quinta-feira, setembro 11, 2008

APONTAMENTOS PARA A HISTÓRIA DA REPRESENTAÇÃO EM PENICHE DA CAIXA GERAL DE DEPOSITOS, CREDITO E PREVIDÊNCIA

Fernando Engenheiro:
Com a designação de Caixa Geral de Depósitos e Instituições de Previdência, esta instituição bancária foi criada no nosso Pars por Lei de 10 de Abril de 1876. Os seus serviços foram reorganizados e ampliados pelas Leis de 30 de Dezembro de 1892, 21 de Maio de 1896, 23 de Junho de 1897, 30 de Junho de 1898 e outras que se têm seguido ao longo da sua existência ao serviço do País.
A Lei de 21 de Maio ,de 1896 estabeleceu uma “Caixa de Reformados” para operários assalariados e um “Monte de Piedade” sob a administração da “Caixa Geral de Depósitos”, do que proveio a ampliação do respectivo titulo com a denominação de “Instituições de Previdência”. Porém estas instituições, ao que nos é dado conhecer, não terão passado da Lei.
Trata-se de um organismo autónomo do Estado Português que, ao longo dos anos, tem reforçado a sua posição, com alterações de funções que se desdobram em diversos serviços privativos, tais como: Caixa de Depósitos Obrigatórios, Caixa Económica Portuguesa, Casa de Crédito Popular, Repartição de Operações Financeiras e Bancárias, Repartição de Transferências e Cobranças, etc.
Também é de salientar nestes serviços anexos a Caixa Nacional de Crédito, Caixa Geral de Aposentações e Montepio dos Servidores do Estado.
Em Peniche, já com o seu vasto movimento comercial e industrial a partir da década de 1920, ligado à pesca, com a construção de fábricas de conservas e a exportação de peixe, sentia-se a necessidade de se criar uma delegação ou agência daquela Caixa Geral de Depósitos, atendendo a que em Peniche somente existia uma agência bancária, criada no primeiro lustre que se seguiu à implantação da República (5/10/1910), designada por “Viúva de António Trindade — Sucessor - Francisco de Freitas Trindade”, correspondente na época de 30 bancos das mais diversas origens (Portugal Continental, Insular, Ultramarino e outros países).
A Câmara Municipal da presidência de António Maria de Oliveira, nos princípios de 1929, interferiu no assunto, oferecendo, a titulo de cedência sem qualquer reembolso, ao Inspector da Caixa Geral de Depósitos, duas dependências do piso inferior do edificio dos Paços do Concelho, que se encontravam praticamente sem quai- quer aproveitamento desde a extinção da Administração do Concelho, ocorrida em 1926, cujos serviços haviam ocupado aquele espaço.
Inspeccionado o local, concordaram ambas as partes que a Câmara Municipal mandaria proceder, a suas expensas, a obras de adaptação não só de todo o seu interior mas também da fachada do edifício, com a substituição de uma janela por porta em ferro trabalhado, garantindo a necessária segurança para o fim a que se destinava.
Em reunião camarária de 25/3/1929, foi apresentado o oficio n° 21 13, do Inspector da Caixa Geral de Depósitos, onde se perguntava o seguinte:
“Se esta Câmara deseja fazer indicação do indivíduo que deve exercer as funções de Tesoureiro na agência da referida Caixa, a inaugurar brevemente nesta Vila”- Inteirada, foi resolvido “agradecer, deixando a escolha do Tesoureiro, livre, à dita Caixa.”
Com as alterações do poder, a 27-04-1928, assumin do o cargo de Ministro das Finanças o Doutor António de Oliveira Salazar, aguardou-se a reforma dos impostos e das pautas com a reorganização do crédito com alterações na Caixa Geral dos Depósitos, pelo que só foi possível a criação da Delegação de Peniche alguns anos depois, que tudo aponta para Setembro de 1935.
Entretanto, no rés-do-chão do edificio dos Paços do Concelho, funcionou o instituto D. Luís de Ataíde, estabelecimento de ensino secundário então criado e apoiado pelo Município. Terminado o ano lectivo e transferido o instituto para instalações situadas no primeiro piso de um edifício situado na Rua Almirante Reis (actual Avenida do Mar) foi para ali transferida a Tesouraria da Fazenda Pública, que vinha funcionando no rés do chão do edifício onde também funcionava a Repartição de Finanças (Largo do Municipio tornejando para a Travessa dos Mareantes).
Ficaram a partir de então a cargo da Repartição de Finanças e da Tesouraria da Fazenda Pública, por acumulação , os Serviços da Delegação da Caixa Geral de Depósitos, Crédito e Previdência, para servir Peniche e seu Concelho.
Assim, ao longo de mais de quatro décadas, em precárias condições de instalação, fomos servidos por aquelas Repartições.
Sentia-se a grande necessidade da criação de uma Delegação mais apropriada para o fim em vista, com condições adequadas ao movimento que lhe era exigido como estabelecimento bancário, com empréstimo de capitais àqueles que os solicitavam, para a transferência de capitais duma praça para outra, com o recebimento dos depósitos dos clientes, etc. etc.
Sabemos que as instituições de crédito e os seus estabelecimentos são importantes factores de desenvolvimento já que no crédito assenta a prosperidade comercial de um país.
Para as desejadas novas instalações foram os olhos postos num edificio de rés-do-chão da zona mais central de Peniche, em pleno “rocio”, frente ao Jardim Público. Foi nele que foi instalada a dependência n°146 da Caixa Geral de Depósitos.
O edifício em causa fora construído em 1950 pelo seu proprietário, Joaquim Lucas Cardoso Franqueira, que nele instalara um “Café - Pastelaria - Salão de Chá - Bilhares”, inaugurado a 13/9/1950. Anos depois o estabelecimento passou a ser explorado por António Cândido Parreira que procedeu a grandes remodelações com o seu alargamento para criação de uma sala de restaurante. Anos se seguiram com outros concessionários da sua exploração que terminou com a instalação ali de um “stand” de automóveis.
A Caixa Geral de Depósitos entrou em negociações com o então proprietário Francisco Alexandre Vidal Franqueira (herdeiro do anterior), com quem ajustou o aluguer do imóvel para instalação da sua nova Agência.
No 1 dia de Março de 1978, dispondo de espaços convenientemente adaptados, teve lugar a respectiva inauguração.
No acto estiveram presentes diversas entidades, quer locais quer representativas da Caixa, sendo de entre estas últimas de destacar a figura do Administrador-Geral Substituto, Dr. Julio Rodrigues.
Dirigindo-se aos convidados, quis esta entidade ter palavras de saudação à população de Peniche, a quem a instituição de Crédito em causa se dispunha, no âmbito da sua acção, a prestar os melhores serviços.
Ficou na época a responsabilidade pela administração da Agência a cargo do Sr. Joaquim Ferreira Duarte.
Ao longo destes 30 últimos anos, completados em Março de 2008, na sua nova sede, a Agência da Caixa tem sido um orgulho para Peniche contribuindo com o seu alto patrocinio para o bom desenvolvimento da nossa Terra.
Na sua gerência manteve-se, até há pouco tempo, o nosso conterrâneo Senhor Luis Tormenta, recentemente em situação de pré-reforma.

