sexta-feira, dezembro 12, 2008

QUEM FOI O DOUTOR FRANCISCO SEIA

Por: Fernando Engenheiro
Das mais antigas famílias de Peniche duas árvores genealógicas - a de apelido “MONTEIRO” (de que se conhecem elementos a partir do século dezasseis) e a de apelido “SEIA” (ou CEIA) entroncaram-se na década de 60 do século dezanove com o casamento de José das Neves Seia, nascido em 1839, com Basilina de Jesus Monteiro, nascida jé na decada de 40 do mesmo século.
Deste enlace matrimonial nasceram os seguintes filhos:Francisco Maria Monteiro Seia, Amélia da Natividade Monteiro Seia e Angelina de Purificação Monteiro Seia. Seu filho varão, FRANCISCO MARIA MONTEIRO SEIA, nasceu em Peniche a 13/12/1873, na casa de seu avô, Anacleto Luís Seia, situada na antiga rua do Espírito Santo, junto à Igreja de S. Pedro do lado sul, próximo da porta lateral do referido templo. Na mesma casa nasceram suas irmãs.
Na idade própria frequentou a escola primária, então a cargo do mestre José Augusto dos Santos, nomeado por despacho da Direcção Geral de Instrução Pt de 20/10/1870 para a cadeira do I° grau, com “provimento vitalício”. Na época toda a actividade escolar em Peniche era exercida em espaços que foram dependências da Ordem Terceira de S. Francisco, anexas à extinta capela de Santo António do Portinho (junto ao actual Largo de Santo Antônio e Rua José Estevão).
Seus pais, com poder econômico, família abastada para a época (é de notar que, como negociante, já pagava 35$440 réis de imposto - a chamado quota de contribuinte) com todas as possibilidades, sem barreiras e possivelmente por se aperceberem das suas qualidades e do seu bom aproveitamento escolar, resolveram proporcionar a seu filho a continuidade dos estudos que lhe permitissem obter um curso superior. Naquele tempo, no campo dos estudos académicos, as filhas raramente iam além do que aprendiam nos bancos da escola até ao segundo grau da instrução primária, embora enveredassem por ensinamentos noutros campos.
Foi o que aconteceu a D. Angelina e D. Amélia, alunas da Escola de Desenho Dona Maria Pia, em Peniche, onde tiveram como professora e directora D. Maria Augusta Bordalo Pinheiro, figura das mais notáveis da sociedade portuguesa do século dezanove no campo das artes. D. Angelina, em especial, foi uma boa pintora de arte, desenhadora para rendas de Peniche e bordados diversos, além de notável rendeira (ou rendiiheira). Além desta sua arte tornou-se uma notável pianista no seu meio.
Francisco Maria, ainda muito novo, apôs o segundo grau da instrução primária, vai para Lisboa, matricula-se na Escola Politécnica e passa a frequentar aquele estabelecimento de ensino. Estava ao abrigo da Lei pois, a partir do ano de 1860, todos os alunos eram obrigados a ter a quarta classe para ingressarem nos liceus.
Na idade própria do cumprimento dos deveres militares, pelo atraso que o recrutamento lhe provocaria para o final do curso, a incorporação foi adiada a seu pedido por acordão do Juiz de Direito da Comarca das Caldas da Rainha de 4/5/1894, com documento justificativo em como era aluno da Escola Politécnica de Lisboa.
Ainda no último lustro do século dezanove, recebeu das mãos de Luis de Almeida Albuquerque, lente proprietário da décima cadeira e Director da Escola Politécnica de Lisboa, o diploma do seu curso de medicina, pronto a desempenhar as suas funções como médico de clinica geral.
O Doutor Francisco Seia, não quis ficar por ali. Queria tirar a especialidade a que actualmente a medicina dà a designação de otorrinolaringologia. Em Portugal na época não havia o estudo daquela especialidade. Com o aval de seus pais, desloca-se para o império alemão e em Berlim concretiza o seu sonho. Algum tempo depois regressa ao nosso país com o canudo na mão. Francisco Seia, realizado o seu sonho, instalou o seu consultório em Lisboa, onde obteve grande êxito e prestigio com grande elevação na sociedade lisboeta e outras que conheciam elevado grau de qualidade do seu trabalho.
