguia chegar ao freguês, que lhe punha 5 tostões (50 centavos) na mão. Tinha sempre uma gracinha malandreca quando as raparigas se metiam com ele.

O “PIO PEJAPES” PIO FATEIXA, natural da Nazaré, faleceu com 58 anos de idade em Peniche. Contava sempre a sua história de se ter livrado do serviço militar, com o nome que ele inventou como sendo o que estava registado no seu registo de nascimento e que repetia apressa mente: “Pio Pejapes, Fateixa, Fatechada, Bengala, Bengalada, Agostinho da Bacora, Fadista da Praia da Nazaré, Numero Trinta e Tantos, Neto do Cagão e primo do Zé Queijadas, Vai Tudo Para a Caldeirada.”

A “VIRGILIA DO AZEITE” - Virgilia Cândida da Silva, solteira, filha de Emídio António da Silva e de Rosalina da Silva, natural de Peniche, onde faleceu com 63.anos de idade a 3/4/1953. Vendia azeite da candonga e revistas como vendedora ambulante, apregoando “Almanaques para este ano, Calendários para o ano que vem”.

A “ESTAQUINHA” - Maria da Consolação, natural de Geraldes, faleceu em Peniche com 68 anos de idade em Dezembro de 1946. Estava estabelecida com seu marido, vendedor ambulante de jornais, na Rua Alexandre Herculano, com venda de guloseimas entre as quais rebuçados com cromos dos jogadores de futebol, rifas que entusiasmavam os mais novos sempre aguardando o “número da bola”.

A “JANUARIA” com os seus gritinhos, sempre que Ihe pediam e que estava disposta para isso.

O “FOZICA” — Rogério Ferreira Foz, filho de António Cordeiro Foz e de Maria da Conceição. Faleceu solteiro com 56 anos de idade, a 10- 01-2001. Os seus prazeres eram o café o cigarro.

O “BIZARROM” - Basilio Bizarro, sempre em estado de embriaguês. Tinha trabalhado em tempos, como emigrante, em Marrocos. Era uma pequena figura que aparentava fragilidade mas, ao nos aperceber-mos um pouco da história da sua triste vida, verificámos ser um pequeno homem com um organismo preparado para as piores intempéries.
Lembro-me de o ver deitado nas valetas em pleno inverno, com a água a apoderar-se dele, com grandes perturbações provocadas pelo álcool.
No dia seguinte já tudo para ele era normal, o seu organismo parecia estar isento de qualquer doença.
Muitas história havia para contar desta pobre alma. Abordava qualquer pessoa, ora nos cafés, ora nas esplanadas, em qualquer recinto público, de volta de quem quer que fosse, quase sempre a falar um francês muito característico dele, para lhe pagarem uma bebida.
Estimado por todos ninguém lhe negava uma bebida, o que acabava por ser inconveniente para ele. No seu trajecto para casa, em direcção a Peniche de Cima, para junto do seu irmão Artur Bizarro com quem vivia numa barraca de madeira, por vezes adormecia pelo caminho em qualquer sitio onde se sentisse bem. Mas não foram estes contratempos que o levaram à morte. Foi uma queda de que resultou a fractura de uma perna, acabando pouco tempo depois por falecer em casa de sua irmã, Hortense Bizarro, residente em Peniche de Cima.

