quarta-feira, outubro 30, 2013

SOLDADOS DA PAZ COM SEDE EM PENICHE

 
Texto: Fernando Engenheiro
    
    A necessidade de preservar a continuidade das espécies tem sido, ao longo dos tempos, uma constante preocupação do homem. Acompanhando a evolução da técnica e o crescente número de riscos, o homem procura criar meios que lhe sirvam de protecção e conservação do seu meio. O reconhecimento da acção destruidora do fogo levou os nossos antepassados a precaverem se contra os efeitos catastróficos dos incêndios. Assim, os hebreus e os gregos criaram as vigias nocturnas encarregados de efectuar rondas e dar o sinal de alarme em caso de perigo. Missão idêntica havia na antiga Roma.
   Em Portugal, corria o ano de 1395 que a primeira carta régia sobre o assunto é expedida pelo então soberano D. João I, “de Boa Memória” assim chamado pelo que deixou no mundo de suas acções ilustres. Nela se estipulava um sistema de vigilância nocturna e aviso às populações, através dos pregoeiros, alertando para os cuidados a ter com o lume em suas casas. Foram também definidas normas de actuação para extinção de incêndios e vigilância contra os roubos frequentes nestas ocasiões. Desde então e até aos nossos dias foram várias as reformas e os melhoramentos introduzidos neste serviço indispensável para o bem da humanidade. No entanto, o caminho percorrido foi moroso e difícil. Nem sempre a existência de meios era suficiente para fazer face às necessidades.
    Em relação a Capital do Reino, determinava que, em caso de incêndios, todos os habitantes, homens e mulheres, tinham de correr em socorro, munidos de machados, cântaros, potes e outros instrumentos que facilitassem o combate ao fogo. É este documento considerado a primeira ordenação que estabelece regras empíricas para apagar incêndios. Embora nele se determine a colaboração da população, essa ordenação não é mais do que um apelo ao voluntariado e à solidariedade que deve estar presente nos momentos de tragédia. Só mais tarde, porém, já na quarta dinastia, reinando o soberano D. João V, o rei cognominado por “Magnânimo’ por lhe não parecer difícil nenhuma coisa, que empreendia, e pela grandeza de suas acções, foi introduzido uma prática de combates aos fogos, baseados em experiências realizadas em França com resultados satisfatórios, com base na grande invenção para a época, das bombas de incêndios, decorrida no ano de 1722.
Criada então a Companhia de Incêndios, transformada mais tarde em Corpo de Bombeiros foi, no entanto, por iniciativa de Guilherme Cossoul (1828-1880), que se instituiu a primeira associação de bombeiros que no voluntariado tinha a sua razão de ser. Foi assim que, de época para época, numa evolução permanente, com a força de vontade de alguns e o espírito de servir de muitos, que se foram criando os alicerces e consolidando as estruturas dessas heróicas corporações de voluntários. Constituem hoje o fulcro, o dinamismo e a força dessas altruísticas Associações de Bombeiros Voluntários formadas por homens desinteressados e íntegros, que sabem dar-se na protecção e defesa do semelhante.
   Em Peniche, não se sabe ao certo a data em que se criou uma instituição visando a defesa dos haveres e vidas dos cidadãos em caso de fogo, embora tomamos em consideração, tal acto de servir o povo de Peniche, tivessem a cargo dos membros aquartelados na Fortaleza, na defesa da Península, conforme documentos de uma época que comprovam a sua actuação. “Documento lavrado em ata a 20 de Julho de 1873 que se refere a um oficio do Governador da Praça Conselheiro Joaquim Ferreira Sarmento, nos seguintes termos: Pedindo à Câmara lhe dispense, para guardar a Bomba de apagar incêndios, numa casa que esta Câmara possui na Rua da Palha, por ser mais central e no interior da povoação. A Câmara, em vista das ponderações feitas pelo dito Governador, concedeu a casa pedida para o fim indicado’.’
   Tratava-se de uma dependência na actual Rua 13 de Infantaria, pertencente ao Município, onde funcionou a antiga “Casa da Fanga” (celeiro municipal), vendida pela Câmara Municipal a um particular, Emídio Balbino, por escritura lavrada a seu favor em 1905. Passados 12 anos, a 14 de Março de 1885, no impedimento do major da praça, Manuel Ferreira Bret, o tenente-ajudante da mesma guarnição militar manda à Câmara Municipal uma cópia daquele oficio, vinculando ou talvez renovando a continuação daquela cedência a favor dos serviços militares. Não se sabe quando deixaram de exercer estas funções, assim como se desconhece também rigorosamente o seu começo.
   Havia que tomar algumas previdências para que se criasse um corpo de bombeiros pois os incêndios eram frequentes. De salientar o incêndio deflagrado de 13 para 14 de Fevereiro de 1922, às 22h00, no armazém de redes das Armações do Romina, construído em madeira e localizado no exterior da muralha, no ângulo da muralha a norte, junto à entrada por Peniche de Cima. Outro ocorrido, em 28 de Outubro de 1926, na mercearia de José do Rosário, em Peniche de Cima, de que resultou perda total do seu recheio. Havia assim a grande necessidade de criar em Peniche, de apoio também ao seu concelho, uma corporação de bombeiros, a exemplo das sedes de concelho vizinhas, que nos auxiliavam bastante em casos de emergência. Nesse sentido, em sessão camarária de 4 de Junho de 1929, presidida por António Maria de Oliveira, tendo como colaboradores os vogais Joaquim Guilherme Fana Júnior e Miguel Olavo Franco, foi tomada a seguinte deliberação: “O Sr. Presidente lamenta que não exista em Peniche uma corporação de bombeiros e reconhecendo também que a Câmara não possui rendimentos que lhe bastem para criar uma corporação de bombeiros municipais, propõe que a comissão Administrativa desta Câmara tome a iniciativa da organização de tão útil quão benemérita instituição de forma que ela seja um facto dentro de pouco tempo. Propõe mais, que para esse fim a Comissão Administrativa nomeie uma comissão Organizadora que ficara sob o seu patrocínio a quem serão entregues as verbas que a Câmara for metendo nos seus orçamentos ajudando assim a criação deste corpo de bombeiros. Aprovado por unanimidade’.
