sexta-feira, junho 07, 2013

Migração Nazarena que Peniche recebeu durante o século XX

               Começo par fazer referência à actual Vila da Nazaré num pequeno resumo sobre a fundação daquela povoação e seus antecedentes. Por elementos antigos por mim recolhidos, consta que os habitantes da actual “Nazaré” têm a sua origem no lugar de Paredes, na continuação da praia do Norte, a 6 quilómetros a norte da freguesia de Maiorca. Foi fundado este lugar por El-rei Dom Diniz, que lhe deu foral em Coimbra, a 17 de Dezembro de 1282 - L0. de Doações fls. 61V, col 1 -, e outro dado pelo mesmo rei, também em Coimbra, a 29 de Setembro de 1286 - Lo. de Doações do mesmo Monarca, fls. 176V, col. 1). Progrediu muito a Vila de Paredes, até 1500, mas as areias do mar foram-na invadindo e arrasando, tendo em conta também o grande maremoto que se seguiu ao terramoto que assolou uma grande parte do pais a 26 de Novembro de 1531, em que também esta zona não ficou poupada, como consta dos prejuízos causados no próprio Mosteiro de Alcobaça, que lhe fica perto, pelo que se despovoou, indo os seus moradores fundar ou reedificar a Vila da Pederneira, ficando assim, por única memória, a capela de Nossa Senhora da Vitória, que chegou até aos nossos dias a grande veneração, destes povos, a casa do ermitão e uni moinho de vento.

    Por mais de 200 anos, foi a Vila de Paredes uma povoação de bastante importância em especial marítima. Ao que nos é dado a conhecer, a própria Casa de Deus a que fazemos referência
então povoação, foi mandada edificar pelo rei Lavrador, para matriz da freguesia, onde como já afirmei, tem sido este orago objecto de muita devoção dos povos das redondezas, que lhes dedicam dias especiais para as suas manifestações de fé, bastante concorridas de romagens. Seus habitantes, ao deixarem ao abandono a Vila de Paredes, vieram se estabelecer no lugar da Pederneira, num morro que tinha a seus pés o oceano, trazendo todos os seus haveres, os seus forais e privilégios, Não tardou que os moradores do então lugar de Ílhavo, nas imediações de Aveiro, em grande parte os seus habitantes da classe piscatoria, apôs o fecho da Barra, daquele lugar, cm 1756, ficaram isolados do mar (hoje situado a cerca de sete quilómetros do oceano), obrigando aquela povoação a procurar outros locais, entre os quais “Nazaré ocupando espaço à beira-mar, cujas construções não passavam de umas cabanas para também recolherem os apetrechos de pesca. Começa a Praia da Nazaré, junto às arribas do sítio, a povoar-se no segundo quartel do século XIX, já então tinham sido abolidas as Ordens Religiosas que datam de 1834, sendo proprietária destes domínios a Ordem de S. Bernardo, com sede no Mosteiro de Alcobaça, passando a partir de então, sob a Administração do Poder Autárquico da Pederneira, que se prolongou até 1855, sendo anexado a Alcobaça e restaurado em 1898.
    O pescador desde muito cedo que se habituou a lidar com a faina do mar e a conhecer praticamente pela influência dos ventos e pelo aparecimento de certos sinais atmosféricos, os caprichos e as rabugens do mar: Sendo aquele vasto espaço salgado, tal como as terras para a população rural, tem os seus nomes e designações especiais, conhecendo o pescador a sua constituição, profundidade e por experiências, também, o modo de pesca que se deve empregar. O problema, de facto, surgia com a rebentação que se verificava na praia, consequência da ondulação, das más condições de tempo, da oscilação dos ventos, enfim! Em muitos dias não se podia ir pescar porque não se podia atravessar a zona de rebentação das ondas quando, a 50 metros da praia, o mar oferecia as melhores condições de trabalho.