Actuou com muita dedicação nas instalações do instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos e outros estabelecimentos hospitalares, sendo figura de destaque perante a Rainha D. Amélia de Orleães, esposa de El-Rei D. Carlos I de Portugal. Foi, até à implantação da República, visita particular dos soberanos que muito o admiravam e o prendavam com objectos da autoria da própria Rainha.
Já no dealbar do século XX, aos 30 anos de idade, decide constituir familia. É no Verão de 1900 que conhece em Peniche Maria Luiza Alves do Rio, natural da freguesia de Ajuda, da cidade de Lisboa, filha do industrial e comerciante Manuel Pinto Alves do Rio Jt e de D. Maria Miquelina Pinto Martins, residentes temporariamente em Peniche. Aqui se encontrava sempre acompanhada por sua mãe e por sua irmã Maria Emilia Alves do Rio (que casou pouco depois com o Doutor João Baptista Frazão, que se tornou um conceituado médico em Peniche). Eram senhoras distintas, conhecidas na sociedade da época por “meninas de salão”, com qualidades apreciáveis que, como era usual, “tocavam piano e falavam francês” e que se destacavam no ambiente em que viviam.
Depois do seu matrimônio continuou, agora com sua esposa, com residência a tempo inteiro na capital, embora sempre que lhe era possível, o que acontecia amiudadas vezes, visitasse a sua terra natal onde possuía a sua segunda residência na casa que o viu nascer, além de vastas parcelas de terreno de cultivo em actividade, o que obrigava à sua presença em época de colheita.
Além de médico via-se assim, na obrigação de ser também lavrador, em face de bens herdados de seus familiares.
É prova disto o testamento feito a seu favor; em 22/4/1918, pelo seu tio José do Nascimento Monteiro, solteiro, de 72 anos de idade, irmão de sua mãe, pelo qual recebeu uma vasta área de terreno situada na zona designada em parte por “Matinho” e que mais tarde, até à sua venda à Câmara Municipal, foi conhecida por “Cerca do Dr. Seia”.
Por longos anos, com procuração do Município de Peniche, foi seu representante junto do Poder Central nos actos mais diversos. Peniche e seu concelho muito lhe devem pela sua luta perante os governos de então pelo contributo a dar à assistência, pela comparticipação nas obras da electrificação em 1929, nos primeiros estudos para o abastecimento de água, nos primeiros estudos para os trabalhos do Porto de Pesca e tantos outros não menos importantes que muito engrandeceram o nosso Concelho.
A sua presença em Peniche em actos solenes era imprescindível. Todos viam o Doutor Seia como uma personalidade merecedora de elevado apreço, todos reconhecendo o seu bairrismo e a inteligência que generosamente colocava ao serviço da sua terra.
Aos 54 anos de idade, a 17/10/1928, quis vincular a presença do seu amor a Deus, pedindo a sua inscrição como irmão da Santa Casa da Misericórdia de Peniche à Comissão Administrativa daquela Instituição. Ao que nos foi dado a conhecer assinalou a sua admissão com a oferta de peças em prata que a instituição vendeu e que renderam cinquenta contos de réis, o que na época era uma importância considerável.
Aos 61 anos de idade, na sequência de uma visita feita a um doente seu, em plena noite invernosa de Janeiro, satisfazendo pedido urgente de um familiar do enfermo, não se acautelando com agasalho próprio para a intempérie nocturna, foi acometido por uma pneumonia que, pouco tempo depois, com o enfraquecimento do seu organismo, não o deixou por muitos dias a lutar contra a morte, vindo a falecer a 14 de Janeiro de 1936 na sua residência em Lisboa, na Rua da Junqueira, n°317.