Estou a lembrar-me de uma figura que para nôs é inesquecível, o “GENTIL” Gentil Vicente Henriques - natural de Peniche, filho dum pequeno lavrador que viveu na Travessa do Bom Sucesso. Apôs o seu casamento estabeleceu-se em Torres Vedras com oficina de reparação de velocípedes. Regressou a Peniche e com a mesma actividade estabeleceu-se na rua D. Luís de Ataíde, em espaço próprio. Foi grande amante da tauromaquia e pela sua indumentária habitual trajo de estilo ribatejano - calça de cós alto, jaqueta e chapéu “mazantini” (chapéu desabado), que lhe dava um ar exótico no nosso meio.
Gostava de exibir a andar a cavalo. Todos o olhavam por se apresentar como uma raridade. Compenetrado do seu papel, sempre muito altivo, passeava cavalgando pelas ruas de Peniche. Até então não lhe era conhecido qualquer meio de subsistência. Estava encostado a seus pais. Em 1962 consegue adquirir por compra um cavalo. Com os seus engenhos habituais prepara o animal para puxar carroça e passa a fazer transportes no Verão para a praia do Molhe Leste. Era uma verdadeira animação O transporte naquele veículo de tracção animal. Foi sol de pouca dura. Licenças para a exploração passavam-lhe ao ado e teve que abandonar esta sua actividade.
Com problemas de saúde é-lhe diagnosticada uma doença do foro pulmonar e deu entrada num estabelecimento hospitalar da especialidade. Logo que lhe foi dada alta dos tratamentos regressou a sua casa em Peniche.
Na sua luta pela sobrevivência e procurando um trabalho leve, adequado à sua maneira de ser, resolve ser fotógrafo e começar a tirar fotografias em especial a grupos, com a autorização dos mesmos ou sem que os visados se apercebessem que estavam a ser fotografados. No dia seguinte estava a bater-lhes à porta com a “encomenda” na mão. Alguns não resistiam e adquiriam as fotos, enquanto que doutros (a quem não agradava a sua audácia) não deixou de receber dissabores pouco agradáveis.
Para quem, como eu, o conheceu de perto, tudo o que dizia era com um ar calmo e sempre sério. Lembro-me de uma vez a conversar comigo ele dizer: “Tenho a impressão que ando abusar do meu fisico, o médico avisou-me que não podia agarrar em pesos e esta máquina fotográfica jé pesa 125 gramas. Deus permita que ele não tenha conhecimento disto...”.
Muitas histórias havia para contar desta relevante figura de Peniche. Não quero deixar de contar outra passada na Agência do Banco Nacional Ultramarino em Peniche, no Largo Jacob Rodrigues Pereira onde então esta dependência estava instalada. Ocorreu apôs o “11 de Março de 1975” quando, apôs a nacionalização da banca, na fachada principal da Agência estava colocado um cartaz em pano cru com os dizeres “O Banco do Povo”. O bom do Gentil não esperou pela demora. Dirigiu-se ao balcão, identificou-se como sendo membro do povo e pediu a parte que lhe competia, atendendo a que o dinheiro também era seu. Para quem assistiu foi ocasião para uma valente risada, mas para ele o caso era sério e agiu com verdadeira convicção dos seus direitos.
Por fim, nos últimos anos da sua vida, viveu situações bem amargas. Talvez por se considerar sempre superiore com razão, participou num comício que nada tinha a ver com as suas ideias políticas e levantou a voz contra o que se estava a apresentar ou a discutir. Não lhe perdoaram e foi agredido do que resultou ficar cego do olho esquerdo Ficamos por aqui Seria um nunca mais acabar a descrição da forma de estar na vida do nunca esquecido GENTIL ‘

Outro de quem também nos lembramos com saudade é O “QUICAS
Francisco de Jesus Mimoso. Faleceu em 15/5/2002, com 54 anos de idade. Uma boa alma, com os seus problemas psíquicos, respeitado e querido por todos. Por onde passava todos se metiam com ele, em troca pedia sempre um “estão” (tostão) e só aceitava moedas pretas. O seu passatempo especial era acompanhar funerais em Peniche, de todas as classes sociais, sem saber de quem.
Com os mesmos problemas de saúde tínhamos O “MARAES” - bem conhecido no nosso meio e também recordado com saudade. Toda a gente o conhecia pela sua alcunha mas o seu nome completo era Mário de Oliveira Costa. Nascido em Lisboa, na Freguesia do Socorro, em Dezembro de 1907 e faleceu em Peniche. Era estimado por todos, em especial pelos seus familiares que o aceitavam tal qual como ele era.
Não posso deixar de me referir ao Sr. Florindo Gaspar, que exerceu a actividade de sapateiro, figura de grande fragilidade intelectual que se deixava ir na onda daquilo que lhe diziam. Acreditava em tudo e em todos. O seu maior sonho era cantar na rádio. Conhecida a sua grande ambição, a rapaziada de então, que o estimava, fazia-lhe partidas relacionadas com a sua grande vontade de se apresentar em público. Acredito que todas as brincadeiras eram fruto da grande dedicação e extrema amizade que toda a gente lhe tinha.

