segunda-feira, agosto 04, 2008

QUEM FOI MIGUEL OLAVO FRANCO (VULGARMENTE CONHECIDO POR MIGUEL LINO, PAI)

Por: Fernando Engehneiro
Ao recuarmos um pouco quanto à sua ascendência verificamos que seu pai, Lino João Franco, era natural de Leiria, nascido na freguesia da Sé em 1849, que, apôs o cumprimento dos seus deveres militares, concorreu aos serviços alfandegários sendo colocado em Peniche na década de 70 do século dezanove. Apôs o plano de organização militar do corpo da Guarda Fiscal, criado pelo Decreto n. 4, de 17 de Setembro de 1885 passou a fazer parte daquela entidade como elemento da guarda fiscal.
Por cá formou família com o seu casamento com Gertrudes da Piedade, natural de Peniche, filha de Joaquim de Matos Bilhau (pai) e de Rosa Hita, ocorrido por volta do ano de 1875. Tiveram os seguintes filhos: Armando Franco - MIGUEL OLAVO FRANCO - João Faustino Franco e José Cândido Franco.
Consta no registo de nascimento de MIGUEL OLAVO FRANCO, na freguesia de Ajuda, de Peniche, ter nascido em 1877 no dia 29 de Julho.
Na época apenas algumas crianças com situações privilegiadas pelo amparo económico de seus pais iam para a escola aprender as primeiras letras e poucas, se possível, iam além.
Miguel Lino, como assim jé era conhecido, fez aos 10 anos de idade, a 27/7/1888, exame final das disciplinas do curso elementar da instrução primária neste concelho com a classificação de “Suficiente”. E curioso notar que para o efeito foi criada naquele ano, a 6 de Julho, uma Comissão Inspectora de exames no Concelho de Peniche para examinar 9 alunos do sexo masculino e 7 do feminino, júri de exames que teve como Vogais efectivos o Sub-Inspector deste Circulo Escolar, o Reverendo Padre Joaquim Gomes de Jesus, Ilídio Alberto Mendonça, Professor Oficial, e José Acúrcio Nunes Rego de Carvalho.
Na mesma época tinha sido criada em Peniche, por carta de Lei de 30 de Junho de 1887, uma escola de desenho inaugurada, em 26 de Setembro do mesmo ano, pelo Inspector Fonseca Benevides em representação do Governo. Foi designada por “Escola de Desenho Dona Maria Pia”.
Nesta escola, além do ensino profissional de rendas a alunas, foi ministrado o ensino do desenho industrial do ramo ornamental a alunos dos dois sexos. Migue Lino a conselho de seus pais, matriculou-se, frequentando o curso com bons resultados.
Na idade própria, em 1897, procedeu ao cumprimento dos seus deveres militares apresentando-se à Comissão Recenseadora do Exército e da Armada, aprovada pelo Decreto de 6/8/1896, constituída pelo Presidente Antônio Januàrio Nunes Rego de Carvalho e pelo Prior da Freguesia de Ajuda Padre Constantino Alvarez Alvarez.
Já na época se apresentou com a profissão de Carpinteiro que abraçou em primeiro plano ao Longo da sua vida.
Instalava-se por todo o País a organização maçônica, bastante desenvolvida após a Implantação da Republica. Em Peniche foi criada, no rés-do-chão de um prédio situado no Largo D. Pedro V, uma sede da Maçonaria designada por “Loja PROGRESSO”. (Tratava-se de uma sociedade secreta constituída por elementos ajuramentados também secretamente). Miguel Lino, como outros elementos na época, quis fazer parte desta sociedade. A sua iniciação data de 17/11/1910, teve o numero 27 de inscrição e foi-lhe atribuído nome secreto de “Bombarda” . ,
Aos 34 anos de idade, a 18/10/1911 , na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Ajuda, foi celebrado o seu casamento com Olívia Seia, de 32 anos de idade. rendeira (rendilheira), residente na freguesia de S. Pedro onde fora baptizada, filha de António Matias Seia e de Maria Cândida, naturais também de Peniche.
Duas filhas deste casamento, Maria Violeta Franco e Maria Ilda Franco, faleceram aquando da terrível epidemia, designada por “Pneumônica”, que dizimou o País em 1918.
Ainda solteiro, para preparar a sua vida futura, quando o casamento se aproximava, celebrou, a 18/12/1910, contrato de arrendamento com Jacob Baptista Ribeiro Guizado para ocupar o rés do chão da sua habitação, na antiga rua do Assento, actual rua dos Hermínios, para ali instalar uma oficina de carpintaria de apoio a construções e reparações, bem como marcenaria clássica, ambas as profissões da sua especialidade.
Republicano assumido, fez parte, a 7/10/1910, dos cidadãos que compareceram no edifício dos Paços do Concelho de Peniche para hastear a nova bandeira e proclamar a Rept Portuguesa, conforme consta do auto que se lavrou com a sua assinatura bem patente.
o seu ambiente familiar novamente se alegrou com o nascimento de um filho a 3/11/1919 (Miguel Lino Franco), de um outro em 7/6/1 922 (Lino Antônio Franco) e ainda, a 7/9/1925 de um outro (João Lino Franco).
A convite do empossado Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Peniche Eduardo Helder Caldas Pereira, passou a fazer parte daquela Comissão, conforme alvará passado pelo Governador Civil do Distrito em 17/7/1926.
Ao serem distribuídos os diversos pelouros pelos membros daquela Comissão Administrativa, em boa hora coube a Miguel Lino, além de outros, o pelouro do Cemitério Municipal de Santana.
Foi difícil a reorganização do cemitério pois foi encontrar aquele serviço absolutamente desprezado, quer no que respeita à escrita quer quanto à identificação dos covais. Os cadáveres era inumados por todo o espaço disponível sem qualquer orientação. Miguel Lino meteu mãos à obra e começou a tentar resolver os graves problemas que ali encontrou.
Começou por abrir ruas, dividir talhões, alinhar as sepulturas por filas, identificar os covais e separar os dos adultos dos das crianças, criando dois espaços distintos.
Foi longo este trabalho conforme prova o oficio da Câmara Municipal de Peniche datado de 3/2/1933, que passo a transcrever na integra:
Anos depois, a 24/10/1940, numa parte da acta da sessão camarária daquela data foi registado o seguinte a seu favor:
“Tendo em atenção que Miguel Olavo Franco tem prestado de há anos para cá vários serviços no Cemitério Municipal de Santana, sem a exigência de qualquer salário, foi resolvido assalariá-lo com principio em Janeiro de 1941, pela importância de trezentos escudos mensais, devendo previamente esta resolução ser aprovada pelo Conselho Municipal na sua próxima sessão.”
Já sob a presidência do Comandante José da Mota Coutinho Garrido foi-Ihe passado, a 12/12/1947, “Alvará
“Ao Ex.mo Sr. Miguel Olavo Franco — Peniche - Ao dar conhecimento, em sessão de 1 do corrente, à Comissão Administrativa da minha presidência da oferta de VEx. para continuar na obra de identificação dos cadáveres, foi resolvido, por unanimidade, que, na acta desse dia, se exarasse um voto de louvor pelo trabalho executado até esta data e aceitar a generosa oferta de VEx. . - Com toda a consideração desejo a VExa. - Sai e Fraternidade - O Presidente, - (a) João Mendes Madeira, Sobrinho”de Nomeação” para o cargo de “VIGILANTE DOS SERVIÇOS DO CEMITÉRIO E OUTROS”.
Ao recuarmos um pouco, mais propriamente à década de 20, verificamos o seu grande empenho, como vereador, na realização da obra de iluminação pt de Peniche por meio de electricidade.
Também é de salientar a sua actividade na construção civil, não só como mestre mas também como desenhador. Ainda hoje são apreciadas construções da sua autoria. Cito algumas de que me estou a recordar: o chamado Prédio do Americano (aos Quatro Cantos), a residência da familia Bilhau na rua da Alegria, o antigo edifício da Central Eléctrica, o edifício situado no Largo de S. Leonardo junto a sede da Junta de Freguesia, em Atouguia da Baleia, etc. etc. . Valeu-lhe para o desenho das respectivas plantas o aproveitamento que teve quando aluno da Escola de Desenho D. Maria Pia, em Peniche, a que jé atrás me referi. É também de sua autoria a capela no Cemitério e todo o conjunto que a rodeia.
Depois de 38 anos a seu lado, para os bons e para os maus momentos, sua esposa, D. Olivia Seia Franco, faleceu a 26/8/1949 com 70 anos de idade.
Os elogios que recebia da Câmara Municipal davam Ihe animo para continuar a viver e a trabalhar naquilo de que ele tanto gostava: “o Cemitério”.
Em 17/11/1949, na sequência de numa visita feita pelo então Presidente da Câmara Antônio da Conceição Bento ao Cemitério no dia de finados daquele ano, foi-lhe endereçado o ofício n. 1499 onde esté bem patente o apreço tido pelo trabalho de Miguel Lino. Transcrevo-o na integra:
“Apraz-me comunicar-Ihe que esta Câmara mandou exarar na acta da sua reunião de 9 do corrente um voto de louvor a VEx. pelo zelo e dedicação que põe no seu cargo de Vigilante dos Serviços do Cemitério Municipal de Santana, o quai se apresentava no passado dia 2 do corrente num estado de arrumação, limpeza e conservação que mereceu as mais elogiosas referências do numeroso pi que ah ocorreu e me deixou a mais agradável impressão. - A Bem da Nação - O Presidente da Câmara, - (a) António da Conceição Bento”.
Tal era o interesse que este funcionário dava ao Municipio que a Câmara Municipal passou por cima de tudo o que era Lei, quer quanto ao seu contrato para o cargo que exercia já com idade avançada, quer ainda quanto à sua permanência em plena actividade depois dos 70 anos.
Com o peso dos anos tornou-se uma figura impar, com características muito especiais. Pondo de parte a sua cifose dorsal, própria da idade, era notado pelos seus óculos de aros redondos frequentemente puxados para cima das sobrancelhas. De mãos cruzadas atrás das costas, sempre acompanhado por uma varinha em “vime”, là ia ele a caminho do cemitério. . .
No primeiro dia de Janeiro de 1957, Peniche recebeu a triste notícia do seu falecimento provocado por uma queda do último degrau da escada de acesso ao primeiro andar na sua residência. Tinha 79 anos de idade.
Jaz sepultado, junto de sua esposa, no Cemitério que ele tanto amava e a que dedicou uma grande parte da sua vida. Em campa rasa, no talhão numero um, já tinha preparado anos antes, apôs a morte de sua esposa, uma sepultura com o seguinte epitáfio: “Olivia Seia Franco - 1879-1949 = Miguel Olavo Franco - 1877 a 19.... INVIOLÁVEL”.
Desapareceu assim uma destacada figura que muito prestigiou aquele lugar sagrado que ninguém deseja mas onde todos têm o seu lugar reservado...
Peniche, Julho de 2008.