   Não tardou que naquele mesmo mês, no dia 16, fosse criada oficialmente a Associação dos Bombeiros Voluntários de Peniche, tomando em consideração os poucos rendimentos que a Câmara Municipal possuía para formar uma corporação de Bombeiros Municipais, o que acarretaria avultadas despesas que não estavam ao alcance da autarquia. Foi a sua primeira sede instalada no edifício dos Paços do Concelho, no rés-do-chão, funcionando no andar superior o actual salão nobre. Foi a primeira direcção constituída por António Maria de Oliveira (presidente), Aires Henriques Bolas (secretário), José Júlio Cerdeira (tesoureiro), António Adelino Gomes da Silva e António Nunes Ribeiro (vogais). Entretanto, ingressou como comandante António Adelino Gomes da Silva, que ficou a chefiar inicialmente os seguintes bombeiros residentes na área da jurisdição da sede do concelho: Manuel António Malheiros, Inácio Luís Ceia, José Rosado do Rio, José Maria Cartaxo, António Martins, Casimiro da Costa, António Diogo da Costa, Inácio Maria de Abreu, Mário Nobre Leitão, Joaquim Rodrigues Tormenta, José Inácio Bandeira, Jacinto Inácio de Sousa, Lino Filipe Franco, Rui Dias Loureiro, Reinaldo Gomes, Ângelo Gaspar da Mata, Manuel dos Santos Correia, José de Carvalho e Silva, José Maria das Neves, Joaquim Miguel Sousinha Júnior Quintino Augusto de Lemos, José Maria de Abreu, Joaquim Leal Paulo, José Pedro Júnior. Estes elementos desempenhavam as mais diversas profissões, tais como: carpinteiros da construção civil e de machado pedreiros, calafates, bem como empresários dos mesmos ramos, marceneiros, entre outros.
    A autarquia, logo no começo da sua organização, foi solidária em tudo aquilo que lhe foi possível e estava ao alcance das suas possibilidades financeiras. Também o Comando Militar da Praça de Peniche pôs à disposição as dependências da cidadela, bem como os terraços para as instruções, formaturas e tudo o que estivesse ao abrigo da sua competência militar. Não tardou que, a 16 de Julho de 1930, viram partir da vida presente o grande impulsionador desta obra, a quem a morte não deixou ver o êxito completo da sua nobre iniciativa, motivado por uma tuberculose óssea, aos 45 anos de idade, falecendo na sua residência, na Rua Dom Luís de Ataíde em Peniche, António Maria de Oliveira, que tomou posse na Comissão Administrativa da Câmara Municipal em 11 de Março de 1929, com pouco espaço nas suas atribuições que duraram até 29 de Abril de 1930, acumulando as funções de presidente da Comissão Municipal de Assistência. Figura de elevado carácter, nascido na então vila do Barreiro na freguesia de Santa Cruz, a 12 de Janeiro de 1885, jaz depositado no Cemitério Municipal de Santana em Peniche, em mausoléu mandado edificar pela Câmara Municipal.
    O seu substituto, para poder desempenhar cabalmente e com eficiência a sua elevada missão, havia que providenciar a aquisição de apetrechos, mas o dinheiro era escasso. Assim, no primeiro ano e noutros que se seguiram, para angariar receitas, realizaram-se quermesses e verbenas, no jardim público principal, jogos de futebol, gincanas, bailes, cinema, apresentaram-se grupos dramáticos organizaram-se festas diversas, incluindo a da “Flor’ e até vacadas. Peniche e a Associação dos Bombeiros Voluntários em 30 de Setembro de 1932, quis na interessante festa que a Comissão “Pró Bombeiros” promoveu no recinto do Jardim Público, na então vila de Peniche, nas noites de 11, 12, 13, 17, 18 e 19 de Setembro de 1932, agradecer a todos quanto contribuíram para a realização de tais festividades, que só foi possível com a grande colaboração dada pelas digníssimas senhoras: Beatriz de Bellegard Bello, Maria Emília Belo Dias, Adelaide Ferreira B de Carvalho Oliveira, Felicidade Rosa Mendes, Heloisa Jordão Vidal de Carvalho, Beatriz Andrade, Clotilde Sampaio Sena, Jovite Ângela de Abreu Trindade, Graziela da Fonseca Martins, Berta da Fonseca Martins, Sofia da Fonseca Martins, Olga Reis, Maria de Lourdes Bello, Maria Antónia Belo Dias, Maria Emília Santos Conceição, Maria da Graça Henriques, Ricardina Amaral, Lídia Andrade, Violeta Andrade, Maria Thereza Stichaner Roth, Lúcia Parreira, Aura Figueiredo de Magalhães, Ruth Paúrcio Vidal de Carvalho, António Nunes Ribeiro, José Júlio Cerdeira e José do Nascimento Ginja. Com toda a boa vontade dos participantes rendeu esta festa, 11.951$58, sendo um grande contributo para os apetrechos de incêndios a favor daquela instituição. Também todas as receitas em posse da Comissão Pró-Monumento a Jacob Rodrigues Pereira, por ter sido posta de parte a ideia da sua construção, reverteram a favor dos bombeiros (continua no próximo número).
ssos e Maria Cristina Parreira. E, também, a Comissão Pró-Bombeiros, constituída pelos excelentíssimos senhores: Joaquim Fana Júnior, Armando Sampaio Sena, António Adelino Gomes da Silva, António Luiz Pereira Montez, Tenente Rosa Mendes, Alberto Monteiro de Proença, Doutor José Bonifácio da Silva, Carlos Henrique Tavares Freire de Andrade, Doutor Carlos Henrique Graça, Aires Henriques Bolas, José Lopes, João Couceiro, António Mateus Dias, José Ac