Menos sorte teve um outro personagem bem conhecido no nosso meio O “CARAMBINHA”, sempre satisfeito e bem disposto para com todos os que se metiam com ele. Pessoa de físico frágil, foi trágica a sua morte, motivada por um atropelamento ocorrido na Estrada Nacional 114, junto ao Bairro do Fialho. Alguém o matou, numa noite escura com pouca iluminação, não parando o carro causador da ocorrência e abandonando o corpo no meio da estrada. Poucos terão sido os carros que se desviavam convencidos que seria qualquer cão vadio, atendendo ao seu pequeno corpo. Na manhã seguinte os Bombeiros Voluntários limitaram-se a recolher pequenos fragmentos humanos espalhados ao longo da estrada, com uma simples pá e uma vassoura.
Falo agora do “ZÉ CHAVIOTA” - José Trindade, marítimo, natural de Peniche. Com pouco mais de 50 anos de idade, antecipou a morte pelas suas próprias mãos, por suicídio. Homem franzino. figura frágil, enrugado pelas amarguras que o tempo lhe ofertou, sempre bem disposto e pronto a uma laracha para quem quer que fosse. Não olhava a meios com as suas atitudes irónicas que lhe eram características. Seria um nunca mais acabar a narração das histórias passadas que fizeram parte da vida do inesquecível “Chaviota”.

Lembro uma, bem conhecida no nosso meio: a batata pintada de alcatrão, disfarçada de bomba”: Para pessoalmente saber até que ponto estava seguro o edifício-sede da Casa dos Pescadores com o pessoal que là trabalhava, chegou ali um dia com um objecto negro na mão, um pequeno volume que tinha um pavio colocado. Alertou o pessoal da secretaria dizendo que era uma bomba, que iam morrer todos, excepto o escriturário José Ablum, que era seu amigo. A este deu logo facilidades para fugir. Os outros, na impossibilidade de escaparem, pois que o suposto bombista servia-lhes de obstáculo barrando a saída só tiveram uma solução: atirarem-se para debaixo das secretárias onde trabalhavam ou então, os mais ligeiros, saírem pelas janelas de acesso à rua.
Acabou por se sentar a rir és gargalhadas e a chamar-lhes os piores nomes que lhe vieram a cabeça, dizendo por fim que estávamos bem servidos de homens valentes na Casa dos Pescadores “para servirem numa guerra contra o inimigo”. Todos com medo de uma batata!

Não posso dar este meu trabalho por completo sem falar do “MALAMILAS” de seu nome completo Joaquim da Silva, que faleceu aos 43 anos de idade, morte provocada em parte por escoliose do figado (cirrose) mas também pelos maus tratos que a vida lhe deu. Não falar do
“MALAMILAS” seria uma falta da minha parte.
Natural de Peniche, era filho de pal incógnito e de Maria da Conceição Silva. Desprotegido pela sorte, foi toda a sua vida urn servidor do próximo na luta pela sua sobrevivência. Por amiudadas vezes ao longo da sua vida foi bagageiro, servindo as empresas de camionagem de transporte de passageiros que terminavam as suas carreiras em Peniche, mas o que mais o caracterizou foi a sua humilde vida
de “ardina”. De sacola às costa, sem qualquer pregão fazia chegar a qualquer freguês noticias frescas do país e estrangeiro, por falta de outros meios de comunicação. Ao que nos é dado a conhecer foi o MALAMILAS o último ardina que Peniche teve ao serviço dos seus habitantes na entrega ao domicilio dos jornais diários.

Aproveito o ensejo para também falar humilde que habitou na ilha da Berlenga como guarda da Fortaleza.
Filho de José Morgado e de Leonor Ribeiro Morgado era natural de Vila Velha de Rodão (distrito de Castelo Branco) e faleceu em Peniche, no Hospital da Misericórdia, com 69 anos de idade a 21 de Maio de 1951.
Na sua história, a fixação de residência na ilha da Berlenga teve origem num desgosto que sofreu, provocado pela sua namorada. Luís Morgadio assentou praça no cumprimento dos deveres militares e, ao regressar à terra apôs a passagem à disponibilidade, com o seu dever cumprido, constatou que a sua predilecta, a futura esposa que ele tanto amava, jé se tinha consorciado com outro.

Reuniu os seus familiares mais próximos dizendo-lhes que la partir para parte incerta, na certeza porém de que nunca mais ninguém o via ou recebia noticias suas. Na época poucas eram as pessoas que frequentavam aquela ilha. Por ali viveu longos anos sem se deslocar a Peniche. Sentia a dor da vida que pretendia e não conseguiu realizar, fazendo da ilha da Berlenga o seu refúgio de clausura, de porta aberta.
Ficamos por aqui, com as histórias destas personagens. Muito e muito mais havia para contar. Não me querendo alargar mais recordando estas figuras simples que Peniche conheceu lembro só mais alguns, que seria injusto não referir: O Benvindo, sempre com o seu dito: “Todos me dão...”; o Joaquim Lamachorra (sempre com o seu passo apressado); o Zé Malino (guardador de gado); a tia Carreirinha (sempre apressa da na sua luta afazer recados); o Eduardo (de latão à cabeça, servindo” de transporte de peixe nos pequenos fretes que fazia às vendedoras de peixe); o Zé de Ferrel (almocreve, de canastras ao ombro transportando peixe em contrabalanço); o Zé Pá Terra; o Piruça; o Rabaneta; o Ripipiu; o Gata; o Cuyabà (Antônio Neto de Almeida), nascido a 23/3/1938 e falecido a 16/7/2008, alma pura, sem qualquer pretensão na vida, viveu sempre na maior das calmas. Sempre o conhecemos tendo como passatempo a apanha de lapas para satisfazer as encomendas que lhe eram pedidas.