terça-feira, setembro 09, 2008

Transporte de Passageiros para as Berlengas


2008 1938
Setenta anos separam estas duas fotografias, imagino o que seria na época, uma viagem para as Berlengas, com forte ondulação.

Peniche Fins Anos 60 Panoramica Paça J.Rodrigues

Montagem de 2 fotos

segunda-feira, setembro 08, 2008

Peniche, 9 MAIO 1952 - OBRAS: PORTO DE PESCA


Leonard Bernstein: West Side Story, studio-takes. (4)

Sem comentarios so qualidade

Peniche Antiga Ribeira anos 60 Provavelmente


Peniche : Remédios, Sirios 22 OUT 1951


QUEM FOI António MARIA DE OLIVEIRA

Por: Fernando Engenheiro
ANTÓNIO MARIA DE OLIVEIRA foi seu nome completo, filho de Manuel Duarte de Oliveira e de Teresa de Jesus Caeiro, natural da Paroquial de Santa Cruz da então Vila e Concelho do Barreiro, distrito de Setúbal, onde foi baptizado, a 5/4/1885, pouco tempo apôs o seu nascimento ocorrido a 12 de Janeiro daquele ano.
Oriundo de uma família modesta, seu pai, de profissão serralheiro, faleceu aos 42 anos de idade, a 29/5/1892, tendo deixado órfãos 4 filhos menores, sendo o António dos mais novos com 7 anos de idade.
Sua mãe, doméstica, desamparada, sem meios para os sustentar, auxiliada pelo Padre da sua freguesia, Rev. Francisco António Quintão, que intercede, perante a Administração da Real Casa Pia de Lisboa, como Estabelecimento Pio, onde seu filho António possa receber a educação e instrução por caridade. para assim poder dar um pouco de alivio à sua situação económica com elevada carência.
Depois de formar o processo burocrático com a documentação necessária para a sua admissão como aluno interno, gozava de perfeita saúde conforme atesta o facultativo municipal do Barreiro, num documento passado a 01/08/1882. Pela mão de sua mãe, dá entrada naquele Real Estabelecimento Pio a 21 de Fevereiro de 1893. Coube-Ihe o numero de matricula “21 89” que o acompanhou sempre durante o seu internato.
Começa por dar os primeiros passos na primeira classe da instrução Primária, admitido a 28 de Fevereiro, e no mesmo dia procedeu-se à inspecção Sanitária com bom resultado.
Aos 13 anos de idade começa a ter problemas de saúde. É lhe diagnosticado “embaraço gástrico”. Por falta de recursos médicos naquele Estabelecimento é entregue a sua mãe com o subsidio de 30$000 réis anuais por tempo indeterminado aguardando-se suas melhoras para readmissão, que foi satisfeita algum tempo depois.
A 20 de Julho de 1904, já com 19 anos de idade. foi informado pela instituição de o tempo do seu aprendizado tinha terminado e estava apto para ganhar os meios de vida.
Propôs o provedor que ao referido aluno se desse baixa na matricula daquela Casa e se lhe concedesse o respectivo subsidio na importância de 10$000 réis.
Trazia na sua bagagem habilitações que lhe davam grande esperança no futuro. Por razões desconhecidas fixa-se em Sobral de Monte Agraço como desenhador civil o que lhe deu grande prestígio ao longo da sua carreira. Não menos importante foi a pintura artística que lhe vinha dos bancos da escola, onde estudou com altas classificações .
Fez exposições individuais e colectivas com grande sucesso. São disso prova os prémios que na época lhe foram atribuídos. A sua acção artistica e intelectual manifestava-se sempre com o objectivo de lutar por aquilo em que acreditava com o seu saber, explorando o mais possível todo o intelecto desenvolvido durante o período do seu internamento no estabelecimento de ensino que frequentara.
Tinha grandes relações com poetas da época onde também a sua veia artística se manifestava. Além de outras qualidades já mencionadas era poeta, sendo também esplêndido conversador e orador.
Com todos estes predicados, o ambiente intelectual onde estava inserido deu-lhe oportunidade de desempenhar na Câmara Municipal de Lisboa o cargo politico de “Vereado ainda no primeiro quartel do século passado.
Aos 29 anos de idade casou-se com Próspera Magna Perfeita de Carvalho, com 18 anos de idade, natural de Alandroal, filha de um oficial da Guarda Fiscal que na época exercia a sua actividade na fronteira com Espanha (nascida prematuramente em viagem não considerava como sua a terra que a viu nascer).
Muito cedo começou a ter problemas de saúde do foro reumatológico pelo que, para seu tratamento, procurou residir em ambiente marítimo. Fixou residência por algum tempo na linha do Estoril (S. Pedro e Parede). Por conselho médico veio a fixar-se em S. Bernardino, no nosso Concelho, onde, durante a sua estadia por estas bandas, rapidamente foi reconhecido o seu valor e as suas qualidades pelos moradores e veraneantes.
