domingo, dezembro 20, 2009

quinta-feira, dezembro 03, 2009

SABIA QUE JOSEFA DE ÓBIDOS POR AMIUDADAS VEZES VIVEU EM PENICHE

Por: Fernando Engenheiro
Do enlace matrimonial celebrado na Vila de Óbidos na última década do século dezasseis entre Paulo Gomes Figueira, com a profissão de tendeiro, e Luísa Lopes, doméstica, houve os seguintes filhos:
Maria Figueira, nascida em 1594, que casou com Francisco Lopes, lavrador do Cadaval; Isabel Gomes, nascida em 1597, que casou com o serralheiro Francisco João; António Gomes Figueira, nascido ao que parece em 1600, que veio fixar residência em Peniche, na rua então designada por "do Espirito Santo" (nas imediações do actual Largo de S. Pedro). Este exerceu a actividade de mercador. Aos 27 anos de idade, ingressa na Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Peniche (L.º de juramento dos Irmãos da Santa Casa n.º 179, de 1637/1660). Aos 39 anos de idade, a 21 de Junho de 1639, verifica-se o seu óbito na Vila de Óbidos e o seu funeral ali teve lugar. Por último nasceu BALTAZAR GOMES FIGUEIRA (tem-se como certo a data do seu nascimento no ano de 1604).
Baltazar, com a idade própria do cumprimento dos deveres militares, parte aos 21 anos para a Andaluzia, integrado num contingente de oitocentos infantes portugueses, em que estavam incluídos estudantes da Universidade de Coimbra e da região de Leiria, a fim de prestar serviço militar na guarnição de Santa Maria de Cadiz, já que a governação portuguesa na época estava incluída no Governo de Espanha, sob a administração do Rei Filipe III (IV de Espanha).
Com a sua estadia ao serviço do exército, articula a acção militar com o aprendizado de pintura e estadeia nos círculos artísticos de pintores afamados na época, onde também se proporcionavam encontros no seu estabelecimento de arte na cidade de Sevilha entre os anos de 1626-1628.
Com a idade de 25 anos, em Novembro de 1629 (tudo leva a crer que ainda antes) já conhecia aquela que seria a sua futura esposa, D. Catarina Camacho de Cabrera Romero, como testemunha uma carta de "arras de promessa de casamento" passada em notário sevilhano, em Triana.
Em Novembro de 1629 celebra-se o enlace matrimonial, que tudo aponta ter ocorrido na paróquia de San Martin de Sevilha, com aquela jovem andaluza, filha de Juan Ortiz de Ayala e de sua primeira mulher D. Juana Camacho, ao tempo já falecida.
Do seu casamento, com uma certa antecipação, tiveram o primeiro filho, a que na pia baptisma1 da paroquial sevi1hana de S. Vicente, a 20 de Fevereiro de 1630, foi dado o nome de JOSEFA DE AYALA E CABRERA. Foi padrinho da criança o grande pintor Francisco de Herrera, el Viejo, homem das relações do avô materno, o mercador Juan Ortiz de Ayala. Decorridos dois anos, precisamente no mesmo dia e mês, na paroquial de San Miguel de Sevilha, com a assistência do Cónego da Catedral, Padre António de Arnijo, que serviu de padrinho, foi efectuado o baptismo do seu segundo filho, que se encontrava bastante enfermo, de seu nome "Luísa".
Com a sua nova responsabilidade de casado, assume a profissão de pintor que escolheu para o seu futuro e que abraça com todo o vigor e energia própria da sua idade.
Em 13 de Junho de 1631 é examinado pelo Grémio dos Pintores de Sevilha, com júri formado pelos pintores Miguel Guelles, Francisco Varela e Jacinto de Zamora, sendo considerado hábil e suficiente para poder praticar a arte de pintura de óleo e de dourado. sendo-lhe permitido abrir loja e receber discípulos.
É referido como:
"valtasar gomez vezino de esta ciudad en la collación de San Martin natural de la villa de obidos arcobispado de la ciudad de Lisboa hijo lexitimo de pablos gpmez y luisa lopez que es un joven de buen cuerpo los dientes apaisados de hasta edad de veinte y siete años".
Os primeiros anos que se seguiram na vida do artista não lhe sorriram profissionalmente por falta de cumprimento de certos trabalhos artísticos de poderes dados a terceiros (Pedro de Olivier e Francisco de Alquiver, de Baiona), o que deu origem a questão que envolveu um pleito que levou o artista a ser detido nos cárceres de Sevilha, sendo solto mediante fiador.
Continuando envolvido no mesmo assunto, foi pouco tempo depois sentenciado a satisfazer o pagamento de uma garantia que fora obrigado a entregar àqueles indivíduos, por intermédio do seu fiador, o português Simão da Fonseca Pina.
Talvez por estes assuntos, resolveu regressar às suas origens e, com a família então formada, fixar residência na terra onde nasceu.
A 24/6/1635 já Baltazar Figueira, com o seu agregado familiar, se encontrava em Portugal e a residir em Peniche, na casa que com seu tio compartilhou no já referido actual Largo de São Pedro.
Serve de base esta data por ter sido o dia em que foi baptizada a sua terceira filha "Basília" na Igreja matriz de Nossa Senhora de Ajuda, em Peniche (Arquivo Distrital de Leiria, L. º de Baptismos de Nossa Senhora da Ajuda, 1622-1643, fl. 46). Casou esta Basília de Ayala com o lavrador do Cadaval Manuel Borges da Costa, de quem não teve descendentes. Fez testamento em Lisboa em 1702, falecendo em Dezembro de 1705 (ANTT, Registo Geral de Testamentos, L.º 108, fls. 39v. - 141).