N.B. Com este meu trabalho quero prestar uma singela home- nagem às gentes humildes que Peniche conheceu e recorda, personalidades das quais uma grande parte sentiu na pele as amarguras da vida, a falta de afecto, de carinho, tantas vezes a ausência de qualquer ambiente familiar. Talvez, em toda a sua vida, alguns não se tenham sentido felizes um dia só que fosse. Seres humanos que muito sofreram ao longo da sua vida. Que Deus se compadeça das suas almas

quinta-feira, dezembro 25, 2008

terça-feira, dezembro 23, 2008

Um feliz Natal

The Nativity 1597Oil on canvas, 134 x 105 cmMuseo del Prado, Madrid

terça-feira, dezembro 16, 2008

sexta-feira, dezembro 12, 2008

QUEM FOI O DOUTOR FRANCISCO SEIA

Por: Fernando Engenheiro
Das mais antigas famílias de Peniche duas árvores genealógicas - a de apelido “MONTEIRO” (de que se conhecem elementos a partir do século dezasseis) e a de apelido “SEIA” (ou CEIA) entroncaram-se na década de 60 do século dezanove com o casamento de José das Neves Seia, nascido em 1839, com Basilina de Jesus Monteiro, nascida jé na decada de 40 do mesmo século.
Deste enlace matrimonial nasceram os seguintes filhos:Francisco Maria Monteiro Seia, Amélia da Natividade Monteiro Seia e Angelina de Purificação Monteiro Seia. Seu filho varão, FRANCISCO MARIA MONTEIRO SEIA, nasceu em Peniche a 13/12/1873, na casa de seu avô, Anacleto Luís Seia, situada na antiga rua do Espírito Santo, junto à Igreja de S. Pedro do lado sul, próximo da porta lateral do referido templo. Na mesma casa nasceram suas irmãs.
Na idade própria frequentou a escola primária, então a cargo do mestre José Augusto dos Santos, nomeado por despacho da Direcção Geral de Instrução Pt de 20/10/1870 para a cadeira do I° grau, com “provimento vitalício”. Na época toda a actividade escolar em Peniche era exercida em espaços que foram dependências da Ordem Terceira de S. Francisco, anexas à extinta capela de Santo António do Portinho (junto ao actual Largo de Santo Antônio e Rua José Estevão).
Seus pais, com poder econômico, família abastada para a época (é de notar que, como negociante, já pagava 35$440 réis de imposto - a chamado quota de contribuinte) com todas as possibilidades, sem barreiras e possivelmente por se aperceberem das suas qualidades e do seu bom aproveitamento escolar, resolveram proporcionar a seu filho a continuidade dos estudos que lhe permitissem obter um curso superior. Naquele tempo, no campo dos estudos académicos, as filhas raramente iam além do que aprendiam nos bancos da escola até ao segundo grau da instrução primária, embora enveredassem por ensinamentos noutros campos.
Foi o que aconteceu a D. Angelina e D. Amélia, alunas da Escola de Desenho Dona Maria Pia, em Peniche, onde tiveram como professora e directora D. Maria Augusta Bordalo Pinheiro, figura das mais notáveis da sociedade portuguesa do século dezanove no campo das artes. D. Angelina, em especial, foi uma boa pintora de arte, desenhadora para rendas de Peniche e bordados diversos, além de notável rendeira (ou rendiiheira). Além desta sua arte tornou-se uma notável pianista no seu meio.
Francisco Maria, ainda muito novo, apôs o segundo grau da instrução primária, vai para Lisboa, matricula-se na Escola Politécnica e passa a frequentar aquele estabelecimento de ensino. Estava ao abrigo da Lei pois, a partir do ano de 1860, todos os alunos eram obrigados a ter a quarta classe para ingressarem nos liceus.
Na idade própria do cumprimento dos deveres militares, pelo atraso que o recrutamento lhe provocaria para o final do curso, a incorporação foi adiada a seu pedido por acordão do Juiz de Direito da Comarca das Caldas da Rainha de 4/5/1894, com documento justificativo em como era aluno da Escola Politécnica de Lisboa.
Ainda no último lustro do século dezanove, recebeu das mãos de Luis de Almeida Albuquerque, lente proprietário da décima cadeira e Director da Escola Politécnica de Lisboa, o diploma do seu curso de medicina, pronto a desempenhar as suas funções como médico de clinica geral.