Em Peniche, ao ser conhecido o falecimento do Dr. Seia, notícia dolorosa para todos os penicheiros, repicaram os sinos das três freguesias, anunciando infausto acontecimento.
A seu pedido o corpo foi trasladado para a sua terra natal, para junto de seus pais no Cemitério de Santana desta então Vila de Peniche. Chegaram seus restos mortais no dia seguinte , com paragem na igreja Paroquial de S. Pedro, sua freguesia de nascimento, onde foram celebradas as exéquias fúnebres.
Peniche esteve de luto naquele dia. A bandeira do Município foi hasteada a meia haste no edificio dos Paços do Concelho e todo o comércio encerrou as suas portas para prestação de uma última homenagem acompanhando o féretro transportado na carreta da Santa Casa da Misericórdia, puxada a varola por dois irmãos daquela instituição.
Logo na sessão camarária que se seguiu ao falecimento, realizada a 20 de Janeiro daquele ano, foi lavrado em acta um voto de pesar pelo passamento do Doutor Francisco Seia.
Na sessão seguinte, a 27 de Janeiro, a Edilidade, como testemunho de sincera dedicação à memória do Doutor Francisco Seia, deliberou, por unanimidade, arrear as placas toponímicas com o nome de Luís de Camões existentes na rua onde nasceu aquele ilustre penicheiro, para em seu lugar fosse colocado nome “Doutor Francisco Sela”, perpetuando assim a sua memória, e que à rua a construir para o mercado municipal fosse dado o nome de “Rua Luis de Camões”.
Também o clube recreativo Penichense lhe prestou uma sentida homenagem com o descarregamento de uma fotografia do seu socio fundador “ Doutor Francisco Seia” numa parede da então sala da biblioteca daquela Colectividade.
O Municipio de Peniche, agradecido, quis ir mais além nos testemunhos da sua gratidão edificando um mausoléu para repouso eterno dos restos mortais do Doutor Francisco Seia. Assim, por deliberação camarária de 4/3/1937, foi resolvido abrir concurso para a construção desse mausoléu no Cemitério Municipal de Santana, de acordo com um projecto elaborado pelo Arquitecto Eugénio Correia.
A empreitada de fornecimento e assentamento do mausoléu foi adjudicada ao construtor Eduardo Sebastião Jorge, pela importância de sete mil escudos, como consta de deliberação camarária de 7/10/1937.
Logo de seguida, numa breve cerimônia, procedeu-se à transladação dos seus restos mortais, depositados provisoriamente no jazigo da família “Monteiro de Proença”, seus parentes, seguindo-se a inumação no novo mausoléu, que se encontra localizado no centro da rua principal do referido cemitério.
Sua esposa, D. Maria Luiza Alves do Rio Monteiro Seia, sobreviveu ainda pouco mais de 7 anos, vindo a falecer na sua residência em Peniche com 62 anos de idade, a 2/7/1944.
Jazem juntos no mausoléu, com os restos mortais de outros familiares.
Não deixaram herdeiros directos. D. Maria Luiza fez seu testamento legando as suas jóias à Santa Casa da Misericórdia de Peniche e à Irmandade de Nossa Senhora das Dores, da sua freguesia de Belém, da cidade de Lisboa. Do produto da sua venda, dividido em partes iguais, coube a cada uma das duas instituição a quantia de 6.660$00. A Misericórdia de Peniche destinou esta importância ao aumento, em ocasião própria, do valor de um título de rendas perpétuas. Outros bens foram divididos por seus sobrinhos.

NOTA — Agradeço reconhecidamente a colaboração dada para este trabalho pela Senhora D. Angelina Monteiro Seia, sobrinha-neta do Doutor Francisco Seia, distinta pianista, que seguiu os passos de sua avó paterna Angelina da Purificação na arte de dedilhar as teclas do piano na execução de belas peças musicais.
Peniche, Novembro de 2008.

1 comentário:

Anónimo disse...

como bisneta do drFrancisco Seia e embora reconheca que parte do seu artigo corresponde a' verdade, lamento que o mesmo tenha algumas coisas que nao estao correctas...