sexta-feira, agosto 23, 2013

Limpeza, Higiene e Saneamento Básico em Peniche



O grande passo que Peniche conquistou ao longo dos anos.



São poucas as pessoas que se lembram de Peniche de outros tempos, com referencia ainda a nos princípios do segundo quartel do século passado, só nos resta os conhecimentos dos elementos que nos ficaram. Temos que dar a mão a palmatoria, ao recordarmos a passagem por Peniche, em Agosto 1919, do escritor Raùl Brandão, autor do livro “ Os pescadores”. No seu desabafo, fazendo referência à pouca higiene desta península, dizia: “ Peniche é horrível, cheira que tromba”. Em contrapartida, de visita à ilha do Baleal, escrevia: “que é a mais linda praia da terra portuguesa”. O escritor deu uma no cravo e outra na ferradura para não ficarmos muito magoados. Não vou discutir o que era Peniche na época, mas ao que tenho conhecimento, Raul Brandão não deixa de ter razão, declarações que possivelmente não apanharam a municipalidade de surpresa.
Na presidência municipal de Luís Maria Freire de Andrade, no triénio de 1923 a 1925, pela necessidade de tornar a zona da Ribeira mais asseada, visto que em dias de elevado movimento de pesca, este ponto da vila se tornava quase intransitável, agravado ainda com os despojos que vinham dos diversos armazéns da preparação de peixe que não possuíam os necessários esgotos, pensou a autarquia em mandar construir um colector geral que partindo do ponto mais alto, designado por peça, da então Rua Almirante Reis ( actual Avenida do Mar), fosse desaguar ao mar no porto designado por “De Revés”. Com a realização desta obra solucionou-se o problema com o saneamento da Ribeira, com a canalizações largas em alvenaria cobertas com lajedos arrancados na nossa costa.