Tendo conhecimento de que o sitio dos Remédios era afamado pelo seu clima na cura de doenças ósseas, aqui fixou residência, na companhia de sua esposa, ocupando a título de aluguer uma casa que pertenceu à familia Barnabé de Peniche.
Não tardou que a sua personalidade se tomasse notada pelas suas qualidades de trabalho. Era então Guarda-Livros de uma das fábricas de conservas de Peniche. (Refira-se que a sociedade penichense da época recebeu sempre muito bem a integração de todos os elementos que eram colocados na gerência ou nos escritórios nos das unidades fabris então aqui instaladas).
Pouco tempo depois, com a saída de Eduardo Helder Caldas Pereira da gestão da Câmara Municipal, de 21/7/1926 a 22/2/1929, foi convidado por politicos influentes de Peniche para presidir à Comissão Administrativa deste Municipio, convite que aceitou.
Esta Comissão Administrativa, em que se encontrava acompanhado pelos Vogais Joaquim Guilherme de Faria Júnior e Miguel Olavo Franco, tomou posse em 11/3/1929 e “arregaçando as mangas” desde logo se mostrou pronta para trabalhar activamente em prol de Peniche e seu Concelho.
No mês de Maio seguinte deram conhecimento ao Ministro do Interior das grandes necessidades deste Municipio apontando os problemas que urgia resolver.
Transcrevo na integra o teor da exposição apresentada:
“Não tem a vila de Peniche colectores nem obra alguma de saneamento, motivo porque as estrumeiras se contam às centenas, dentro das próprias casas, com risco iminente para a saúde pública e se não fosse a acção enérgica desta Comissão Administrativa, que algumas fossas tem obrigado a fazer, e uns pequenos ramais de colectores para o mar (que alguns proprietários têm feito em substituição das fossas, toda a gente manteria junto do quarto de dormir a arrecadação dos seus próprios dejectos. É por isso também que as ruas em Peniche têm sido verdadeiras estrumeiras, e os da Ribeira (local onde desembarca e se amanha o peixe) é qualquer coisa de nauseante que nos envergonha por ser indigno duma nação civilizada.
ÁGUA, também a não tem Peniche, ou antes temo-la a 7 quilómetros, que teremos de cobrir com um cano em cimento armado, de 20 cm. de diâmetro, e que está orçado em 400.000$00 pelo abalizado engenheiro em assuntos desta natureza.
LUZ, igualmente a não tem esta importante Vila, pois ainda hoje se vive em Peniche à luz de antiquados candeeiros de petróleo que nada iluminam, sendo perigosíssima, no inverno principalmente, junto ao cais, a faina dos serviços mar que são, como V. Ex. sabe, importantíssimos Além d isso uma grande parte da vida desta vila é feita de noite, devido às pescas, o que a falta de luz toma difícil, ocasionando por vezes graves desastres, perigando também a vida de quem tem de atravessar as ruas da vila em noites escuríssimas de inverno. O comércio e a pequena industria ressentem-se extraordinariamente desta falta e as lamentações são, por isso, bem justas e dignas da atenção dos poderes públicos.
Peniche não tem um mercado próprio; pelo que, a venda de todos os produtos se faz no seu Rocio, sendo as hortaliças, legumes, frutas, tudo enfim, vendido no chão sempre coberto de imundices por onde toda a gente passa, e onde toda a gente cospe, o que tudo constitui um grave perigo para a saúde publica.
Os serviços de limpeza são tudo o que há de mais rudimentar não havendo um carro capaz para o transporte de lixos, nem uma simples pipa para a rega das ruas.
Peniche, onde se consome uma média anual de 75.000 kilos de carne, não tem um matadouro sendo o serviço de matança feito pela forma mais antiquada e num pátio imundo e indigno do nome de matadouro. A carne abatida é transportada às costas de homens nem sempre asseados, em cima de panos imundos e esfarrapados.”
Era assim Peniche, de tão encantadoras belezas naturais, uma terra atrasadíssima e, por isso mesmo, como ainda hoje acontece, digna do auxílio dos Governos do País.
Muita coisa ainda foi feita durante o curto mandato de António Maria de Oliveira que decorreu de 11/3/1929 a 29/4/1930.
Foi possível , em sessão camarária de 4/6/1929, dar iniciativa à instalação em Peniche de um corpo de bombeiros e, assim, não tardou que naquele mesmo mês, no dia dezasseis, fosse criada oficialmente a Associação dos Bombeiros Voluntários de Peniche.
Era desejo de António Maria de Oliveira, que também acumulava as funções de Presidente da Comissão Municipal de Assistência, a extinção da mendicidade nas ruas.