Não sendo conhecidas as suas qualidades artísticas no meio em que se inseriu, tenta logo apresentar trabalho, de modo a dar a conhecer o seu talento profissional.
Tudo leva a crer ser em Peniche, na época em que aqui está a residir (1635/1636), que executor a sua primeira obra após o seu regresso de Sevilha: pinta
as nove telas para o tecto de caixões da capela-mor da Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, o que custou à Irmandade erecta daquele templo 14$400 réis.
Representam aqueles óleos sobre telas: Santo Agostinho - A Adoração do Cordeiro Místico - São Gregório Magno - O Rei David - A Assunção da Virgem - O Sacrifício de Isaac - Santo Ambrósio - O Sonho de Jacob - São Jerónimo.
Parece ser também da sua autoria um arruinado painel do "Julgamento das Almas" colocado no altar designado por "das Almas" no lado da epístola na Igreja de S. Pedro, desta Cidade.
A Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Peniche, possivelmente satisfeita com aquelas obras de arte e nele depositando confiança, encarregou-o, a mando do Provedor, Francisco Viana, de pintar uma tela do "Calvário", pelo preço de 5.080 réis. Esta destinava-se a ornamentar a Sala do Despacho da Igreja daquela Instituição. (Arquivo da Mis.ª de Peniche, L.º de Receita e Despesa, 1635/1707, fls. 2).
Já a residir em Óbidos, na Rua Nova, é baptizado, a 7 de Junho de 1637, na Igreja de Santa Maria, novo filho do casal, que tomou o nome de "José". Trata-se do futuro Padre José Ortiz de Ayala, sacerdote do hábito de S. Pedro, estudante de Canones na Universidade de Coimbra, bacharel em 1658, licenciado em 1659, que foi cura em S. Pedro de Torres Vedras.
Baltazar trabalha novamente para a Santa Casa da Misericórdia de Peniche em 1641 e, com outros oficiais, recebe a quantia de 14.930 réis em parte do pagamento pela pintura de dois retábulos colaterais da Igreja.
Novo filho do casal é baptizado na Igreja de Santa Maria de Óbidos a 16 de Junho de 1641. Foi-lhe foi dado o nome de "Antónia". (Arquivo Distrital de Leiria, L.º de Mistos de Santa Maria de Óbidos, 1618/1643, fls. 56). No mesmo templo esta Antónia casa, a 19 de Março de 1659, com o pintor José Pereira da Costa, natural do Porto, filho do pintor, também portuense, António Pereira da Costa.
Com o nascimento deste seu último irmão estava Josefa há uns tempos internada pelos pais, na qualidade de "donzela emancipada de seus pais" no Convento das Ermitas Agostinhas de Santa Ana de Coimbra. Contava agora 11 anos de idade.
Ali começou os seus passos na arte de pintar óleos sobre telas, bem como na pintura sobre cobre em que também evidenciou o seu talento. A partir de então nunca mais parou, servindo-se da sua veia artística para seguir a profissão do seu avô materno assim como a de seu pai.
Com breves incursões a Peniche (em cuja Misericórdia a encontramos a trabalhar em 1679), são da sua autoria a pintura a óleo sobre tela, em forma de painel de luneta (com as dimensões: altura 0,450m. x largura 0,740m.) representando a Santa Face (obra não assinada), bem como o Calvário que é também uma pintura sobre tela, com as dimensões: altura 1,60m. x largura 1,74m., (com fragmentos da assinatura "...pha em Óbidos").
Viveu quase sempre, como é de crer, em Óbidos ou no Casal da Capeleira, próximo daquela Vila, ausentando-se apenas para realizar uma ou outra obra de maior vulto ou satisfazer qualquer encomenda excepcional.
Preenchia o seu ambiente familiar com a sua idosa mãe, viúva a partir de 1670, bem como com duas sobrinhas órfãs, Josefa Maria e Luísa (filhas da irmã Antónia e do pintor José Pereira da Costa), que a acompanharam até a morte.
Decorridos pouco mais de cinco anos de ter executado os trabalhos encomendados pela Santa Casa da Miseric6rdia de Peniche, no dia 13 de Junho de 1684, estando enferma e residindo então, com as duas sobrinhas, na Rua Direita, de Óbidos, fez testamento, "sentada sobre a cama em todo o seu perfeito juízo e entendimento". E, no mês seguinte, aos 22 de Julho de 1684, Josefa de Ayala e Cabrera, "emancipada com licença dos pais" e "mulher donzela que nunca casou", faleceu com 54 anos de idade deixando fama de suas grandes virtudes e do seu notável talento de pintora.
A sua produção artística, particularmente de índole religiosa (exceptuando-se, entretanto, algumas telas famosas com motivos de "naturezas mortas") encontram-se depositadas em diversos lugares, como a Igreja de Santa Maria de Óbidos, a Misericórdia de Figueiró dos Vinhos, a Igreja Matriz de Cas­cais, Lourinhã e Peniche, o Museu Machado de Castro (Coimbra), o Museu Nacional de Arte Antiga (Lisboa), o Museu Regional de Évora, residências particulares, etc..
APONTAMENTOS DIVERSOS:
Parentes residentes em Peniche (não foi possível, por falta de elementos, identificar o seu grau de parentesco:
(Doc. de 2/5/1627) - Domingos Gomes Figueira Francisco Figueira; João Figueira; Cristovão Figueira; Rodrigo Figueira (doc. de 1635), filho de Domingos Gomes Figueira).