   Os pescadores estavam meses sem ganhar o sustento para si e seus familiares, o que os obrigava a arriscar as suas vidas indo para o mar quando praticamente não existiam condições para tal. Dou, como exemplo, o resultado da ultima estatística de acidentes que decorreram nos anos de 1889 a 1977, em que 155 pescadores morreram na Nazaré. Não podiam mais com tanto sofrimento as mulheres, viúvas e mães, sem os seus filhos, que o mar cm grande parte não devolveu seus corpos à terra que os viu partir. O negro do seu vestuário pairava por todas as esquinas.
Considerados aqueles trabalhadores marítimos dos mais laboriosos e arrojados de todo o litoral português, em consequência da falta de segurança na pesca e até as mínimas condições, foi crescendo o desejo do abandono da actividade piscatória ao longo dos tempos. Apesar de cansados das suas precárias condições no sustento para si e seus familiares, o seu pensamento estava na pesca e os filhos nasciam-lhes já amarrados aos cabos do aparelho de pesca, tradições que se foram transmitindo de gerações para gerações. O mar continuava a matar, não havia mais por onde lutai; os dramas eram constantes tanto no mar como em terra.
   Foi logo nos primeiros anos do século XX que o grande temporal com que se despediu o mês de Setembro de 1907, se traduziu numa terrível inundação ocorrida na Nazaré, que deixou numerosas famílias sem-abrigo e determinou imensos prejuízos, invadido pelas areias que a égua arrastou a enorme distância dos areais, chegando a sua acumulação a atingir em alguns sítios a altura de mais de dois metros. As ruas principais da parte central da vila ficaram completamente obstruídas e bastantes casas subterradas até aos primeiros andares. Havia agora uma boia de salvação, mais confortável, para os mais prejudicados que pretendiam outras condições para a sua luta diária. Era Peniche a sua possível tarefa a realizar, com administração própria, enquanto a Nazaré, por ser extinto o seu concelho em 1855, passou a pertencer a Alcobaça. Anos mais tarde, foi restaurado cm 1898, mas em 1912 passou a designar-se por concelho da Nazaré, agora com todas as atribuições administrativas de concelho. Também a representação marítima era uma pequena delegação que se fazia representar no Poder Central.
  No início do século XX deu a primeira migração com rumo a Peniche. Foram famílias completas, uns a pé pela praia fora, de a fazer-se transportar com o seu foquim, com alguns alimentos para a viagem, no outro braço o gabão (oriundo dos habitantes de Ílhavo) em tecido burel, também designado por “baeta’ a mulher com a canastra de verga à cabeça, transportando alguma haveres, e os filhos transportando algumas peças roupas em pequenos sacos formados por retalhos de tecidos dos mais diversos tamanhos qualidades. Outros ainda conseguiam, mediai pagamento, serem transportados em galeras de transporte, de tracção animal puxadas carga a fazerem por duas etapas, pernoitando no lugar da Da Gorda para descanso do gado.
     As mulheres da Nazaré, com as suas características próprias que nós bem conhecemos, acostumadas a ajudar os homens, em especial na “arte xávega que consistia num velho processo de pescar muito usado naquela praia, em que o aparelho é armado a 1.000 ou a 1.500 metros da borda de água, com as duas extremidades separadas uns 300 metros no sentido paralelo à praia. Ao centro fica o “saco’ colocado de forma a constituir urna ratoeira certa para o peixe que entra na zona de influência da rede. Era um grande e rude trabalho para as mulheres, mas que colaboravam com empenho, ao lado dos seus familiares, a puxar as artes para terra, embora sempre com angústias da ida dos maridos, dos pais e dos filhos para o lançamento da rede naquelas centenas de metros, mas nunca lhes passariam pela cabeça instar para que faltassem ou desistissem. Foi assim que a mulher da Nazaré chegou a Peniche, lutadora, rude, sem qualquer preconceito da sua dignidade feminina. Foi um grande choque para a mulher de Peniche, atendendo aos seus pacatos usos e costumes, resguardada em sua casa, passando major parte do seu tempo à frente de uma almofada cilíndrica a construir a renda de bilros, maneira mais cómoda de ajudar o seu marido nas despesas familiares e para si a mais decente. Pela sua maneira de se apresentar, ao lado dos homens, sem qualquer acanhamento na sua labuta e azáfama na preparação de peixe e o seu fraco vocabulário, contrário à decência e ao pudor a mulher da Nazaré não foi bem recebida pela mulher de Peniche. Dou como exemplo dessa diferença, ainda hoje, decorrido um século, quando alguém faz uma pergunta para ir a um determinado sítio, quando não há mais referências para a sua identificação, há sempre uma penicheira a informar que naquele local até lá mora uma nazarena e já vamos na quarta geração de oriundos da Nazaré naturais de Peniche.