domingo, julho 27, 2008

quinta-feira, julho 24, 2008

Artistas de Palmo e Palmo e Meio

O filme gravado com o nome artistas com som, têm como título original “Artistas de Palmo e Palmo e Meio”. É o resultado de um projecto realizado ao longo de dois anos, baseado no estudo de alguns artistas plásticos do séc. XX. Com base em curiosidades sobre a vida de cada um, foi elaborado um pequeno elenco para adaptação ao mundo da animação. Os desenhos foram realizados no Paint, impressos e recortados, e animados através do Adobe Premiere 6.5.
A animação foi realizada pelos alunos do 6ºD da Escola Básica dos 1º, 2º e 3º Ciclos de Peniche, em Área de Projecto, no ano lectivo 2007/2008, sob orientação das professoras Elisa Silva e Susana Martins.

terça-feira, junho 10, 2008

segunda-feira, junho 09, 2008

ALADOR ANO 1 .1970 .N°1

BOLETIM DA ESCOLA INDUSTRIAL E COMERCIAL DE PENICHE

sábado, maio 31, 2008

terça-feira, maio 27, 2008

O OFICIO DE SAPATEIRO ARTESANAL EXTINTO EM PENICHE

Por: Fernando Engenheiro
Desde tempos muito remotos que existe a profissão de “sapateiro”, com as distinções de “manufactores de calçado” e “sapateiros de calçado velho” (remendões).
Embora este oficio tivesse regimento dado pelo Senado da capital do Reino em 1572, noutros pa já lhes davam o devido respeito e consideração pelas actividades que exerciam. Faziam-se representar com os seus pendões em solenidades e festas, como por exemplo em Liège e Bruxelas, bem como em Gante, datando de 1103 a figuração da sua nobreza com as armas do oficio, dadas pelo Conde da Normandia. Mais tarde, em 1304, aparecem já associados, segundo consta nos Regulamentos da sua corporação que desta data existem em Gante.
De 1379 data a instituição da Irmandade dos Companheiros Sapateiros, que se estabeleceu na Catedral de Paris por privilégio de Carlos o Sábio.
Esta confraria celebrava a sua testa principal no dia 25 de Outubro, que é o dia de S. Crispim e S. Cristiano, na realidade, porém, durava três dias durante os quais estavam fechadas todas as sapatarias da cidade.
No dia anterior lam a vésperas e no dia a seguir à missa pelas almas dos defuntos, mas em nenhum destes dois dias se trabalhava.
Possivelmente foram escolhidos estes dois santos para padroeiros das suas artes por serem sapateiros de oficio que trabalhavam de graça para os pobres.
Os estatutos do grémio de sapateiros de Paris, parecidos com os dos seus homogéneos de outras cidades e vilas de nações vizinhas, onde o nosso País estava incluído (sô na capital do Reino estavam registados no livro de oficios de 1550/1551 119 sapateiros (e em 1620 864 sapateiros de obra nova e 120 remendões), eram bastante severos. Para ser mestre sapateiro era preciso saber o ofício e além disso pagar uma importância pelo privilégio, que seria uma soma deveras elevada. Juravam desempenhar o oficio bem e lealmente, segundo os usos e costumes do grémio. Desde que aos Sábados se tocava a vésperas na igreja da freguesia não podiam trabalhar até segunda feira, inclusive (chegou até aos nossos dias a referência a este dia sagrado para os sapateiros com o dito de ser a Segunda-feira “o dia dos sapateiros).
Também lhes era proibido trabalhar com luz artificial, misturar cordovão e carneira no mesmo calçado e vender no mesmo estabelecimento calçado novo e usado.
Ninguém podia ser mestre, nem ter estabelecimento para vender calçado sem ter antes fazer o aludido juramento.
O grémio tinha jurados e comissários encarregados de velarem pelo cumprimento dos estatutos e das visitas de inspecção durante a noite às casas dos sócios.
Assim passaram séculos até que os sapateiros principiaram a querer sacudir a tutela dos mestre e dos jurados.
os oficiais estabeleceram uma verdadeira maçonaria que se es- tendeu por toda a Europa. Juravam pelo Evangelho, pela sua parte no Paraíso e pelas coisas mais sagradas que não revelariam nunca a ninguém os segredos da associação e cumpriram sempre esta promessa.
Desta espécie de maçonaria saíram na realidade as primeiras folgas e as primeiras associações de trabalhadores.
No Foral dado por D. Manuel I “O Venturoso”, em Santarém, a 1 de Junho de 1510 a favor de Atouguia da Baleia e seus domínios está bem patente, nas sentenças e determinações do capítulo 33, o que se oferece sobre este assunto:
“Nove réis por carga major se pagará de sapatos, borzeguins (espécie de bota, com atacadores) e de toda outra calçadura de couro, da qual não pagará o que comprar para seu uso e dos seus, nem dos pedaços de peles ou couros que para seu uso comprarem não sendo pele inteira nem ilhargada, nem lombeiro dos quais pagarão como no capítulo de cima dos couros se contem’
Logo que foi criado o concelho de Peniche (a 11 de Novembro de 1609) a autarquia de então, como já vinha a acontecer com os bons princípios de Atouguia da Baleia, continuou a regular a nobre profissão de sapateiro como passo a citar:
Na Vereação de 19 de Maio de 1629 - Francisco Rodrigues, sapateiro, foi nomeado para servir este ano o ofício de Juiz dos Sapateiros.
No ano seguinte, na Vereação de 4 de Maio de 1630 - Pedro Simões, sapateiro, morador em Peniche, foi nomeado Juiz do of de Sapateiro. Tomou posse.
Na Vereação de 16 de Junho de 1650, para substituir o almocreve Vicente Luís Pinhão, que se negara a tirar as sisas do 1°quartel de 1650, foi escolhido Manuel Pires, sapateiro, morador em Peniche, que aceitou o referido cargo, mediante o pagamento de 10.000 réis que seriam pagos do bolso do dito almocreve. Comprometeu-se a cobrar as sisas, levar o dinheiro a Leiria e trazer a quitação do executor.
Também a Vereação na sua reunião de 28 de Março de 1648 deliberou por unanimidade contra os sapateiros em cujas tendas se faziam “acções prejudiciais às pessoas da Vila”. Foram encerradas as lojas de João Jorge, Filipe Gonçalves, Agostinho Monteiro, André Alves e Domingos Dias. Foi-lhes proibido de usar o oficio de sapateiro sem pedirem nova licença. Pena que lhes seria imposta se infringissem a postura: 2.000 réis.
Pesquisando referências a esta profissão ao longo dos anos só me foi possível encontrar registos de sapateiros desta praça a partir de 1879. Existiam então 19 oficinas da especialidade e os seus proprietários eram os seguintes: Na freguesia de Nossa Senhora de Ajuda - Anacleto José Lopes - Antero do Nascimento - Francisco Vicente - Joaquim Gabriel - Joaquim Pereira Barranquinho - José Gabriel – Lúcio Ribeiro Coelho e Rafael Martins da Costa. Na freguesia de Nossa Senhora da Conceição: Francisco Martins de Sousa - Francisco do Nascimento Renta (filho) – João Antônio - Manuel Capelas - Manuel Franco - Adão e Miguel de Sousa. Na freguesia de S. Pedro: Antônio do Nascimento - Augusto Martins de Sousa - Filipe Quaresma - Francisco do Nascimento Renta (pai) e Pacifico José de Oliveira.
A construção de fábricas de calçado em S. João da Madeira e noutras terras do norte do País provocou alterações profundas no que respeita à actividade artesanal dos “sapateiros” de obra nova. Aquando da implantação da república, o número destas oficinas em Peniche tinha já sofrido redução bastante grande com se ob serva nos registos de 1913. Era somente 5 estabelecimentos industriais cujos proprietários passo a citar: Antero da Ascenção Leitão - Antônio Diogo da Silva - Benjamim Bernardo Soeiro - Filipe Antônio da Costa e Francisco Feiteira.
Abrem-se agora estabelecimentos comerciais para a venda de sapatos feitos, passa o “manufactor de calçado” a “remendão de calçado velho”.
Foi entretanto criada a Liga Portuguesa de Profilaxia Social que muito lutou contra o “pé descalço”, triste sintoma do atraso do nosso povo, costume por tal forma enraizado em certas regiões do País que se tornava assaz difícil combatê-lo com eficácia.
Todavia, não havia argumento sério que se pudesse aduzir em favor de tão estranho hábito, que ofendia as regras mais elementares da higiene, da estética e da própria decência.
As autoridades empenharam-se nesta questão. As câmaras municipais do Porto e de Lisboa, para dar novo impulso à luta contra o “pé-descalço” que já se vinha arrastando desde 1928, determinam na década de 40 a proibição do trânsito nas suas ruas a quem usasse os pé descalços.
Com todas as campanhas desenvolvidas ao longo vários anos contra um hábito que era causa de vergonha nacional, os bons costumes acabaram por se impor, o que se reflectiu no incremento da industria do calçado. A produção passou a ser muito maior e os novos sapateiros começam a especializar-se com os velhos mestre e a estabelecer-se por conta própria.
Em 1952 estavam registadas e em plena actividade em Peniche 17 oficinas de sapateiros (com aproximadamente 50 trabalhadores no ramos) cujos proprietários, seus mestres, eram os seguintes: Antônio Rodrigues Tormenta - Florindo Gaspar – João Dias Ferreira – João Miguel Fonseca - Joaquim Cativo - Joaquim Rodrigues Tormenta - José Antônio Lopes - José de Campos - José Ferreira da Costa - Luís Antônio Salgado - Luis dos Santos - Manuel Antônio Carvalho - Manuel do Nascimento Alves - Manuel Rodrigues Duarte – Manuel Vaqueiro Trigo - Nicolau Bote Martinez e Tomás Antônio Fé-José da Mata.
Há também que contar com alguns prisioneiros civis do Forte de Peniche que, com autorização superior, trabalhavam para o exterior.
Ao chegarmos ao ano 2000 so existia a oficina de “José de Campos” cuja actividade. com o seu falecimento. cessou pouco tempo depois Actualmente a cidade de Peniche é servida por duas oficinas mecanizadas sitas nas Ruas Antônio Cervantes e Estado Português da Índia, que satisfazem as encomendas solicitadas.
APONTAMENTOS DIVERSOS:
- Entre os sapateiros de referência merecem lugar proeminente:
o célebre Hans Sacho, que figura nos Mestre Cantores, a opera de Wagner; Lestage, sapateiro de Luis XIV, inventor do calçado sem costura e poeta extravagante; o primeiro Sforza, fundador da nobilíssima casa italiana, desse nome, que foi filho dum sapateiro. Outro filho de sapateiro chegou a ser Papa: foi Urbano IV, o qual se envergonhava tão pouco da sua origem que ordenou que nos dias de grandes festas o púlpito da igreja de Santo Urbano, de Troyes, fosse revestido com um grande tapete em que estava representada a loja de seu pai.
- No Jornal “O Povo de Peniche”, de 1/3/1931, foi publicado o seguinte anúncio de interesse para este trabalho:
ALPARGATAS DE LONA COM SOLA DE BORRACHA ‘IRROMPIVEL’ - Marca Registada - As meihores lonas e o mais perfeito acabamento.
A venda nos estabelecimentos dos Sr. António Mateus Dias, José de Jesus Leitão, João Baptista da Conceição, Ferreira & Mateus, Joaquim Franqueira, Viúva de David Gonçalves e António da Conceição Bento.”
Eram estes os sapatos das pessoas cujos limitados recursos econômicos não lhes permitiam aceder à compra dos de cabedal.
Peniche, Abril de 2008.