No que diz respeito a limpeza e a higiene, Peniche estava bem longe de ser uma vila modernizada e limpa.Precisávamos, no entanto, afirmar que havia boa vontade da parte de todos os habitantes, na coadjuvação deste importante e grave problema. Na época dada as circunstâncias precárias e as dificuldades de instalação de uma rede de esgotos da vila, havia a grande necessidade de fazer desaparecer, para sempre, as estrumeiras junto das portas e dentro das habitações. Também era de toda a necessidade que algumas mães educassem os seus filhos para que deixassem de fazer na rua, junto das portas das habitações, as necessidades fisiológicas, sem respeito algum pelos mais rudimentares princípios de limpeza, de educação e de moral, transgredindo assim as posturas municipais, em que destaco o Código de Posturas da Câmara Municipal de Peniche, aprovado em sessão da Comissão Distrital de 10 de Dezembro de 1913, no capitulo XXIII da higiene e Salubridade Pública. Era preciso respeitar, pondo em prática o referido código, acabar de vez com o péssimo hábito de varrer o lixo e outras imundices para a rua, quando este devia ser reservado em caixotes tapados até podendo ser, evitando assim a aglomeração do então infernal mosquedo, e os quais todos os dias da manhã se colocavam às portas das habitações para serem recolhidos pelo pessoal da limpeza ao serviço do Município e despejado nas respectivas carroças do lixo, então na época puxadas por um macho.

Em continuação com os velhos usos e maus costumes da época, era preciso, finalmente, pôr termo ao vergonhoso e repugnante espectáculo dos grupos de certas mulheres que, sem respeito algum pelos habitantes e por quem nos visitava, se entretinham, nalguns pontos até mais frequentados da vila, despiolharem-se com o maior descaro, atestando, assim, a sua grande falta de asseio, tanto corporal como espiritual.


No meio de todos estes cumprimentos a exigir da população o melhor sentido de viver, procurando recursos mais favoráveis à saúde em geral, havia também que pôr mãos à obra das condições sanitárias necessárias para assegurar a qualidade de vida da população, através da canalização dos esgotos para usos domésticos, com o desempenho das águas pluviais que lhes serviria de descarga na limpeza das canalizações, direito ao mar . Foi a partir de 1942, na presidência da Câmara Municipal de José Bonifácio da Silva, que a firma 'Fábricas Jerónimo Pereira Campos & Filhos', com sede em Aveiro, forneceu à autarquia, manilhas de grés cerâmica e acessórios destinados à rede de esgotos de Peniche. Foi o referido contrato assinado com a firma fornecedora a 9 de Julho de 1942, pela importância de 311.673$45, depois da deliberação camarária tornada em sessão no dia 2 daquele mês e ano, cuja a obra só foi possível pelo empréstimo feito daquela importância à Caixa Geral de Depósitos, com sede em Lisboa, entidade que muito contribuiu para as obras das autarquias. Por todo o espaço destinado ao assentamento de manilhas e caixas de derivação, foi difícil o trabalho executado com a força dos braços dos seus executantes, depois de extraírem toda a pedra encontrada todo longo do percurso no subsolo. As despesas foram avultadas, o que obrigou a um trabalho demorado e por zonas, a incluir nos orçamentos municipais para os anos que se seguiam.

O presidente da municipalidade que se seguiu, José da Mota Coutinho Garrido, deu o grande arranque durante o seu mandato, quase exclusivamente preenchido com aquela obra de grande interesse para Peniche, onde também foram incluídas as águas pluviais, com valetas nos arruamentos e sarjetas para receberem as águas da chuva, ao mesmo tempo e no mesmo percurso do assentamento das manilhas, se procedeu à destruição dos sumidouros particulares e públicos, além dos canos parciais e sifões. Também o presidente que se seguiu, António da Conceição Bento, a partir do seu mandato, a 4 de Agosto de 1946, deu continuação às obras de saneamento com grande desenvolvimento, atendendo a grande evolução da construção de bairros sociais e particulares, com o rasgar de novos arruamentos e ao mesmo tempo substituição das antigas manilhas de grés por outras em cimento de maiores dimensões, justificando a grande evolução populacional que Peniche estava a sentir.