Procedeu no curto espaço do seu mandato à ampliação do Cemitério para Sul, com uma área destinada ao enterramento de crianças - 2.736 m2 (exploração de pedra, construção de muros de vedação, etc.)
Mas a obra que mais o vinculou para sempre a Peniche foi a “iluminação pública por meio de electricidade na sede do Concelho”. Teve como principais colaboradores os Srs. Joaquim Guilherme de Faria Júnior, Vice-Presidente, Miguel Olavo Franco, Vereador, e Duarte Formoso Pinto, Administrador do Concelho, valiosos auxiliares e dedicados cooperadores em tal obra.
Contraiu-se para a execução da obra um empréstimo de 1.200.000$00 na Caixa Geral de Depósitos, por escritura lavrada a 24/3/1930.
Em tempo “record”, nos primeiros dias de Julho jé se estava nos preparativos para a sua inauguração, que se efectuou no dia 10 de Julho daquele ano.
Estavam presentes os Srs. Governador Civil do Distrito de Leiria e o Ministro do Interior e do Comércio, entre outras entidades civis e militares. O Senhor Vice- Presidente deu conhecimento aos presentes de que o Senhor Presidente não estava presente por se encontrar gravemente doente, a braços com longa enfermidade.
O adiantado estado da doença que atacava o seu frágil corpo - a “artrite reumatoide” - não lhe permitiu sair do seu leito para estar presente naquela cerimônia que tanto desejara.
Depois das cerimónias foi agraciado pelas entidades oficiais que se dirigiram à sua residência, situada na rua D. Luís de Ataíde, atenção que agradeceu da janela do seu quarto de dormir (situado no 1°. andar), já com grande dificuldade pela sua debilidade.
Poucos dias depois, a 16/7/1930, em resultado de uma tuberculose óssea, tendo como companhia no seu leito de morte sua inseparável esposa, faleceu na sua residência aos quarenta e cinco anos de idade.
Peniche viu assim partir António Maria de Oliveira, Presidente da Comissão Administrativa que tanto amou esta terra e que ao seu engrandecimento e progresso dispensou o maior esforço e uma grande parcela da sua vida, precisamente quando muito havia a esperar da sua grande inteligência e capacidade.
Seu corpo deu entrada no Cemitério Municipal de Peniche no dia 18 daquele mês, ficando depositado no jazigo particular da família “Freire de Andrade”, a título provisório, aguardando o seu depósito definitivo em mausoléu a mandar edificar.
Em sessão camarária de 29/7/1930, sob a Presidência de Armando de Sampaio Sena, ladeado pelos Vogais Francisco de Freitas Trindade e Miguel Olavo Franco, sendo Administrador do Concelho
e Vogal da mesma Comissão Joaquim Guilherme de Faria Júnior foi proposto que se lançasse na respectiva acta um voto de profundo sentimento pela morte do Presidente da Comissão Administrativa, Sr. António Maria de Oliveira e que, como reconhecimento da obra colossal que deixou feita, à frente da qual se encontrava a instalação da luz eléctrica, se desse o seu nome ao largo do município, o que não se concretizou.
Passado algum tempo, a 19/8/1931 , procedeu-se à trasladação dos restos mortais de António Maria de Oliveira. saudoso Presidente, para o mausoléu mandado erigir por um grupo de amigos. Nele foi gravada com a seguinte inscrição: “Antônio Maria de Oliveira - Falecido a 18-7-30 (sic) -Pelo grande impulso dado ao progresso de Peniche, como Presidente da Câmara desde Março de 1929 a Julho de 1930 - Reconhecimento eterno de um grupo de amigos e do Município de Peniche’
Mais tarde, prova de que Peniche nunca esqueceu a ilustre personalidade que serviu Peniche com todo o carinho e dedicação, em reunião camarária de 2 de Janeiro de 1962 (L. de actas n. 16, de 1961/1962), foi deliberado atribuir o seu nome, perpetuando a sua memória, a uma das artérias da então Vila de Peniche (a antiga Rua das Arieiras, situada entre a actual Rua Luís de Camões - anti- go caminho do Cemitério - e a Rua de São Marcos.
APONTAMENTOS DIVERSOS:
Neste número publicamos uma foto da casa na Rua D. Luís de Ataide onde residiu e faleceu António Maria de Oliveira. Esta casa, situada entre a Travessa do Bom Sucesso e a Travessa do Desembargador, foi há uns anos demolida para dar lugar a outra construção. Da sua janela António Maria de Oliveira podia então observar o andamento dos trabalhos de construção do edifício da nova Central Eléctrica e os operários que ali actuavam habituaram-se a ver o seu vulto a observá-los com um óculo. Quando a doença já não lhe permitia abeirar-se da janela, o Senhor Oliveira mandou colocar junto dela um manequim simulando a sua figura para que os operários, sentindo-se observados, não abrandassem o ritmo do seu trabalho...
Peniche, Julho de 2008.