quarta-feira, maio 21, 2008

Ford Anglia em Peniche

Não conheço o proprietário desta autentica reliquia, mas, dou-lhe os meus parabéns, pelo o trabalho de restauro e conservação desta memória da nossa infância (para quem têm mais de 40 anos).
Felizmente ainda existem pessoas com bom gosto, e aqui temos a prova, porque ter um automóvel como este implica muitas dificuldades no dia a dia, uma delas por exemplo; em caso de avaria, como encontrar peças, já não falo da adaptação do motor as novas gasolinas sem chumbo etc etc.
Ps.
Para quem gosta destas relíquias algumas imagens de publicidade dos anos 60 tiradas do site:
http://storm.oldcarmanualproject.com/ .

quarta-feira, maio 07, 2008

sexta-feira, abril 04, 2008

A PROFISSÃO DE ALFAIATE AO LONGO DOS TEMPOS EM PENICHE

Por: Fernando Engenheiro
O vestuário é o conjunto de peças de roupa que o homem utiliza para cobrir, proteger e adornar o seu corpo.
A necessidade de utilizar roupas foi imposta pela inclemência do clima. Porém, este aspecto puramente utilitário foi depois condicionado pelo desejo do homem de se adornar e de exteriorizar através da indumentária a sua posição económica e social
Desse desejo nasceu a arte de confeccionar o vestuário , a arte do alfaiate.
O trajo português, salvo algumas características tradicionais populares, em regiões menos permeáveis à moda, onde evoluiu a distância das influências estranhas e portanto com uma lentidão mais consentânea com a sua natural transformação , na composição , no talhe e na cor, foi sempre fortemente inspirado no gosto estrangeiro, para cá trazido pela corte, na quai a profissão de alfaiate estava sempre presente para a confecção vestuário para ambos os sexos.
A inconstância da moda, sacrificada a cada momento pela fantasia humana, variando no entrechoque das mais desordenadas influências e evoluindo subordinada a mil caprichos, obrigava o mestre alfaiate e seus oficiais a que estarem sempre actualizados de modo a acompanhar a moda, que impunha alterações à prática das suas actividades profissionais.
Entre as profissões de ALFAIATE e ALGIBEBE a diferença era pouca, quase sempre reunidas, pertencendo à bandeira de Nossa Senhora das Candeias, a qual dava dois delegados à Casa dos Vinte e Quatro, no antigo regimen dos Grémios dos Ofícios. O algibebe era o oficial que vendia fato feito, principalmente na época dos capotes em burel, véstias, coletes, calções de balão, etc. , peças que na sua tenda expunha aos olhos do povo, nas praças principais da povoação ou em feiras e mercados com a designação de vendedor ambulante.
Pelas resoluções de 28 de Outubro e 1 1 de Novembro de 1817 foram mantidos os alfaiates na posse do direito de poderem comprar as matérias do seu oficio em venda por atacado contra a vontade dos mercadores da venda de tecidos.
Por ordens de 15 de Maio e 18 de Junho de 1821 foi-lhe concedido, mais uma vez, tal direito, ficando, a partir de então, sem efeito a grande protecção dada aos mercadores para quem era mais favorável a venda dos tecidos de fora a retalho.
Nas mesmas disposições também lhe foi concedido o direito de poderem vender fato feito, como os algibebes.
Por alvará de 26 de Julho de 1826 foram definitivamente fixados aos alfaiates e algibebes os géneros de indústrias e objectos de venda que lhes eram permitidos. Os algibebes não podiam ser excluídos dos leilões da fazenda de lã, quase sempre mais procurada para gente da plebe.
Em meados do século dezanove começaram a ser tomados em consideração os figurinos, para ambos os sexos, que difundiram a moda fora do ambiente cortesão. Havia necessidade de se especializarem os alfaiates de então para darem resposta às exigências com que se confrontavam.
Na década de 70 do século XIX, mais propriamente em 15/2/1879, funcionavam em Peniche 8 oficinas de alfaiate, ao serviço do seu publico, constituídas por oficiais e aprendizes de ambos os sexos. Os mestres que se encontravam à frente daqueles estabelecimentos eram os seguintes:
Francisco dos Anjos e Manuel José da Silva, na freguesia de Nossa Senhora de Ajuda; Luís de Almeida e Pedro Franco Leitao, na freguesia de Nossa Senhora da Conceição e por ultimo, João Nepomeceno Mota, Justino de Azevedo Melo, Rufino de Assis Gonçalves e João de Azevedo Melo, na freguesia de S. Pedro.
Estava-se na época do grande desenvolvimento comercial, do invento da máquina de costura pelo inventor americano Elias Howe, operário numa fábrica de Boston. Começaram as primeiras máquinas de costura por serem manuais, isto é, de manivela, movida pela mão direita e servindo a esquerda para segurar a fazenda, cosida pela agulha mecânica guiadora e transportadora da linha. Da máquina manual, ou de manivela, passou-se alguns anos depois à de pedal, progresso bastante bem aceite por deixar os dois braços livres para o trabalho a executar, permitindo a quem a utilizava maior perfeição.
(A-propósito destas máquinas e do ruído que produziam, lembro aqui uma curiosidade que chegou aos nossos dias: trata-se da crendice popular que, tomou grande vulto, da chamada “mulher da máquina de costura”. No silêncio da noite e em casas antigas julgava-se ouvir, a altas horas, o ruído característico duma máquina de costura o que, para alguns, denunciava a presença da alma duma costureira penando por seus pecado. Esta crendice chegou a dar origem a pequenos motins e desordens entre crentes e incrédulos, além de ter provocado intervenções jornalísticas de duvidosa legitimidade).
Ainda falando do invento da máquina de costura, devo referir que foram tempos difíceis para o seu inventor.
Foi uma luta bastante grande não só pela falta de recursos para realizar e tornar conhecida tal realidade, como pelo combate violento que lhe foi imposto pelos que defendiam a rotina da costura à mão, que se julgavam prejudicados se a ideia do inventor fosse aceite e auxiliada.
Um outro inventor deixou também o seu nome ligado ao aparecimento da máquina de costura. Foi (Barthélemy Thimonnier,nasceu em :L'Arbresle (Rhône) 19 Agosto 1793 e morreu em Amplepuis dia no 5 de julho de 1857), francês, operário numa fábrica de fiação e tecidos da pequena povoação de Amplepuis.
Este também não viu aceite a sua invenção. Instalou-se em Paris com uma oficina mas as costureiras revoltaram-se e destruíram a sua casa, por considerarem a máquina de costura um perigoso adversário e competidor ruinoso.
Ao longo dos anos tudo se compôs e as máquinas de costura foram objecto de fabrico industrial e de exportação que alcançou todos os continentes, em boa parte por via marítima.
Em Peniche ficou na memória de seu povo o naufrágio, ocorrido a 28/10/1892, na costa norte do Baleal (em Vale de Janelas), do vapor inglês “ROMANIA”, em que perderam a vida 113 pessoas, entre tripulantes e passageiros. O naufrágio foi provocado por grande serração e forte temporal. Lembro aqui que a maior parte da carga do referido vapor eram máquinas de costura manuais e peças de tecido. Ainda hoje se encontram em casas particulares desta cidade objectos recuperados do naufrágio entre os quais se incluem máquinas de costura daquele modelo.
Na passagem do século XIX para o século XX funcionavam em Peniche as seguintes oficinas de Alfaiataria: na actual rua Marquês de Pombal, a de Mariano Rasteiro; na rua José Estevão , a de Bernardo Monteiro e a de Antônio Colé; na rua Gomes Freine de Andrade, a de Joaquim da Rosa e a de João Verissimo dos Santos Costa.
Alguns anos depois da implantação do regime republicano de 1910, e referindo-me exclusivamente a Peniche, com excepção a classe marítima, são postos de parte os tecidos grosseiros como o burel pardo de lã meirinha, o baeta e o serrabeco. As fábricas de lanifícios da Covilhã começam a deitar cá para fora novos padrões que influenciam o estilo e o modo de vestir.
Com a influência dos figurinos ingleses, passa-se a usar o designado por “clássico”, fato inteiro com colete, de mode- b simples ou jaquetão (casaco assertoado).
Abrem-se novas oficinas de alfaiataria, tais como a de Antero Pereira Teixeira, na Praça Jacob Rodrigues Pereira e a de Augusto Santana Veloso, primeiro no Largo Bispo de Mariana e mais tarde no Largo Figueiredo Fana. Foram autênticas escolas de conte e costura, para ambos os sexos, bem como a de João de Jesus Miranda, primeiro na rua Marquês de Pombal e depois na rua Primeiro de Dezembro.
Outras se seguem como as de Mário Martins de Jesus, na rua Gomes Freine de Andrade; Manuel Maximiano Alves, na rua José Estevão , e a muito conhecida, ainda na memória de muitos, do “Santos Alfaiate” , na rua Marquês de Pombal, e por último as dos dois irmãos Guilhermino Esteves da Silva e Eduardo Esteves da Silva, respectivamente, na rua Gomes Freine de Andrade (depois na Rua Gannet) e rua José Estevão. Ainda na década de 50, no n°5 do Campo da República instalou-se o alfaiate Saraiva de Aguiar.
Vindas do estrangeiro, novas influências na maneira de vestir, com mais simplicidade, são aceites por todo o País, nomeadamente com a utilização dos tecidos designados pon “gangas” que não são mais do que um tecido forte azul ou amarelo.
Entretanto, generalizou-se a abertura ao público de estabelecimentos de “pronto a vestir”, que tiveram desde logo grande aderência por proporcionarem o que o cliente pretende sem necessidade de recorrer ao alfaiate, o que para o modo de viver actual trouxe grandes vantagens.
Nos nossos dias a profissão de alfaiate, em Peniche, está praticamente em vias de extinção . Só resta um estabelecimento do ramo na rua José Estevão.
APONTAMENTOS DIVERSOS:
Hoje, que se sacrifica à vaidade no vestuário e à ostentação de toda a espécie o conforto doméstico e o próprio alimento, não deixa de vir a propósito lembrar as providências que dantes se tomavam para refrear o luxo:
A mais antiga que se conhece é do tempo de D. Pedro I, o qual mandava açoitar quem comprasse fazendas fiadas e, na reincidência, condenava-o à morte.
Alguns reis foram em extremo rigorosos para com os transgressores das pragmáticas. Entre eles destacam-se D. João I, D. Duarte e D. João II Outros publicaram-nas apenas por pr-forma e pouco cuidavam das consequências econômicas e morais que o considerado luxo desenfreado trazia à nação.
Podem calcular-se os incidentes curiosos a que daria lugar a fiscalização do cumprimento das pragmáticas. Como curiosidade para os dias de hoje, cito um: trata-se dum acórdão da Relação de Lisboa, proferido em 23 de Agosto de 1607, contra um alcaide que pretendeu verificar se uma mulher casada, contra a lei, usava bairas ou rendas no mantéu e apanhou uma bofetada em troca do atrevimento.
Peniche, Abril de 2008.

quarta-feira, abril 02, 2008

ASSOCIAÇÃO COMERCIAL, INDUSTRIAL E DE SERVIÇOS DO CONCELHO DE PENICHE (antigo Grémio do Comercio de Peniche)