Até então continuava-se a fazer todos os despejos para o mar em todas as direcções. Todo o núcleo habitacional da baixa de Peniche tinha o seu percurso direito ao fosso da fortaleza, vulgarmente conhecido por Doca, com diversas saídas na muralha. Junto a prainha de S. Pedro, na esquina do Baluarte, na entrada principal para a Fortaleza, funcionou por longos anos uma pia larga de despejo para os particulares que não tinham esgotos nas suas próprias habitações, resolvendo assim a muitas mulheres o problema com um pote – também vulgarmente conhecido por azado – em que ao fim do dia despejavam os dejectos. A parte alta da vila também tinha o seu problema resolvido com o esgotar para o carreiro fedorento, na costa sul.



Foi já no dealbar do século que novos rumos foram criados a favor do saneamento na cidade de Peniche, que passo a descrever um pequeno resumo:” A nova Estação de Tratamento de Águas Residuais ( ETAR) de Peniche, foi oficialmente inaugurada a 29 de Agosto de 2001 numa cerimonia presidida pelo ministro do ambiente, José Sócrates, na presença de Jorge Resende Gonçalves, então a frente dos destinos do Município e outras entidades civis e militares”. Esta estação tem a capacidade de tratamento para mais de 46 mil habitantes e inclui uma unidade de tratamento de gorduras provenientes de gorduras das industrias conserveiras locais, considerada a maior da Europa, uma obra com um custo global de cerca de um milhão de contos, 75% dos quais comparticipados por fundos comunitários e os restantes 25% pela autarquia.





Texto & Fotos: Fernando Engenheiro





sexta-feira, junho 07, 2013

Migração Nazarena que Peniche recebeu durante o século XX

               Começo par fazer referência à actual Vila da Nazaré num pequeno resumo sobre a fundação daquela povoação e seus antecedentes. Por elementos antigos por mim recolhidos, consta que os habitantes da actual “Nazaré” têm a sua origem no lugar de Paredes, na continuação da praia do Norte, a 6 quilómetros a norte da freguesia de Maiorca. Foi fundado este lugar por El-rei Dom Diniz, que lhe deu foral em Coimbra, a 17 de Dezembro de 1282 - L0. de Doações fls. 61V, col 1 -, e outro dado pelo mesmo rei, também em Coimbra, a 29 de Setembro de 1286 - Lo. de Doações do mesmo Monarca, fls. 176V, col. 1). Progrediu muito a Vila de Paredes, até 1500, mas as areias do mar foram-na invadindo e arrasando, tendo em conta também o grande maremoto que se seguiu ao terramoto que assolou uma grande parte do pais a 26 de Novembro de 1531, em que também esta zona não ficou poupada, como consta dos prejuízos causados no próprio Mosteiro de Alcobaça, que lhe fica perto, pelo que se despovoou, indo os seus moradores fundar ou reedificar a Vila da Pederneira, ficando assim, por única memória, a capela de Nossa Senhora da Vitória, que chegou até aos nossos dias a grande veneração, destes povos, a casa do ermitão e uni moinho de vento.

    Por mais de 200 anos, foi a Vila de Paredes uma povoação de bastante importância em especial marítima. Ao que nos é dado a conhecer, a própria Casa de Deus a que fazemos referência
então povoação, foi mandada edificar pelo rei Lavrador, para matriz da freguesia, onde como já afirmei, tem sido este orago objecto de muita devoção dos povos das redondezas, que lhes dedicam dias especiais para as suas manifestações de fé, bastante concorridas de romagens. Seus habitantes, ao deixarem ao abandono a Vila de Paredes, vieram se estabelecer no lugar da Pederneira, num morro que tinha a seus pés o oceano, trazendo todos os seus haveres, os seus forais e privilégios, Não tardou que os moradores do então lugar de Ílhavo, nas imediações de Aveiro, em grande parte os seus habitantes da classe piscatoria, apôs o fecho da Barra, daquele lugar, cm 1756, ficaram isolados do mar (hoje situado a cerca de sete quilómetros do oceano), obrigando aquela povoação a procurar outros locais, entre os quais “Nazaré ocupando espaço à beira-mar, cujas construções não passavam de umas cabanas para também recolherem os apetrechos de pesca. Começa a Praia da Nazaré, junto às arribas do sítio, a povoar-se no segundo quartel do século XIX, já então tinham sido abolidas as Ordens Religiosas que datam de 1834, sendo proprietária destes domínios a Ordem de S. Bernardo, com sede no Mosteiro de Alcobaça, passando a partir de então, sob a Administração do Poder Autárquico da Pederneira, que se prolongou até 1855, sendo anexado a Alcobaça e restaurado em 1898.
    O pescador desde muito cedo que se habituou a lidar com a faina do mar e a conhecer praticamente pela influência dos ventos e pelo aparecimento de certos sinais atmosféricos, os caprichos e as rabugens do mar: Sendo aquele vasto espaço salgado, tal como as terras para a população rural, tem os seus nomes e designações especiais, conhecendo o pescador a sua constituição, profundidade e por experiências, também, o modo de pesca que se deve empregar. O problema, de facto, surgia com a rebentação que se verificava na praia, consequência da ondulação, das más condições de tempo, da oscilação dos ventos, enfim! Em muitos dias não se podia ir pescar porque não se podia atravessar a zona de rebentação das ondas quando, a 50 metros da praia, o mar oferecia as melhores condições de trabalho.