segunda-feira, agosto 04, 2008

QUEM FOI MIGUEL OLAVO FRANCO (VULGARMENTE CONHECIDO POR MIGUEL LINO, PAI)

Por: Fernando Engehneiro
Ao recuarmos um pouco quanto à sua ascendência verificamos que seu pai, Lino João Franco, era natural de Leiria, nascido na freguesia da Sé em 1849, que, apôs o cumprimento dos seus deveres militares, concorreu aos serviços alfandegários sendo colocado em Peniche na década de 70 do século dezanove. Apôs o plano de organização militar do corpo da Guarda Fiscal, criado pelo Decreto n. 4, de 17 de Setembro de 1885 passou a fazer parte daquela entidade como elemento da guarda fiscal.
Por cá formou família com o seu casamento com Gertrudes da Piedade, natural de Peniche, filha de Joaquim de Matos Bilhau (pai) e de Rosa Hita, ocorrido por volta do ano de 1875. Tiveram os seguintes filhos: Armando Franco - MIGUEL OLAVO FRANCO - João Faustino Franco e José Cândido Franco.
Consta no registo de nascimento de MIGUEL OLAVO FRANCO, na freguesia de Ajuda, de Peniche, ter nascido em 1877 no dia 29 de Julho.
Na época apenas algumas crianças com situações privilegiadas pelo amparo económico de seus pais iam para a escola aprender as primeiras letras e poucas, se possível, iam além.
Miguel Lino, como assim jé era conhecido, fez aos 10 anos de idade, a 27/7/1888, exame final das disciplinas do curso elementar da instrução primária neste concelho com a classificação de “Suficiente”. E curioso notar que para o efeito foi criada naquele ano, a 6 de Julho, uma Comissão Inspectora de exames no Concelho de Peniche para examinar 9 alunos do sexo masculino e 7 do feminino, júri de exames que teve como Vogais efectivos o Sub-Inspector deste Circulo Escolar, o Reverendo Padre Joaquim Gomes de Jesus, Ilídio Alberto Mendonça, Professor Oficial, e José Acúrcio Nunes Rego de Carvalho.
Na mesma época tinha sido criada em Peniche, por carta de Lei de 30 de Junho de 1887, uma escola de desenho inaugurada, em 26 de Setembro do mesmo ano, pelo Inspector Fonseca Benevides em representação do Governo. Foi designada por “Escola de Desenho Dona Maria Pia”.
Nesta escola, além do ensino profissional de rendas a alunas, foi ministrado o ensino do desenho industrial do ramo ornamental a alunos dos dois sexos. Migue Lino a conselho de seus pais, matriculou-se, frequentando o curso com bons resultados.
Na idade própria, em 1897, procedeu ao cumprimento dos seus deveres militares apresentando-se à Comissão Recenseadora do Exército e da Armada, aprovada pelo Decreto de 6/8/1896, constituída pelo Presidente Antônio Januàrio Nunes Rego de Carvalho e pelo Prior da Freguesia de Ajuda Padre Constantino Alvarez Alvarez.
Já na época se apresentou com a profissão de Carpinteiro que abraçou em primeiro plano ao Longo da sua vida.
Instalava-se por todo o País a organização maçônica, bastante desenvolvida após a Implantação da Republica. Em Peniche foi criada, no rés-do-chão de um prédio situado no Largo D. Pedro V, uma sede da Maçonaria designada por “Loja PROGRESSO”. (Tratava-se de uma sociedade secreta constituída por elementos ajuramentados também secretamente). Miguel Lino, como outros elementos na época, quis fazer parte desta sociedade. A sua iniciação data de 17/11/1910, teve o numero 27 de inscrição e foi-lhe atribuído nome secreto de “Bombarda” . ,
Aos 34 anos de idade, a 18/10/1911 , na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Ajuda, foi celebrado o seu casamento com Olívia Seia, de 32 anos de idade. rendeira (rendilheira), residente na freguesia de S. Pedro onde fora baptizada, filha de António Matias Seia e de Maria Cândida, naturais também de Peniche.
Duas filhas deste casamento, Maria Violeta Franco e Maria Ilda Franco, faleceram aquando da terrível epidemia, designada por “Pneumônica”, que dizimou o País em 1918.
Ainda solteiro, para preparar a sua vida futura, quando o casamento se aproximava, celebrou, a 18/12/1910, contrato de arrendamento com Jacob Baptista Ribeiro Guizado para ocupar o rés do chão da sua habitação, na antiga rua do Assento, actual rua dos Hermínios, para ali instalar uma oficina de carpintaria de apoio a construções e reparações, bem como marcenaria clássica, ambas as profissões da sua especialidade.
Republicano assumido, fez parte, a 7/10/1910, dos cidadãos que compareceram no edifício dos Paços do Concelho de Peniche para hastear a nova bandeira e proclamar a Rept Portuguesa, conforme consta do auto que se lavrou com a sua assinatura bem patente.
o seu ambiente familiar novamente se alegrou com o nascimento de um filho a 3/11/1919 (Miguel Lino Franco), de um outro em 7/6/1 922 (Lino Antônio Franco) e ainda, a 7/9/1925 de um outro (João Lino Franco).
A convite do empossado Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Peniche Eduardo Helder Caldas Pereira, passou a fazer parte daquela Comissão, conforme alvará passado pelo Governador Civil do Distrito em 17/7/1926.
Ao serem distribuídos os diversos pelouros pelos membros daquela Comissão Administrativa, em boa hora coube a Miguel Lino, além de outros, o pelouro do Cemitério Municipal de Santana.