Por: Fernando Engenheiro
Com a proclamação dos novos princípios da Revolução Francesa iniciou-se uma profunda transformação social e económica e o comércio europeu passou a assentar em novas bases, que gradualmente se entenderam por todo o mundo.
Em Portugal foram esses princípios introduzidos com o movimento “vintista”, cuja Constituição “garantiu a liberdade, a segurança e propriedade de todos os portugueses”.
A Carta Constitucional de 1826 concretizou as novas ideias sob o ponto de vista de liberdade do comércio e da indústria.
O comércio no entanto necessitava de mais amplas medidas, pois que a legislação mercantil provinha de outras eras e deixara de harmonizar-se com as novas condições sociais. Além disso a multiplicidade de diplomas sobre matéria comercial dava origem a grandes dificuldades e impunha uma profunda reforma na legislação vigente. A empresa era sem dúvida árdua, carecendo-se para a sua efectivação de um lutador de primeiro plano. Esse homem surgiu na pessoa do grande jurisconsulto José Ferreira Borges, o autor do primeiro Código Comercial Português.
José Ferreira Borges, que as lutas pelos princípios liberais duas vezes atiraram para o exílio, estudou afincadamente no estrangeiro as várias legislações da especialidade e organizou um projecto de código comercial, em que introduziu as mais modernas doutrinas sobre direito mercantil admitidas pelas legislações de então.
O nosso primeiro Código Comercial foi aprovado por decreto de 18 de Setembro de 1833 e entrou em vigor em 14 de Janeiro de 1834.
Até então , pelas leis vigentes, as questões relacionadas com os actos de comércio estavam sujeitas ao Tribunal da Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação. Com a implantação da Republica Portuguesa, a 5/10/1910, novas alterações são impostas pelo novo regime.
Os comerciantes de Peniche e seu concelho sentiam necessidade de criar uma associação onde pudessem, unidos, dar andamento a diversas pretensões do foro comercial junto do Poder Central.
Foi a 25 de Novembro de 1929, nesta então Vila de Peniche e sala principal da Associação Recreativa Penichense, cedida para o efeito, que, a convite de uma comissão de comerciantes composta por: António Mateus Dias, Fernando Augusto Ferreira, João Couceiro, Cláudio Leitão, Cândido João, Manuel Rodrigues Coelho, Torcato de Jesus Leitão, Joaquim Duarte Martins e Ernesto Ferreira da Costa, reuniu o comércio local, largamente representado e bastante interessado, para ouvir uma exposição no sentido de se assentar na organização de uma associação de classe que se denominasse “ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE PENICHE”.
Cumpridas as formalidades legais, assumiu a presidência desta reunião o Senhor António Mateus Dias, conceituado comerciante em Peniche, secretariado pelos Senhores Torca to de Jesus Leitão e Cláudio Guilherme Leitão, membros da Comissão Organizadora.
Aberta a sessão, depois dos agradecimentos, o Presidente fez uma breve mas clara demonstração da necessidade, cada vez mais imperiosa, de se criar este organismo oficial, cuja falta há muito se fazia sentir. Para sua sede foi cedido, a título de aluguer, pelo seu proprietário, José Acúrcio Nunes Rego de Carvalho, uma casa de dois pisos situada na Rua Salvador Franco (junto às traseiras da antiga sede da Associação Recreativa Penichense). Por estar ao serviço do Município o rés do chão do prédio (usado como arrecadação de diversos materiais, barracas e outros objectos da praia de banhos) foi possível contar com a colaboração da Câmara Municipal para o pagamento da importância de 360$00 anuais. Decorridos alguns meses, a 14/4/1930, a Associação Comercial fez uma “fusão ” com a Associação dos Armadores de Traineiras, já existente nesta Vila, visando a actividade piscatória, constituindo-se, assim, uma “ASSOCIAÇÃO COMERCIAL E INDUSTRIAL” prevendo-se a criação da respectiva secção e de outras que fossem julgadas necessárias de harmonia com os Estatutos, que a partir de então teriam de ser alterados.
Com o Decreto-Lei n°25 935, de 12 de Outubro de 1935, novas alterações se verificaram neste sector com a criação dos primeiros organismos das corporações , neles se contando as caixas sindicais de previdência, as Casas do Povo e as Casas de Pescadores.
Atendendo ao movimento que se verificou com a aderência a novos sócios em diversos sectores, a sede depressa se tornou espaço demasiadamente exíguo para o bom funcionamento das funções atribuídas à Associação para cumprimento dos seus estatutos.
Havia que encontrar uma sede com mais espaço e com maior dignidade. Serviu para o efeito o 1° andar de um prédio sito no Largo 5 de Outubro, em Peniche (frente ao antigo Hospital da Misericórdia), com amplas instalações arrendadas à sua proprietária D. Ema Lopes Brás Belo de Carvalho, residente que foi em S. Martinho do Porto.
Novas alterações são criadas pelo Alvará de 30 de Abril de 1940, pelo qual a Associação passa a designar-se por “GREMIO DO COMERCIO DO CONCELHO DE PENICHE”.
Foi a 7 de Julho de 1940, com a presença dos Senhores Armando Igrejas Bastos, Delegado do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência no Distrito de Leiria, Tenente Luis Pedroso
da Silva Campos, Presidente da Câmara Municipal deste Concelho, João Mendes Madeira Sobrinho e Joaquim Guilherme de Fana Júnior, Presidentes, respectivamente, da Assembleia Geral e da Direcção da Associação então extinta, e demais entidades convidadas para este acto, que foi dada posse à Comissão Directiva do Grémio do Comércio do Concelho de Peniche, constituída pelos Senhores Ricardo Costa, José Fernandes da Conceição Bento e Edmundo de Sousa e Silva, conceituados comerciantes em Peniche.
A partir de então passou a ter uma actividade mais reforçada perante os seus agremiados, prestando-lhes toda a assistência e procurando defender os interesses da classe junto dos organismos e entidades oficiais.
Era agora a sede, então no Largo 5 de Outubro, que dava maiores preocupações já que a frágil estrutura do piso superior onde se localizava não oferecia segurança face ao peso que suportava nas constantes reuniões que ali se realizavam com grande numero de associados.