   Os pescadores estavam meses sem ganhar o sustento para si e seus familiares, o que os obrigava a arriscar as suas vidas indo para o mar quando praticamente não existiam condições para tal. Dou, como exemplo, o resultado da ultima estatística de acidentes que decorreram nos anos de 1889 a 1977, em que 155 pescadores morreram na Nazaré. Não podiam mais com tanto sofrimento as mulheres, viúvas e mães, sem os seus filhos, que o mar cm grande parte não devolveu seus corpos à terra que os viu partir. O negro do seu vestuário pairava por todas as esquinas.
Considerados aqueles trabalhadores marítimos dos mais laboriosos e arrojados de todo o litoral português, em consequência da falta de segurança na pesca e até as mínimas condições, foi crescendo o desejo do abandono da actividade piscatória ao longo dos tempos. Apesar de cansados das suas precárias condições no sustento para si e seus familiares, o seu pensamento estava na pesca e os filhos nasciam-lhes já amarrados aos cabos do aparelho de pesca, tradições que se foram transmitindo de gerações para gerações. O mar continuava a matar, não havia mais por onde lutai; os dramas eram constantes tanto no mar como em terra.
   Foi logo nos primeiros anos do século XX que o grande temporal com que se despediu o mês de Setembro de 1907, se traduziu numa terrível inundação ocorrida na Nazaré, que deixou numerosas famílias sem-abrigo e determinou imensos prejuízos, invadido pelas areias que a égua arrastou a enorme distância dos areais, chegando a sua acumulação a atingir em alguns sítios a altura de mais de dois metros. As ruas principais da parte central da vila ficaram completamente obstruídas e bastantes casas subterradas até aos primeiros andares. Havia agora uma boia de salvação, mais confortável, para os mais prejudicados que pretendiam outras condições para a sua luta diária. Era Peniche a sua possível tarefa a realizar, com administração própria, enquanto a Nazaré, por ser extinto o seu concelho em 1855, passou a pertencer a Alcobaça. Anos mais tarde, foi restaurado cm 1898, mas em 1912 passou a designar-se por concelho da Nazaré, agora com todas as atribuições administrativas de concelho. Também a representação marítima era uma pequena delegação que se fazia representar no Poder Central.
  No início do século XX deu a primeira migração com rumo a Peniche. Foram famílias completas, uns a pé pela praia fora, de a fazer-se transportar com o seu foquim, com alguns alimentos para a viagem, no outro braço o gabão (oriundo dos habitantes de Ílhavo) em tecido burel, também designado por “baeta’ a mulher com a canastra de verga à cabeça, transportando alguma haveres, e os filhos transportando algumas peças roupas em pequenos sacos formados por retalhos de tecidos dos mais diversos tamanhos qualidades. Outros ainda conseguiam, mediai pagamento, serem transportados em galeras de transporte, de tracção animal puxadas carga a fazerem por duas etapas, pernoitando no lugar da Da Gorda para descanso do gado.
     As mulheres da Nazaré, com as suas características próprias que nós bem conhecemos, acostumadas a ajudar os homens, em especial na “arte xávega que consistia num velho processo de pescar muito usado naquela praia, em que o aparelho é armado a 1.000 ou a 1.500 metros da borda de água, com as duas extremidades separadas uns 300 metros no sentido paralelo à praia. Ao centro fica o “saco’ colocado de forma a constituir urna ratoeira certa para o peixe que entra na zona de influência da rede. Era um grande e rude trabalho para as mulheres, mas que colaboravam com empenho, ao lado dos seus familiares, a puxar as artes para terra, embora sempre com angústias da ida dos maridos, dos pais e dos filhos para o lançamento da rede naquelas centenas de metros, mas nunca lhes passariam pela cabeça instar para que faltassem ou desistissem. Foi assim que a mulher da Nazaré chegou a Peniche, lutadora, rude, sem qualquer preconceito da sua dignidade feminina. Foi um grande choque para a mulher de Peniche, atendendo aos seus pacatos usos e costumes, resguardada em sua casa, passando major parte do seu tempo à frente de uma almofada cilíndrica a construir a renda de bilros, maneira mais cómoda de ajudar o seu marido nas despesas familiares e para si a mais decente. Pela sua maneira de se apresentar, ao lado dos homens, sem qualquer acanhamento na sua labuta e azáfama na preparação de peixe e o seu fraco vocabulário, contrário à decência e ao pudor a mulher da Nazaré não foi bem recebida pela mulher de Peniche. Dou como exemplo dessa diferença, ainda hoje, decorrido um século, quando alguém faz uma pergunta para ir a um determinado sítio, quando não há mais referências para a sua identificação, há sempre uma penicheira a informar que naquele local até lá mora uma nazarena e já vamos na quarta geração de oriundos da Nazaré naturais de Peniche.