Foi difícil a reorganização do cemitério pois foi encontrar aquele serviço absolutamente desprezado, quer no que respeita à escrita quer quanto à identificação dos covais. Os cadáveres era inumados por todo o espaço disponível sem qualquer orientação. Miguel Lino meteu mãos à obra e começou a tentar resolver os graves problemas que ali encontrou.
Começou por abrir ruas, dividir talhões, alinhar as sepulturas por filas, identificar os covais e separar os dos adultos dos das crianças, criando dois espaços distintos.
Foi longo este trabalho conforme prova o oficio da Câmara Municipal de Peniche datado de 3/2/1933, que passo a transcrever na integra:
Anos depois, a 24/10/1940, numa parte da acta da sessão camarária daquela data foi registado o seguinte a seu favor:
“Tendo em atenção que Miguel Olavo Franco tem prestado de há anos para cá vários serviços no Cemitério Municipal de Santana, sem a exigência de qualquer salário, foi resolvido assalariá-lo com principio em Janeiro de 1941, pela importância de trezentos escudos mensais, devendo previamente esta resolução ser aprovada pelo Conselho Municipal na sua próxima sessão.”
Já sob a presidência do Comandante José da Mota Coutinho Garrido foi-Ihe passado, a 12/12/1947, “Alvará
“Ao Ex.mo Sr. Miguel Olavo Franco — Peniche - Ao dar conhecimento, em sessão de 1 do corrente, à Comissão Administrativa da minha presidência da oferta de VEx. para continuar na obra de identificação dos cadáveres, foi resolvido, por unanimidade, que, na acta desse dia, se exarasse um voto de louvor pelo trabalho executado até esta data e aceitar a generosa oferta de VEx. . - Com toda a consideração desejo a VExa. - Sai e Fraternidade - O Presidente, - (a) João Mendes Madeira, Sobrinho”de Nomeação” para o cargo de “VIGILANTE DOS SERVIÇOS DO CEMITÉRIO E OUTROS”.
Ao recuarmos um pouco, mais propriamente à década de 20, verificamos o seu grande empenho, como vereador, na realização da obra de iluminação pt de Peniche por meio de electricidade.
Também é de salientar a sua actividade na construção civil, não só como mestre mas também como desenhador. Ainda hoje são apreciadas construções da sua autoria. Cito algumas de que me estou a recordar: o chamado Prédio do Americano (aos Quatro Cantos), a residência da familia Bilhau na rua da Alegria, o antigo edifício da Central Eléctrica, o edifício situado no Largo de S. Leonardo junto a sede da Junta de Freguesia, em Atouguia da Baleia, etc. etc. . Valeu-lhe para o desenho das respectivas plantas o aproveitamento que teve quando aluno da Escola de Desenho D. Maria Pia, em Peniche, a que jé atrás me referi. É também de sua autoria a capela no Cemitério e todo o conjunto que a rodeia.
Depois de 38 anos a seu lado, para os bons e para os maus momentos, sua esposa, D. Olivia Seia Franco, faleceu a 26/8/1949 com 70 anos de idade.
Os elogios que recebia da Câmara Municipal davam Ihe animo para continuar a viver e a trabalhar naquilo de que ele tanto gostava: “o Cemitério”.
Em 17/11/1949, na sequência de numa visita feita pelo então Presidente da Câmara Antônio da Conceição Bento ao Cemitério no dia de finados daquele ano, foi-lhe endereçado o ofício n. 1499 onde esté bem patente o apreço tido pelo trabalho de Miguel Lino. Transcrevo-o na integra:
“Apraz-me comunicar-Ihe que esta Câmara mandou exarar na acta da sua reunião de 9 do corrente um voto de louvor a VEx. pelo zelo e dedicação que põe no seu cargo de Vigilante dos Serviços do Cemitério Municipal de Santana, o quai se apresentava no passado dia 2 do corrente num estado de arrumação, limpeza e conservação que mereceu as mais elogiosas referências do numeroso pi que ah ocorreu e me deixou a mais agradável impressão. - A Bem da Nação - O Presidente da Câmara, - (a) António da Conceição Bento”.
Tal era o interesse que este funcionário dava ao Municipio que a Câmara Municipal passou por cima de tudo o que era Lei, quer quanto ao seu contrato para o cargo que exercia já com idade avançada, quer ainda quanto à sua permanência em plena actividade depois dos 70 anos.
Com o peso dos anos tornou-se uma figura impar, com características muito especiais. Pondo de parte a sua cifose dorsal, própria da idade, era notado pelos seus óculos de aros redondos frequentemente puxados para cima das sobrancelhas. De mãos cruzadas atrás das costas, sempre acompanhado por uma varinha em “vime”, là ia ele a caminho do cemitério. . .
No primeiro dia de Janeiro de 1957, Peniche recebeu a triste notícia do seu falecimento provocado por uma queda do último degrau da escada de acesso ao primeiro andar na sua residência. Tinha 79 anos de idade.
Jaz sepultado, junto de sua esposa, no Cemitério que ele tanto amava e a que dedicou uma grande parte da sua vida. Em campa rasa, no talhão numero um, já tinha preparado anos antes, apôs a morte de sua esposa, uma sepultura com o seguinte epitáfio: “Olivia Seia Franco - 1879-1949 = Miguel Olavo Franco - 1877 a 19.... INVIOLÁVEL”.
Desapareceu assim uma destacada figura que muito prestigiou aquele lugar sagrado que ninguém deseja mas onde todos têm o seu lugar reservado...
Peniche, Julho de 2008.