Para sua substituição foi escolhido um edifício também de primeiro andar mas de construção recente situado na Rua Primeiro de Dezembro com o número de policia 64 tornejando para a Rua Joaquim António de Aguiar, propriedade de Orlando Henriques, residente em Peniche. Arrendado pelo Grémio, ali foi instalada a nova sede nos primeiros anos da década de 40 depois de efectuadas algumas alterações no seu interior para melhor se adaptar aos fins a que o andar se destinava.
Na década de 60, mais precisamente em Dezembro de 1964, contava aquele Organismo com 401 agremiados. Tinha um cobrador permanente e era secretariado por um outro elemento sem qualquer remuneração , o que se prolongou por longos anos.
Com a alteração do regime político ocorrido a 25 de Abril de 1974, passou a instituição, a partir de 18 de Agosto de 1975, a designar-se por “Associação Comercial de Peniche”,
o nome que teve aquando da sua fundação em 1929.
Na mesma época a sua Direcção adquiriu, por compra ao General Dario Augusto Melo de Oliveira e sua esposa D. Maria José Vidal de Carvalho Melo de Oliveira, um terreno situado na Rua Dr. João de Matos Bilhau, com a área de quatrocentos e vinte cinco metros quadrados, pela quantia de quarenta e dois mil e quinhentos escudos, visando a construção de um edifício para sua sede própria.
Depois de diversas negociações com empreiteiros para a construção do referido imóvel foi a obra entregue à firma Miguel e Albano. Esta firma, por entretanto haver declarado falência, não concluiu a construção que foi, depois, terminada pela empresa “Amador, Limitada”, com escritório em Peniche.
Em resultado das negociações efectuadas, o terreno foi a entregue à firma que se encarregou da construção e, sendo o edificio constituído como propriedade horizontal, a Associação ficou proprietária da fracção autônoma que abrange todo o primeiro andar, constituída por hall, 1 corredor, 14 divisões e 2 casas de banho.
Em 14 de Maio de 1983 a Associação realizou a sua primeira reunião na nova sede, agora no primeiro andar do n°9 da Rua Dr. João Matos Bilhau, com boas condições para dar resposta às solicitações dos seus associados.
Em Fevereiro de 2000 foram aprovadas alterações aos seus estatutos pelas quais lhe foi dada nova designação :
ASSOCIAÇÃO COMERCIAL, INDUSTRIAL E DE SERVIÇOS DO CONCELHO DE PENICHE”, adoptando a sigla ACISCP.
Mantém-se como única Associação empresarial do Concelho das áreas do comércio, industria e serviços, defendendo os interesses dos referidos sectores e sendo uma entidade patronal sem fins lucrativos,
Foi reconhecida como sendo de Utilidade Pública, nos termos do Decreto Lei n° 460/77, de 7 de Novembro de 1993, e novamente por despacho de Sua Excelência o Primeiro Ministro em 31 de Maio de 2000.
RELAÇÃO DOS ELEMENTOS QUE CONSTITUÍRAM AS DIRECÇÕES DESTE ORGANISMO (ACTUAL ASSOCIAÇÃO COMERCIAL, INDUSTRIAL E DE SERVIÇOS DO
CONCELHO DE PENICHE) A PARTIR DA SUA FUNDAÇÃO OCORRIDA A VINTE E CINCO DE NOVEMBRO DE MIL NOVECENTOS E VINTE E NOVE
= 1929 e 1930 - Presidente: Antônio Mateus Dias; Secretários: Torcato de Jesus Leitão e Cláudio Guilhermino leitão
= 1931 a 1937 - Presidente: Antônio Mateus Dias; Secretário: Torcato de Jesus Leitão; Tesoureiro: Joaquim Camilo Correia
= 1938 e 1939 - Presidente: Joaquim Guilherme de Fana Júnior; Secretário: José Maximiano da Silva; Tesoureiro: Antônio da Conceição Bento
= 1940 a 1942 - Presidente: Ricardo Costa; Secretário: José Fernandes Bento; Tesoureiro:
Edmundo de Sousa e Silva
= 1943 e 1944 - Presidente: Ricardo Costa; Secret Edmundo de Sousa e Silva; Tesoureiro: José Augusto Pires
= 1945 a 1947 - Presidente: Ricardo Costa; Secretário: José Augusto Pires; Tesoureiro: Edmundo de Sousa e Silva
= 1948 a 1950 - Presidente: Ricardo Costa; Secretário: David Gonçalves; Tesoureiro: Antero Pereira Teixeira
= 1951 a 1953 - Presidente: José Fernandes Bento; Secretário: Edmundo de Sousa e Silva; Tesoureiro: Anibal dos Santos
= 1954 a 1971 - ?
= 1972 a 1974 – Presidente: José Fernandes Bento; Secretário: Antero Pereira Teixeira; Tesoureiro: Gilberto Rosa Serafim
= 1975 (Comissão Directiva) e 1976 - Presidente: - José Antônio Ferreira; Secretário; Gilberto Rosa Serafim; Tesoureiro; Cleto Sustelo Rosa
= 1977 e 1978: Presidente: José António Ferreira; Secretario: Mário de Sá Bandeira; Tesoureiro: José Bernardino de Jesus
= 1979 - Presidente: José Bernardino de Jesus; Secretário: Mário de Oliveira Carvalho; Tesoureiro: Luís de Deus David Chaves
= 1980 a 1983 - José Antônio Ferreira; Secretário: José Bernardino de Jesus; Tesoureiro: José Maria
= 1984 - Presidente: Alexandre da Silva Correia; Secretário: Manuel Antônio de Carvalho; Tesoureiro: Vicente da Conceição Pedro
= 1985 - Presidente: Vicente da Conceição Pedro; Secretário: Luis de Deus David Chaves; Tesoureiro: Manuel Antônio de Carvalho
= 1986 e 1987 - Presidente: Manuel Duarte; Secretário: Luís de Deus David Chaves; Tesoureiro: Fernando de Jesus Marques
= 1988 e 1989 - Presidente: Antônio da Silva Diogo; Secretário: Carlos Rodrigues Marques; Tesoureiro: Levi Antônio Ferreira
= 1990 e 1991 - Presidente: Levi Antônio Ferreira; Secretário: António Manuel Neves Lopes; Tesoureiro: Rui Manuel Conceição Teixeira
= 1992 e 1993 = Presidente: Francisco Batista da Silva Prazeres; Secretário:
Antônio Manuel Neves Lopes;Tesoureiro: Rui Manuel Conceição Teixeira
= 1994 e 1995 - Presidente: Armando Fana da Silva Fandinga; Vice-Presidente: Levi Antônio Ferreira; Secretário: Carlos Rodrigues Marques; Tesoureiro: José Marques Gregório
= 1996 e 1997 - Presidente: Levi Antônio Ferreira; Vice-Presidente: Manuel dos Reis Duarte; Secretário: Olivia Batista Monteiro; Tesoureiro: Amália Maria Martins Rosa
= 1998 e 1999 - Presidente: José Antônio Leitão da Silva; Vice- Presidente: Rui Luis Mota; Secretário: Alberto Manuel Oliveira Reis; Tesoureiro: Joaquim José Feliciano Silva
= 2000 e 2001 -Presidente: José Antônio Leitão da Silva; Vice-Presidente:
Paulo Fernando dos Santos Cunha; Vogal: Maria Manuela Conceição Henriques Belo; Vogal: Luis Miguel Mamede Henriques
= 2002 a 2005-Presidente: Ana Clara Leal Rodrigues; Vice-Presidente: Luis Filipe Simões; Vogal: Vitor Jorge Santos Correia; Vogal: José Rui de Oliveira Martins
= 2006 a 2008 - Presidente: Ana Clara Leal Rodrigues; Vice-Presidentes: Helio Filipe Oliveira Marques/Cesar Manuel Neyes Silva; Secretário: Maria Isabel dos Santos Brás Costa; Tesoureiro: André da Anunciação Delgado.
Peniche, Fevereiro de 2008.