   Desprovida de qualquer intolerância, com a sua bem conhecida espontaneidade, no seu trabalho de braçal ao lado do homem, para seu melhor desenvolvimento, atendendo na época ao uso do seu vestuário da saia comprida a esconder os tornozelos (uma das partes do corpo da mulher de maior respeito e da mais dignidade a não ser vista) resolvia o problema com uma corda um pouco abaixo da cintura, fazendo subir até formar fole, o que ofendia na época a moral pública, pois estes são pequenos pormenores mas que a sociedade da época não aceitava. Depois de sucessivos avisos, as mulheres resolveram o problema ao usarem uns canos de meias nas pernas que, ao mesmo tempo, resolviam o problema da barra da saia sempre ensopada em salgadiço, tornando-se uma defesa para não ferir a barriga das pernas. As mulheres da Nazaré estavam sempre prontas para as desordens umas com as outras e às confusões em plena via pública, em especial junte aos marcos fontenários nos dias de bichas por a água ser escassa para o consume doméstico.
   Depois da primeira migração nos primeiros anos do século XX, outros naturais da Nazaré vieram a miúde, até que a crise da pesca se acentuou naquela vila a partir de 1930. Até essa altura, a Nazaré estava entre os grandes centros de pesca em Portugal. A crise surgiu quando a pesca da sardinha naquela costa começou a ser explorada per traineiras espanholas e portuguesas, pertencentes aos portos de Peniche, Figueira da Foz e de Leixões, que, aproveitando as características da pesca artesanal existente na Nazaré, puseram termo a todas as artes da sardinha que aí existiam. No entanto, como os pescadores confiaram na construção do porto de abrigo a fazer pelo Governo de Salazar, adquiriram, por volta de 1930, 42 traineiras movidas por propulsores mecânicos, chegando os seus proprietários, quase todos pescadores, a hipotecar todos os seus haveres. Uma vez que a promessa não foi cumprida, os seus proprietários foram obrigados a desfazerem-se delas para pagar as suas dívidas e obrigados, em grande parte, a fazerem rumo a Peniche. Assim, em 1958, ainda existiam 16 traineiras na Nazaré. Em 1959, seis, e em 1975 já não existia nenhuma, muitas também foram as embarcações que saíram com destino ao desenvolvimento da pesca em Peniche.

  Peniche e Nazaré foram dois povos que, durante o século XX, trabalharam na sua labuta de mãos dadas, recompensaram esta terra com as suas experiências e o seu saber na arte de pescar, que muito lhes devemos. Temos uma divida para com esta colónia, de nunca lhes ter dado o reconhecimento e o agradecimento em publico, pois grande parte do desenvolvimento desta península, desde o princípio do século XX, a ela se deve.

Apontamentos diversos

  Foi a 3 de Setembro de 1983 que ocorreu a abertura simbólica do Porto de Abrigo da Nazaré, na presença do Primeiro ministro da época, Dr. Mário Soares, acompanhado pelo Ministro do Mar, Carlos Melancia. A construção do Porto de Abrigo, na enseada da Nazaré, constituiu uma velha aspiração local. Os estudos para tal realização foram retomados em 1971, estudo este concessionado em 1977, após anuncio público em Maio do mesmo ano, feito pelo Primeiro-ministro, Mário Soares, que garantia assim o arranque das obras da construção do referido Porto de Abrigo. Concluída a obra, na década de 80, foram poucas as famílias que voltaram às origens, deixando a comunidade piscat6ria de Peniche.

Texto: Fernando Engenheiro

sábado, março 24, 2012

Ford Lusitana, Lisboa, Portugal


Arte Mecanica.