O Doutor Francisco Seia, não quis ficar por ali. Queria tirar a especialidade a que actualmente a medicina dà a designação de otorrinolaringologia. Em Portugal na época não havia o estudo daquela especialidade. Com o aval de seus pais, desloca-se para o império alemão e em Berlim concretiza o seu sonho. Algum tempo depois regressa ao nosso país com o canudo na mão. Francisco Seia, realizado o seu sonho, instalou o seu consultório em Lisboa, onde obteve grande êxito e prestigio com grande elevação na sociedade lisboeta e outras que conheciam elevado grau de qualidade do seu trabalho.
Actuou com muita dedicação nas instalações do instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos e outros estabelecimentos hospitalares, sendo figura de destaque perante a Rainha D. Amélia de Orleães, esposa de El-Rei D. Carlos I de Portugal. Foi, até à implantação da República, visita particular dos soberanos que muito o admiravam e o prendavam com objectos da autoria da própria Rainha.
Já no dealbar do século XX, aos 30 anos de idade, decide constituir familia. É no Verão de 1900 que conhece em Peniche Maria Luiza Alves do Rio, natural da freguesia de Ajuda, da cidade de Lisboa, filha do industrial e comerciante Manuel Pinto Alves do Rio Jt e de D. Maria Miquelina Pinto Martins, residentes temporariamente em Peniche. Aqui se encontrava sempre acompanhada por sua mãe e por sua irmã Maria Emilia Alves do Rio (que casou pouco depois com o Doutor João Baptista Frazão, que se tornou um conceituado médico em Peniche). Eram senhoras distintas, conhecidas na sociedade da época por “meninas de salão”, com qualidades apreciáveis que, como era usual, “tocavam piano e falavam francês” e que se destacavam no ambiente em que viviam.
Depois do seu matrimônio continuou, agora com sua esposa, com residência a tempo inteiro na capital, embora sempre que lhe era possível, o que acontecia amiudadas vezes, visitasse a sua terra natal onde possuía a sua segunda residência na casa que o viu nascer, além de vastas parcelas de terreno de cultivo em actividade, o que obrigava à sua presença em época de colheita.
Além de médico via-se assim, na obrigação de ser também lavrador, em face de bens herdados de seus familiares.
É prova disto o testamento feito a seu favor; em 22/4/1918, pelo seu tio José do Nascimento Monteiro, solteiro, de 72 anos de idade, irmão de sua mãe, pelo qual recebeu uma vasta área de terreno situada na zona designada em parte por “Matinho” e que mais tarde, até à sua venda à Câmara Municipal, foi conhecida por “Cerca do Dr. Seia”.
Por longos anos, com procuração do Município de Peniche, foi seu representante junto do Poder Central nos actos mais diversos. Peniche e seu concelho muito lhe devem pela sua luta perante os governos de então pelo contributo a dar à assistência, pela comparticipação nas obras da electrificação em 1929, nos primeiros estudos para o abastecimento de água, nos primeiros estudos para os trabalhos do Porto de Pesca e tantos outros não menos importantes que muito engrandeceram o nosso Concelho.
A sua presença em Peniche em actos solenes era imprescindível. Todos viam o Doutor Seia como uma personalidade merecedora de elevado apreço, todos reconhecendo o seu bairrismo e a inteligência que generosamente colocava ao serviço da sua terra.
Aos 54 anos de idade, a 17/10/1928, quis vincular a presença do seu amor a Deus, pedindo a sua inscrição como irmão da Santa Casa da Misericórdia de Peniche à Comissão Administrativa daquela Instituição. Ao que nos foi dado a conhecer assinalou a sua admissão com a oferta de peças em prata que a instituição vendeu e que renderam cinquenta contos de réis, o que na época era uma importância considerável.
Aos 61 anos de idade, na sequência de uma visita feita a um doente seu, em plena noite invernosa de Janeiro, satisfazendo pedido urgente de um familiar do enfermo, não se acautelando com agasalho próprio para a intempérie nocturna, foi acometido por uma pneumonia que, pouco tempo depois, com o enfraquecimento do seu organismo, não o deixou por muitos dias a lutar contra a morte, vindo a falecer a 14 de Janeiro de 1936 na sua residência em Lisboa, na Rua da Junqueira, n°317.