terça-feira, março 18, 2008

A SILVICULTURA EM PENICHE E CONCELHO AO LONGO DOS SÉCULOS

Por: Fernando Engenheiro
A história da humanidade evidencia o triste facto de que, desde os tempos mais remotos, em qualquer ponto do globo terrestre, os seus primeiros habitantes, ao se fixarem, iniciaram a sua posse da terra pela destruição das florestas, empregando para esse fim o machado ou o fogo, até que a acção justiceira e vingadora da natureza se faça sentir sobre a região ou que mais não tenham que nela aniquilar.
No território que hoje corresponde ao nosso País uma percentagem bastante elevada da sua área foi ocupada por bosques, que lhe davam nobreza e riqueza, mantidos pelos privilégios dos senhores, das grandes casas, dos mosteiros e das grandes instituições sociais, que possuíam coutadas, matas e florestas espontâneas ou cultivadas, para fruição e regalo ou para exploração de lenhas e madeiras.
Assim aconteceu desde os tempos mais recuados, assim sucede ainda hoje.
Ao debruçar-nos sobre o que seria a península de Peniche na época da fundação da nossa nacionalidade, encontramos elementos escritos que nos dão a ideia de um “bosque” rodeado de mar.

É um frade, cruzado inglês, chamado Osberno, que o afirma, por outras palavras, ao relatar a cruzada no seu trajecto do Porto para Lisboa, por via marítima, visando a conquista desta cidade aos mouros. Ao passar por Peniche, a 27/6/1147, assim escreveu:
“Apontámos com felicidade à ilha de Peniche distante do continente cerca de oitocentos passos. Abunda esta ilha em veados e sobretudo em coelhos. Também nela se encontra a planta do alcaçuz
de raiz amarela e doce”.
Os cruzados passaram a noite na ilha de Peniche e no outro dia,de manhã muito cedo, fizeram-se à vela e navegaram em direcção a Lisboa.
Com esta narração não duvidamos do que na época seria Peniche, atendendo a que os veados vivem especialmente nas florestas de grandes árvores copadas.
Quanto à planta “Alcaçuz” foi possivelmente a árvore que mais lhes chamou a atenção pelas suas características específicas. (Trata se de uma planta, com propriedades medicinais, conhecida há mais de 3000 anos. Egípcios e gregos apreciavam o seu sabor suave e calmante. É um arbusto que cresce sobretudo na Europa Meridional e na Asia Menor).
O povoamento da nossa ilha/península, ao longo dos séculos, terá sido a principal causa da exterminação da maior parte da sua floresta, atendendo às dificuldades da sua ligação ao continente.
No livro dos enterramentos das freguesias de Peniche dos fins do século dezasseis (1596/1599) estão bem patentes os registos de inumações nas “matas” de Santana, Porto de Areia e Nossa Senhora da Vitória, o que nos leva a acreditar que nestas zonas predominava a floresta.

Aquando da criação do Concelho de Peniche, em 12/11/1609, já uma grande parte do seu solo estava adaptado à agricultura, o que facilitava a pastagem de gados e a expulsão dos animais selvagens que se abrigavam nos seus espaços florestais.
A lenha começa a ser escassa e cara, como se confirma na Vereação de 9/6/1629: “Licença a Isabel Gonçalves, cozedoura de lagostas, para levar uma moeda pela cozedura de cada lagosta, visto a água e a lenha estarem muito caras’
A Câmara Municipal interfere neste bem necessário, que é a lenha, com posturas e regulamentos a cumprir, sob pena de transgressão com a aplicação de multas. Lê-se no registo da Vereação de 23/1/1649: “Ordena aos mestre ou donos de barcos, caravelas ou outras quaisquer embarcações para não levarem carvão de Peniche, à excepção daqueles que têm a sua casa em Lisboa e o embarcam para là. Seria aplicada a multa de 2000 rs. para o concelho e o acusador’
A 10 de Novembro do mesmo ano jé havia necessidade de importar carvão de outras bandas pela grande falta que se fazia sentir na sua população. Mesmo assim obedecia a regulamento a sua entrada para dentro da Vila. Passo a transcrever o seu registo: “Incorreria na multa de 500 rs. todo aquele que comprasse carvão desde a veia do rio em direito à camboa da banda de além. - Só se poderia comprar carvão aos homens ou mulheres que o trouxessem em animais ou à cabeça da veia do rio para dentro da Vila’
A Câmara Municipal era favorável à manutenção das zonas florestais e, conforme lhe foi possível, tentou por todos os meios respeitar o alvará do Rei D. Duarte datado de 1438 e, pelo Regimento de 20 de Março de 1605, publicado nas Ordenações Filipinas.
A Edilidade, por vezes, não podia agir conforme sua vontade, por ter que cumprir ordens do Conde Donatário do espaço concelhio, o que era um obstáculo para o tratamento de alguns assuntos de grande interesse que importava resolver.
Com interesse para esta península, reflectindo-se também no restante espaço concelhio, foram frequente as determinações do Poder Central que tornavam obrigatória a arborização por parte dos particulares e excluía mesmo de certos cargos públicos aqueles que não a realizassem ou não provassem ter plantado um certo número de árvores.