domingo, julho 27, 2008

quinta-feira, julho 24, 2008

Artistas de Palmo e Palmo e Meio

O filme gravado com o nome artistas com som, têm como título original “Artistas de Palmo e Palmo e Meio”. É o resultado de um projecto realizado ao longo de dois anos, baseado no estudo de alguns artistas plásticos do séc. XX. Com base em curiosidades sobre a vida de cada um, foi elaborado um pequeno elenco para adaptação ao mundo da animação. Os desenhos foram realizados no Paint, impressos e recortados, e animados através do Adobe Premiere 6.5.
A animação foi realizada pelos alunos do 6ºD da Escola Básica dos 1º, 2º e 3º Ciclos de Peniche, em Área de Projecto, no ano lectivo 2007/2008, sob orientação das professoras Elisa Silva e Susana Martins.

terça-feira, junho 10, 2008

segunda-feira, junho 09, 2008

ALADOR ANO 1 .1970 .N°1

BOLETIM DA ESCOLA INDUSTRIAL E COMERCIAL DE PENICHE

sábado, maio 31, 2008

terça-feira, maio 27, 2008

O OFICIO DE SAPATEIRO ARTESANAL EXTINTO EM PENICHE

Por: Fernando Engenheiro
Desde tempos muito remotos que existe a profissão de “sapateiro”, com as distinções de “manufactores de calçado” e “sapateiros de calçado velho” (remendões).
Embora este oficio tivesse regimento dado pelo Senado da capital do Reino em 1572, noutros pa já lhes davam o devido respeito e consideração pelas actividades que exerciam. Faziam-se representar com os seus pendões em solenidades e festas, como por exemplo em Liège e Bruxelas, bem como em Gante, datando de 1103 a figuração da sua nobreza com as armas do oficio, dadas pelo Conde da Normandia. Mais tarde, em 1304, aparecem já associados, segundo consta nos Regulamentos da sua corporação que desta data existem em Gante.
De 1379 data a instituição da Irmandade dos Companheiros Sapateiros, que se estabeleceu na Catedral de Paris por privilégio de Carlos o Sábio.
Esta confraria celebrava a sua testa principal no dia 25 de Outubro, que é o dia de S. Crispim e S. Cristiano, na realidade, porém, durava três dias durante os quais estavam fechadas todas as sapatarias da cidade.
No dia anterior lam a vésperas e no dia a seguir à missa pelas almas dos defuntos, mas em nenhum destes dois dias se trabalhava.
Possivelmente foram escolhidos estes dois santos para padroeiros das suas artes por serem sapateiros de oficio que trabalhavam de graça para os pobres.
Os estatutos do grémio de sapateiros de Paris, parecidos com os dos seus homogéneos de outras cidades e vilas de nações vizinhas, onde o nosso País estava incluído (sô na capital do Reino estavam registados no livro de oficios de 1550/1551 119 sapateiros (e em 1620 864 sapateiros de obra nova e 120 remendões), eram bastante severos. Para ser mestre sapateiro era preciso saber o ofício e além disso pagar uma importância pelo privilégio, que seria uma soma deveras elevada. Juravam desempenhar o oficio bem e lealmente, segundo os usos e costumes do grémio. Desde que aos Sábados se tocava a vésperas na igreja da freguesia não podiam trabalhar até segunda feira, inclusive (chegou até aos nossos dias a referência a este dia sagrado para os sapateiros com o dito de ser a Segunda-feira “o dia dos sapateiros).
Também lhes era proibido trabalhar com luz artificial, misturar cordovão e carneira no mesmo calçado e vender no mesmo estabelecimento calçado novo e usado.
Ninguém podia ser mestre, nem ter estabelecimento para vender calçado sem ter antes fazer o aludido juramento.
O grémio tinha jurados e comissários encarregados de velarem pelo cumprimento dos estatutos e das visitas de inspecção durante a noite às casas dos sócios.
Assim passaram séculos até que os sapateiros principiaram a querer sacudir a tutela dos mestre e dos jurados.
os oficiais estabeleceram uma verdadeira maçonaria que se es- tendeu por toda a Europa. Juravam pelo Evangelho, pela sua parte no Paraíso e pelas coisas mais sagradas que não revelariam nunca a ninguém os segredos da associação e cumpriram sempre esta promessa.
Desta espécie de maçonaria saíram na realidade as primeiras folgas e as primeiras associações de trabalhadores.
No Foral dado por D. Manuel I “O Venturoso”, em Santarém, a 1 de Junho de 1510 a favor de Atouguia da Baleia e seus domínios está bem patente, nas sentenças e determinações do capítulo 33, o que se oferece sobre este assunto:
“Nove réis por carga major se pagará de sapatos, borzeguins (espécie de bota, com atacadores) e de toda outra calçadura de couro, da qual não pagará o que comprar para seu uso e dos seus, nem dos pedaços de peles ou couros que para seu uso comprarem não sendo pele inteira nem ilhargada, nem lombeiro dos quais pagarão como no capítulo de cima dos couros se contem’
Logo que foi criado o concelho de Peniche (a 11 de Novembro de 1609) a autarquia de então, como já vinha a acontecer com os bons princípios de Atouguia da Baleia, continuou a regular a nobre profissão de sapateiro como passo a citar:
Na Vereação de 19 de Maio de 1629 - Francisco Rodrigues, sapateiro, foi nomeado para servir este ano o ofício de Juiz dos Sapateiros.
No ano seguinte, na Vereação de 4 de Maio de 1630 - Pedro Simões, sapateiro, morador em Peniche, foi nomeado Juiz do of de Sapateiro. Tomou posse.
Na Vereação de 16 de Junho de 1650, para substituir o almocreve Vicente Luís Pinhão, que se negara a tirar as sisas do 1°quartel de 1650, foi escolhido Manuel Pires, sapateiro, morador em Peniche, que aceitou o referido cargo, mediante o pagamento de 10.000 réis que seriam pagos do bolso do dito almocreve. Comprometeu-se a cobrar as sisas, levar o dinheiro a Leiria e trazer a quitação do executor.