   Desprovida de qualquer intolerância, com a sua bem conhecida espontaneidade, no seu trabalho de braçal ao lado do homem, para seu melhor desenvolvimento, atendendo na época ao uso do seu vestuário da saia comprida a esconder os tornozelos (uma das partes do corpo da mulher de maior respeito e da mais dignidade a não ser vista) resolvia o problema com uma corda um pouco abaixo da cintura, fazendo subir até formar fole, o que ofendia na época a moral pública, pois estes são pequenos pormenores mas que a sociedade da época não aceitava. Depois de sucessivos avisos, as mulheres resolveram o problema ao usarem uns canos de meias nas pernas que, ao mesmo tempo, resolviam o problema da barra da saia sempre ensopada em salgadiço, tornando-se uma defesa para não ferir a barriga das pernas. As mulheres da Nazaré estavam sempre prontas para as desordens umas com as outras e às confusões em plena via pública, em especial junte aos marcos fontenários nos dias de bichas por a água ser escassa para o consume doméstico.
   Depois da primeira migração nos primeiros anos do século XX, outros naturais da Nazaré vieram a miúde, até que a crise da pesca se acentuou naquela vila a partir de 1930. Até essa altura, a Nazaré estava entre os grandes centros de pesca em Portugal. A crise surgiu quando a pesca da sardinha naquela costa começou a ser explorada per traineiras espanholas e portuguesas, pertencentes aos portos de Peniche, Figueira da Foz e de Leixões, que, aproveitando as características da pesca artesanal existente na Nazaré, puseram termo a todas as artes da sardinha que aí existiam. No entanto, como os pescadores confiaram na construção do porto de abrigo a fazer pelo Governo de Salazar, adquiriram, por volta de 1930, 42 traineiras movidas por propulsores mecânicos, chegando os seus proprietários, quase todos pescadores, a hipotecar todos os seus haveres. Uma vez que a promessa não foi cumprida, os seus proprietários foram obrigados a desfazerem-se delas para pagar as suas dívidas e obrigados, em grande parte, a fazerem rumo a Peniche. Assim, em 1958, ainda existiam 16 traineiras na Nazaré. Em 1959, seis, e em 1975 já não existia nenhuma, muitas também foram as embarcações que saíram com destino ao desenvolvimento da pesca em Peniche.

  Peniche e Nazaré foram dois povos que, durante o século XX, trabalharam na sua labuta de mãos dadas, recompensaram esta terra com as suas experiências e o seu saber na arte de pescar, que muito lhes devemos. Temos uma divida para com esta colónia, de nunca lhes ter dado o reconhecimento e o agradecimento em publico, pois grande parte do desenvolvimento desta península, desde o princípio do século XX, a ela se deve.

Apontamentos diversos

  Foi a 3 de Setembro de 1983 que ocorreu a abertura simbólica do Porto de Abrigo da Nazaré, na presença do Primeiro ministro da época, Dr. Mário Soares, acompanhado pelo Ministro do Mar, Carlos Melancia. A construção do Porto de Abrigo, na enseada da Nazaré, constituiu uma velha aspiração local. Os estudos para tal realização foram retomados em 1971, estudo este concessionado em 1977, após anuncio público em Maio do mesmo ano, feito pelo Primeiro-ministro, Mário Soares, que garantia assim o arranque das obras da construção do referido Porto de Abrigo. Concluída a obra, na década de 80, foram poucas as famílias que voltaram às origens, deixando a comunidade piscat6ria de Peniche.

Texto: Fernando Engenheiro

1 comentário:

Anónimo disse...

De referir um nome esquecido, que lutou bastante para que o Porto da Nazaré se tornasse realidade. Deve-se mais a ele o Porto da Nazaré do que aqueles citados, apesar da História registar Soares e Carlos Melância, Vasco da Gama Fernandes foi um incansável defensor do Porto de abrigo da Nazaré.