Continuou este Município, bem como o de Atouguia da Baleia, a acompanhar com o maior interesse toda a zona rural de modo a torná-la o mais possível florestada.
É de salientar uma carta assinada pelo desembargador Intendente-Geral da Policia, Diogo Inácio Pina Manique, datada de 18/4/1792, dirigida ao Doutor Juiz de Fora destas duas Vilas, em que lhe agradece da parte de Sua Majestade a actividade com que mandou principiar a sementeira de pinhais. Trata-se da sementeira de pinhão que aquela entidade enviou para ser aplicado nos terrenos baldios dos dois Municípios, bem como para os proprietários dos prédios rústicos, para assim evitar que as areias sopradas pelos ventos invadissem terras de cultura, segundo o lugar donde sopravam com a força que tinham.
Existe outra carta da mesma entidade, datada de 3 de Novembro do mesmo ano, ordenando, por intermédio do Doutor Corregedor da Comarca de Leiria, que se fizesse semear ao arado em todas as terras maninhas e incultas que há nos termos desta Vila de Peniche e Atouguia e, caso que fosse necessário, abrangendo algumas charnecas do termo de Obidos.
Também é de louvar a constituição da Câmara Municipal de Peniche (na época já extinta a de Atouguia), dos meados do século dezanove, que aprovou a grande iniciativa do então seu Secretário, Pedro Cervantes de Carvalho Figueira, homem culto, dinâmico e inteligente, com bastante experiência, que levou por diante um estudo de novas sementeiras de grande amplitude.
Trata-se da recuperação de uma vasta érea de terreno baldio, com a extensão de 73 hectares, denominada “VALE GRANDE”, situada entre os Casais do Mestre Mendo e o lugar de Ferrel, na freguesia de S. Leonardo (Atouguia da Baleia). Este dedicado funcionário, vendo que o Município possuía vastos e desaproveitados baldios, principalmente no litoral, muito próprios e adequados para a sementeira de pinheiros, que por ali jé nasciam espontaneamente e se criavam robustos e viçosos, elaborou um ambicioso projecto para o efeito em cuja execução muito se empenhou. Refira-se que o pinheiro bravo é frequente em Portugal onde parece ter sido introduzido trazido das “Landes”.
Não nos podemos esquecer do valioso patrimônio do foro da bo tânica deixado pelos frades do extinto convento de S. Bernardino, que mantinham a suas expensas, fruto de muito trabalho e dedicação pela Natureza, uma extensa mata dentro e fora da sua vasta cerca. Aqui faço justiça à sua vivacidade, interesse e trabalho desenvolvido para a criação daquela mata de que uma reduzida parte chegou aos nossos dias. A actual ocupação, do que foi uma floresta cerrada, não vai além de duas jeiras de terreno mas nela se mantém dos mais diversos exemplares. No final deste trabalho cito alguns que me foi possível identificar com o auxilio de pessoa conhecedora e interes sada no estudo de plantas silvestres. Queira Deus que os seus novos proprietários tenham a sensibilidade pela natureza de modo a que não seja objecto de destruição o pouco património florestal que ali nos resta e que é, actualmente, o “ex Libris” das matas que possuímos no nosso Concelho.
Nos séculos dezoito e dezanove os Governos não descuraram as questões da silvicultura pois, além de reorganizarem a administração das matas nacionais, tentaram estudar a forma de estabelecer em bases firmes o regime florestal, encarregando, em diversas épocas, várias comissões, compostas por homens eminentes, de as estudar e propor.
Isto está bem patente no alvará de 24 de Julho de 1824 e, em consequência, nos de 1783 e de 1 de Julho de 1802, pelos quais se retiraram as matas da Coroa da administração do Conselho da Fazenda Real para fundar, sob a alçada da Superintendência da Marinha, a Administração Geral das Matas, o que vigorou até 1881 . Apôs a sua extinção, a administração do sector passou a ser da exclusiva competência do pessoal técnico sob a superintendência imediata da Direcção-Geral do Comércio e Industria e, por último, da Direcção Geral da Agricultura, criada pela reforma de 1886.
E nesta última reforma que, pela primeira vez, se decretou o regime florestal obrigatório para as corporações administrativas e para os terrenos particulares compreendidos nos perímetros das serras e das dunas cuja arborização fosse reconhecida de utilidade pública.
Novas alterações se registaram a partir da Lei de 24 de Dezembro de 1901 que reorganizou os serviços agrícolas, ficando os serviços florestais divididos em internos e externos, sob a dependência da Direcção-Geral da Agricultura, no Ministério das Obras PL Comércio e indústria.


APONTAMENTOS DIVERSOS
- Já no Regimento do Monteiro Mor do Reino de Portugal dado Por Filipe Il, com data de 20 de Março de 1605, se defendem as diversas matas, entre as quais “as de Obidos, que passam por Peniche” e se designam as montarias do Reino. (Volume V — 1605 a 1615, Doc. 1, pág.24).
Não posso deixar de falar aqui no vasto patrimônio botânico que possuímos dentro da nossa península e para ele chamar a atenção. Para muitos passam despercebidas, para outros nem tanto, as mais diversas espécies de plantas existentes neste rico santuário florestal que se estende em todo o percurso da costa a partir do miradouro da “tromba”, junto ao Porto de Areia Sul para Poente, até ao Carreiro de Joanes com seguimento de uma zona de “pré-deserto” até ao Carrei ro do Cabo e “deserto” em todo o espaço de Sul para Norte (até junto às primeiras construções) e de Poente para Nascente (da estrada marginal às primeiras construções).
Não menos importante para quem é amante da Natureza será um terreno particular, com pouco mais de 2 jeiras, que fica junto à conhecida “Casa Encarnada”, separado por um caminho vicinal, repleto de plantas silvestres das mais diversas espécies. Um autêntico tesouro da Natureza, sem qualquer protecção, sempre na expectativa de ser destruído pela maldade ou ignorância dos homens.
Chamo, também, a atenção para as centenárias “PALMEIRAS” existentes no nosso Jardim Público. A plantação do conjunto que dé para a frente da Praça Jacob Rodrigues Pereira fez 100 ano no pas- sado mês de Novembro. (Acta da Sessão Camarária de 18/11/1907). A pedido da autarquia deslocou-se a Peniche um botânico francês, ao serviço do Museu Nacional de Lisboa - Jardim Botânico, com o fim de estudar as plantas resistentes ao nosso clima. Depois dos seus estudos foi informado o Município, a 26/4/1883, de grande número de plantas que aqui resistiam, o que foi uma informação de grande interesse para o desenvolvimento de espécies a aplicar no Jardim Público.
A Câmara Municipal de Peniche aderiu à Liga Protectora das árvores e sempre pugnou pela arborização, procurando, pela instituição da Festa da árvore e pelo ensino, incutir nas crianças e, assim, nas futuras gerações o amor, o respeito e o conhecimento da necessidade da conservarão de tão útil produto da Natureza.
Em Peniche, como noutras localidades, em iniciativas isoladas, efectuava-se a cerimônia da Festa da Arvore com os alunos das escolas pt conduzidos para um determinado lugar onde cada um plantava uma árvore. Eram-Ihes explicadas quais as condições favoráveis ao seu desenvolvimento e a sua utilidade, segundo o género que pertence.
São bem patentes ainda no Jardim Público as arvores, designadas por choupos, que dão para a frente da Rua Alexandre Herculano ali plantadas nos fins da década 30 do século passado por alunos da Escola Primária a cargo do professor Francisco Maria Freire, que os acompanhou.
N.B. Quero agradecer a colaboração dada na feitura deste trabalho a David Maçarico, pessoa interessada e possuidora de vastos conhecimentos no foro botânico, já que sô com ele foi possível a classificação das espécies de florestação ainda existentes no nosso concelho e que a seguir apresento.

MATA DO CONVENTO DE SÃO BERNARDINO
Acácias, Aderno, Alcachofra, Aristoloquia, Aroeira, Camarinha, Cardo, Carrasco, Carvalho-Anão, Cássia-Branca, Cebola-Albarrã, Chorão das Praias, Coelhinhos, Congossa, Erva-Toira, Esteva, Fetos, Folhado, Funcho, Gilbardeira, Gingeira Brava, Govinho-da-Praia, Hera, Jarro do Campo, Lentisco, Lírios, Lobularia Marítima, Loureiro, Madressilva, Malmequer dos Campos, Malvas, Medronheiro, Mioporo, Murta, O-teu-pai-é-careca, Papoila, Pega-Saias, Roseira Brava, Roselha, Salsaparrilha, Sanguinho, Silva, Tamargueira, Tojo, Trovisqueira, Ulmeiro, Umbigo-de-Vénus, Urze, Uva-de-Cão, Vinagreiros, Zambujeiro, Zimbro.


PENINSULA DE PENICHE
Acácias, Açafrão, Alcachofra, Alho Bravo, Arménia Marítima, Aroeira, Camarinha, Capuz de Frade, Cardo, Carqueja, Carrasco, Carvalho-Anão, Cebola-Albarrá, Chorão das Praias, Coelhinhos, Congossa, Erva Pau, Erva Sargacinha, Esteva, Fel-da-Terra, Fetos, Funcho, Gilbardeira, Govinho-da-Praia, Hera, Jarro do Campo, Lentisco, Linos, Lobularia Marítima, Loureiro, Madressilva, Maleiteira Maior, Malmequer dos Campos, Malvas, Mioporo, Morrião Azul, Murta, Narciso das Areias, O-teu-pai-é-Careca, Padre-Nosso, Pa poila, Pega-Saias, Pervinca Maior, Roseira-Brava, Roselha, Sabina das-Pralas, Salsaparrilha, Sargaço, Silva, Tamargueira, Tojo, Trovisqueira, Urze, Uva-de-Cão, Vinagreiros, Zambujeiro, Zimbro.