Também a Vereação na sua reunião de 28 de Março de 1648 deliberou por unanimidade contra os sapateiros em cujas tendas se faziam “acções prejudiciais às pessoas da Vila”. Foram encerradas as lojas de João Jorge, Filipe Gonçalves, Agostinho Monteiro, André Alves e Domingos Dias. Foi-lhes proibido de usar o oficio de sapateiro sem pedirem nova licença. Pena que lhes seria imposta se infringissem a postura: 2.000 réis.
Pesquisando referências a esta profissão ao longo dos anos só me foi possível encontrar registos de sapateiros desta praça a partir de 1879. Existiam então 19 oficinas da especialidade e os seus proprietários eram os seguintes: Na freguesia de Nossa Senhora de Ajuda - Anacleto José Lopes - Antero do Nascimento - Francisco Vicente - Joaquim Gabriel - Joaquim Pereira Barranquinho - José Gabriel – Lúcio Ribeiro Coelho e Rafael Martins da Costa. Na freguesia de Nossa Senhora da Conceição: Francisco Martins de Sousa - Francisco do Nascimento Renta (filho) – João Antônio - Manuel Capelas - Manuel Franco - Adão e Miguel de Sousa. Na freguesia de S. Pedro: Antônio do Nascimento - Augusto Martins de Sousa - Filipe Quaresma - Francisco do Nascimento Renta (pai) e Pacifico José de Oliveira.
A construção de fábricas de calçado em S. João da Madeira e noutras terras do norte do País provocou alterações profundas no que respeita à actividade artesanal dos “sapateiros” de obra nova. Aquando da implantação da república, o número destas oficinas em Peniche tinha já sofrido redução bastante grande com se ob serva nos registos de 1913. Era somente 5 estabelecimentos industriais cujos proprietários passo a citar: Antero da Ascenção Leitão - Antônio Diogo da Silva - Benjamim Bernardo Soeiro - Filipe Antônio da Costa e Francisco Feiteira.
Abrem-se agora estabelecimentos comerciais para a venda de sapatos feitos, passa o “manufactor de calçado” a “remendão de calçado velho”.
Foi entretanto criada a Liga Portuguesa de Profilaxia Social que muito lutou contra o “pé descalço”, triste sintoma do atraso do nosso povo, costume por tal forma enraizado em certas regiões do País que se tornava assaz difícil combatê-lo com eficácia.
Todavia, não havia argumento sério que se pudesse aduzir em favor de tão estranho hábito, que ofendia as regras mais elementares da higiene, da estética e da própria decência.
As autoridades empenharam-se nesta questão. As câmaras municipais do Porto e de Lisboa, para dar novo impulso à luta contra o “pé-descalço” que já se vinha arrastando desde 1928, determinam na década de 40 a proibição do trânsito nas suas ruas a quem usasse os pé descalços.
Com todas as campanhas desenvolvidas ao longo vários anos contra um hábito que era causa de vergonha nacional, os bons costumes acabaram por se impor, o que se reflectiu no incremento da industria do calçado. A produção passou a ser muito maior e os novos sapateiros começam a especializar-se com os velhos mestre e a estabelecer-se por conta própria.
Em 1952 estavam registadas e em plena actividade em Peniche 17 oficinas de sapateiros (com aproximadamente 50 trabalhadores no ramos) cujos proprietários, seus mestres, eram os seguintes: Antônio Rodrigues Tormenta - Florindo Gaspar – João Dias Ferreira – João Miguel Fonseca - Joaquim Cativo - Joaquim Rodrigues Tormenta - José Antônio Lopes - José de Campos - José Ferreira da Costa - Luís Antônio Salgado - Luis dos Santos - Manuel Antônio Carvalho - Manuel do Nascimento Alves - Manuel Rodrigues Duarte – Manuel Vaqueiro Trigo - Nicolau Bote Martinez e Tomás Antônio Fé-José da Mata.
Há também que contar com alguns prisioneiros civis do Forte de Peniche que, com autorização superior, trabalhavam para o exterior.
Ao chegarmos ao ano 2000 so existia a oficina de “José de Campos” cuja actividade. com o seu falecimento. cessou pouco tempo depois Actualmente a cidade de Peniche é servida por duas oficinas mecanizadas sitas nas Ruas Antônio Cervantes e Estado Português da Índia, que satisfazem as encomendas solicitadas.
APONTAMENTOS DIVERSOS:
- Entre os sapateiros de referência merecem lugar proeminente:
o célebre Hans Sacho, que figura nos Mestre Cantores, a opera de Wagner; Lestage, sapateiro de Luis XIV, inventor do calçado sem costura e poeta extravagante; o primeiro Sforza, fundador da nobilíssima casa italiana, desse nome, que foi filho dum sapateiro. Outro filho de sapateiro chegou a ser Papa: foi Urbano IV, o qual se envergonhava tão pouco da sua origem que ordenou que nos dias de grandes festas o púlpito da igreja de Santo Urbano, de Troyes, fosse revestido com um grande tapete em que estava representada a loja de seu pai.
- No Jornal “O Povo de Peniche”, de 1/3/1931, foi publicado o seguinte anúncio de interesse para este trabalho:
ALPARGATAS DE LONA COM SOLA DE BORRACHA ‘IRROMPIVEL’ - Marca Registada - As meihores lonas e o mais perfeito acabamento.
A venda nos estabelecimentos dos Sr. António Mateus Dias, José de Jesus Leitão, João Baptista da Conceição, Ferreira & Mateus, Joaquim Franqueira, Viúva de David Gonçalves e António da Conceição Bento.”
Eram estes os sapatos das pessoas cujos limitados recursos econômicos não lhes permitiam aceder à compra dos de cabedal.
Peniche, Abril de 2008.

quarta-feira, maio 21, 2008

Ford Anglia em Peniche

Não conheço o proprietário desta autentica reliquia, mas, dou-lhe os meus parabéns, pelo o trabalho de restauro e conservação desta memória da nossa infância (para quem têm mais de 40 anos).
Felizmente ainda existem pessoas com bom gosto, e aqui temos a prova, porque ter um automóvel como este implica muitas dificuldades no dia a dia, uma delas por exemplo; em caso de avaria, como encontrar peças, já não falo da adaptação do motor as novas gasolinas sem chumbo etc etc.
Ps.
Para quem gosta destas relíquias algumas imagens de publicidade dos anos 60 tiradas do site:
http://storm.oldcarmanualproject.com/ .