Foto: Galeria de Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian


domingo, setembro 11, 2011

Antiga Lota de Peniche

Vestígios do passado, estas ruínas foram durante muitos anos o coração e a alma de Peniche, uma pequena homenagem a um edifício que vai desaparecer com uma historia muito rica.

Fotos de: INGEBORG LIPPMANN Livro “ O Fisher Boy of Portugal

sexta-feira, setembro 09, 2011

Doutor João Matos de Bilhau Livro dos Quintanistas de Medicina 1936 -1937







Em homenagem ao Doutor João Matos de Bilhau, agradeço o Fernando Lino que me permitiu de divulgar estas imagens do “ Livro dos Quintanistas de Medicina 1936 -1937 “, de um homem que, no dia do seu funeral, vi muita gente chorar e não eram lágrimas de crocodilo.

segunda-feira, junho 27, 2011

Região Oeste Óbidos

Cartaz publicitário

http://www.flickr.com/photos/biblarte/

Fotógrafo: Estúdio Horácio Novais.
Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Horácio Novais, 1930-1980
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sexta-feira, maio 20, 2011

O Tempo Tem Valor


Relógio de ouro Leroy

Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983.

"A Exposição Universal do novo século é para Leroy a oportunidade de desenvolver a Leroy 01, o relógio mais complicado do mundo. O resultado de 3 anos de pesquisas reúne 25 sistemas, 975 peças, num mecanismo de 4 níveis contido numa caixa de ouro de 228 gramas de peso e de 7cm de diâmetro. Esta peça encomendada por um coleccionador português recebeu o grande prémio da Exposição Universal e foi o rei D. Manuel de Portugal, cliente fiel da marca, que estando em Paris se propôs fazer o transporte do relógio para Portugal. Tendo sido assim que convocado alguns dias mais tarde para o Palácio de Lisboa, O Sr. Carvalho Monteiro recebeu das mãos do seu soberano, o prestigiado objecto. Actualmente esta obra-prima encontra-se em exposição no Museu do Tempo do Palácio Granvelle, em Bensançon, França" - Trad. do catalog., a partir do site: www.l - leroy.com - montres l. leroy

Fotos & Texto: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

http://www.flickr.com/photos/biblarte/with/5725806483/

quarta-feira, maio 04, 2011

Sobrevoando Peniche Portugal - Flying Over Peniche Portugal


Filmado nos anos 80, mostra imagens aéreas de toda a costa da península de Peniche e ilha do Baleal a partir da prospectiva de uma Asa-Delta. Realizado e produzido por Rui Alexandre Ramos "Sobrevoando Peniche" com Manuel da Costa Botas e a participação especial da Escola de Vôo-Livre do Aero-Club de Portugal.

sexta-feira, abril 22, 2011

quinta-feira, abril 21, 2011

Missão Científica a Peniche 1908


Missão científica a Peniche, um dos automóveis que conduziu os membros da missão 1908.

Fotos: Arquivo Municipal de Lisboa http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/

terça-feira, abril 19, 2011

Portinho do Meio 1970 (Peniche)


Embarcações e Pescadores de Peniche

Autor: Pastor, Artur, 1922-1999

Fotos: Arquivo Municipal de Lisboa http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/

domingo, abril 17, 2011

Descarga de Peixe em Peniche 1970 VI


Embarcações e pescadores junto ao cais de Peniche

Autor: Pastor, Artur, 1922-1999

Arquivo Municipal de Lisboa http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/

sábado, abril 16, 2011

Descarga de Peixe em Peniche 1970 V


Embarcações e pescadores junto ao cais de Peniche

Autor: Pastor, Artur, 1922-1999

Fotos: Arquivo Municipal de Lisboa http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/

sexta-feira, abril 15, 2011

Descarga de Peixe em Peniche 1970 IV


Embarcações e pescadores junto ao cais de Peniche
Autor: Pastor, Artur, 1922-1999
Fotos: Arquivo Municipal de Lisboa http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/

quinta-feira, abril 14, 2011

Descarga de Peixe em Peniche 1970 III

Embarcações e pescadores junto ao cais de Peniche

Autor: Pastor, Artur, 1922-1999

Fotos: Arquivo Municipal de Lisboa http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/

quarta-feira, abril 13, 2011

Berlengas 1934 (Peniche)

Passeio 1934 Agosto

Peniche, Chegada do passeio às Berlengas 1934 Agosto


Forte de São João Baptista 1934 Agosto


Forte de São João Baptista 1934 Agosto

Fotos: Arquivo Municipal de Lisboa http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/