Em Peniche, ao ser conhecido o falecimento do Dr. Seia, notícia dolorosa para todos os penicheiros, repicaram os sinos das três freguesias, anunciando infausto acontecimento.
A seu pedido o corpo foi trasladado para a sua terra natal, para junto de seus pais no Cemitério de Santana desta então Vila de Peniche. Chegaram seus restos mortais no dia seguinte , com paragem na igreja Paroquial de S. Pedro, sua freguesia de nascimento, onde foram celebradas as exéquias fúnebres.
Peniche esteve de luto naquele dia. A bandeira do Município foi hasteada a meia haste no edificio dos Paços do Concelho e todo o comércio encerrou as suas portas para prestação de uma última homenagem acompanhando o féretro transportado na carreta da Santa Casa da Misericórdia, puxada a varola por dois irmãos daquela instituição.
Logo na sessão camarária que se seguiu ao falecimento, realizada a 20 de Janeiro daquele ano, foi lavrado em acta um voto de pesar pelo passamento do Doutor Francisco Seia.
Na sessão seguinte, a 27 de Janeiro, a Edilidade, como testemunho de sincera dedicação à memória do Doutor Francisco Seia, deliberou, por unanimidade, arrear as placas toponímicas com o nome de Luís de Camões existentes na rua onde nasceu aquele ilustre penicheiro, para em seu lugar fosse colocado nome “Doutor Francisco Sela”, perpetuando assim a sua memória, e que à rua a construir para o mercado municipal fosse dado o nome de “Rua Luis de Camões”.
Também o clube recreativo Penichense lhe prestou uma sentida homenagem com o descarregamento de uma fotografia do seu socio fundador “ Doutor Francisco Seia” numa parede da então sala da biblioteca daquela Colectividade.
O Municipio de Peniche, agradecido, quis ir mais além nos testemunhos da sua gratidão edificando um mausoléu para repouso eterno dos restos mortais do Doutor Francisco Seia. Assim, por deliberação camarária de 4/3/1937, foi resolvido abrir concurso para a construção desse mausoléu no Cemitério Municipal de Santana, de acordo com um projecto elaborado pelo Arquitecto Eugénio Correia.
A empreitada de fornecimento e assentamento do mausoléu foi adjudicada ao construtor Eduardo Sebastião Jorge, pela importância de sete mil escudos, como consta de deliberação camarária de 7/10/1937.
Logo de seguida, numa breve cerimônia, procedeu-se à transladação dos seus restos mortais, depositados provisoriamente no jazigo da família “Monteiro de Proença”, seus parentes, seguindo-se a inumação no novo mausoléu, que se encontra localizado no centro da rua principal do referido cemitério.
Sua esposa, D. Maria Luiza Alves do Rio Monteiro Seia, sobreviveu ainda pouco mais de 7 anos, vindo a falecer na sua residência em Peniche com 62 anos de idade, a 2/7/1944.
Jazem juntos no mausoléu, com os restos mortais de outros familiares.
Não deixaram herdeiros directos. D. Maria Luiza fez seu testamento legando as suas jóias à Santa Casa da Misericórdia de Peniche e à Irmandade de Nossa Senhora das Dores, da sua freguesia de Belém, da cidade de Lisboa. Do produto da sua venda, dividido em partes iguais, coube a cada uma das duas instituição a quantia de 6.660$00. A Misericórdia de Peniche destinou esta importância ao aumento, em ocasião própria, do valor de um título de rendas perpétuas. Outros bens foram divididos por seus sobrinhos.

NOTA — Agradeço reconhecidamente a colaboração dada para este trabalho pela Senhora D. Angelina Monteiro Seia, sobrinha-neta do Doutor Francisco Seia, distinta pianista, que seguiu os passos de sua avó paterna Angelina da Purificação na arte de dedilhar as teclas do piano na execução de belas peças musicais.
Peniche, Novembro de 2008.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Memórias da Imigração Portuguesa em França V

Também se ia a bica, em 1964, na região parisiense

Dois imigrantes portugueses, em 1965, num bairro da lata, região parisiense


Também nos anos 60, sem comentários...........
Fotografias Gérald Bloncourt http://www.bloncourt.net/