PENICHE CONCELHO
Abrunheiro-Bravo, Acácias, Açafrão, Acer, Aderno, Alcachofra, Alcaçuz, Alecrim, Alho Bravo, Amieiro, Aristoloquia, Arménia Marítima, Aroeira, Azereiro, Azevinho, Betonica-da-Alemanha, Borrajeira, Buxo, Camarinha, Capuz de Frade, Cardo-Cardador, Carqueja, Carrasco, Carvalho Cerquinho, Carvalho Negral, Carvalho. Alvarinho, Carvalho-Anão, Cássia-Branca, Cebola-Albarrá, Chorão das Praias, Choupo, Coelhinhos, Congossa, Cotoneaster, Dragoeiro, Erva da Fortuna, Erva Pau, Erva Sargacinha, Erva-Toira, Esteva, Fetos, Folhado, Freixo, Funcho, Giasteira-das-Vassouras, Gilbardeira, Gingeira Brava, Govinho-da-Praia, Hera, Jarro do Campo, Lentisco, Lfrios, Urios, Lobularia Marítima, Loureiro, Loureiro de-Alexandria, Madorneira, Madressilva, Maleiteira-Maior, Malmequer dos Campos, Malvas, Medronheiro, Mioporo, Morrião Azul, Murta, Narciso das Areias, Olaia, O-Teu-Pai-é-Careca, Padre-Nosso, Papoila, Pega-Saias, Pervinca Maior, Pilriteiro, Roseira-Brava, Ro selha, Sabina-das-Pralas, Salgueiro, Salsaparrilha, Sanguinho, Sargaço, Silene-Branca, Silva, Sobreiro, Tamargueira, Tamariz, Teixo, Trolha, Trovisqueira, Ulmeiro, Umbigo-de-Vénus, Urze, Uva de-Cão, Vinagreiros, Zambujeiro, Zimbro.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

OS TRANSPORTES URBANOS EM PENICHE

por:Fernando Engenheiro
Na década de 1960 era considerada como principal praia de banhos de Peniche a da costa sul que, como actualmente, em consequência das obras do porto de pesca, se encontrava bastante afastada da Vila. A uma distância, por estrada, de 3,5 quilômetros do centro do aglomerado urbano.
O Pinhal da Lagoa, cerca de 500 metros antes da praia, mercê das ideais condições naturais que oferecia e de alguns ligeiros melhoramentos introduzidos pelo Município vinha a servir a prática de campismo. Dele se utilizavam, em grande número, nacionais e estrangeiros que, para se abastecerem de géneros alimentícios e de quanto mais necessitavam, tinham que se deslocar até Peniche.
Um quilometro aquém localiza-se uma outra praia que, na época já bastante procurada, tinha uma utilização mais diminuta. Trata-se da praia da Camboa, popularmente conhecida por praia de Peniche de Cima.

Na acta da reunião camarária de 25/4/1960 foi escrito o seguinte: “A considerável distância que, por virtude do traçado das vias que lhes dão acesso, há que percorrer entre a Vila e qualquer dos locais referidos, cujo interesse é bem evidente, justifica, por si só, a necessidade e grande vantagem que para o desenvolvimento local e conforto do público em particular dos banhistas, traria a existência de um serviço de transporte colectivo que permitisse melhores facilidades de deslocação até à beira-mar”
No Verão de 1961 já Peniche dispunha de um meio de transporte para satisfazer os residentes e visitantes, com ligação à sua principal praia de banhos, situada junto ao molhe leste do Porto de Pesca.
A viagem iniciava-se no Largo da Ribeira, passando pela Avenida Engenheiro José Frederico Ulrich (actual Avenida do Mar), Largo do Município, Rua 13 de Infantaria, Praça Jacob Rodrigues Pereira, Rua Alexandre Herculano, Avenida Dr. António Oliveira Salazar (actual Avenida 25 de Abril), Portão de Peniche de Cima, Pinhal da Lagoa (actual Parque de Campismo) indo até à praia de banhos, mantendo na volta em sentido inverso o mesmo trajecto.
Tinha as seguintes tarifas: pela totalidade do percurso num só sentido: 1$50. Por parte do percurso, abrangendo mais de uma zona: 1$50. Por parte do percurso, abrangendo uma só zona: 1$00. Tratava-se de um conjunto automóvel, composto por um tractor e um atrelado, que comportava 30 passageiros em magnificas condições de conforto.
Pouco tempo depois, atendendo ao seu grande movimento, passou a dispor de duas carruagens, isto é, de mais um atrelado, pelo que ficou com a lotação de 60 passageiros.
Por deliberação camarária de 21/11/1960, foi adjudicada a concessão da exploração do Serviço Público de Transportes Colectivos pelo prazo de 12 anos a Manuel Patrício da Cruz Júnior industrial de transportes em automóvel. Foi lavrada a escritura de concessão, a 26/10/1961, pelo Notário Privativo da Câmara Municipal, na presença do então Presidente Antônio da Conceição Bento. Ficou acordada, de acordo com a proposta do concessionário, a entrega à Câmara Municipal da importância correspondente a onze por cento da receita bruta que o serviço arrecadasse.
A inauguração, no dia 8/7/1961, resumiu-se a um passeio, com a presença do Presidente da Câmara, António da Conceição Bento, e outras individualidades de destaque da vida social penichense, entre os limites do trajecto que, ordinariamente, passou a ser feito a partir do dia seguinte, dia 9.
Foi um Verão em que os “Transportes Colectivos Urbanos de Peniche” não tiveram mãos a medir.
Não tardou muito que o povo de Peniche “baptizasse” o seu novo meio de transporte: “CHORA” foi o nome que lhe foi dado, possivelmente por analogia com o nome dado em Lisboa, nos fins do século XIX e princípios do XX, a uma viatura, esta de tracção animal, usada nos transportes colectivos da capital.
Terminado o contrato da concessão entre a Câmara Municipal e o primeiro concessionário do serviço, deixámos de nos regalar com a utilização daquele tão característico meio de transporte, “O Chora”, que tantas alegrias nos deu mesmo nas suas curtas viagens.
Novo contrato de adjudicação da concessão do serviço público de transportes colectivos é celebrado com Guilherme Isidro Neves Clara, na qualidade de Administrador da Sociedade Claras, Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada, sócia gerente da Sociedade Henriques, Limitada, e em nome da qual outorgou.
A escritura foi lavrada pelo Notário Privativo da Câmara Municipal, em 6/4/1974, entre o representante da firma a quem foi concedida a adjudicação (Sociedade Henriques, Limitada) e o Presidente do Município Francisco de Jesus Salvador, pelo prazo de 10 anos a contar de 1/5/1974. Outras concessões houve a partir de 1974 e até 1999.
O ano 2000 trouxe outras novidades mais alegres com novo transporte à disposição da população e dos turistas durante as épocas balneares, a funcionar todos os dias com quatro circuitos turísticos alternativos, que vão desde um percurso pela península a deslocações às praias mais procuradas ou ainda um circuito alargado à cidade, praias e costa de Peniche.
Trata-se de um transporte do modelo de um comboio, com a chamada locomotiva puxando três atrelados, adquirido pela Câmara Municipal à firma “LOCAPOR” - Companhia Portuguesa de Locação Financeira Mobiliária - da marca Deltrain, mod. Delgado, pelo preço de 12.375.890$00, com lotação de 24 lugares sentados por carruagem.

O novo “comboio” permite aos seus utilizadores, turistas ou amantes deste tipo de transporte, viajarem com os olhos postos na beleza da paisagem, que o mesmo é dizer passear pelo concelho de Peniche e ter oportunidade de observar as inúmeras riquezas da nossa costa.

domingo, janeiro 20, 2008

Os Meios de transporte ao Longo dos Séculos e a Partir de Peniche

Fernand Engenheiro
Durante muitos milhares de anos o homem não conheceu outro meio de transporte e locomoção para além das próprias pernas. Levando vida nómada deslocava-se constantemente de um lugar para outro em busca de alimentos; seus poucos pertences - armas e ferramentas - conduzia-os sobre os ombros ou atados às costas
Até que um dia o homem descobriu a tracção animal. Aos poucos, aprendeu a capturar e domar animais fortes, utilizando-os para transportar-se e a seus objectos.
Durante séculos a evolução dos meios de Locomoção foi lenta. Por alturas da fundação da nossa nacionalidade e até fins da Idade Média quase todas as viagens se faziam já sobre o dorso de animais. Homens e mulheres viajavam a cavalo. Estava-se na época de ouro da sela.
Rodeada e cuidada com o maior dos enlevos, era o meio de transporte por excelência. Surgiu sob diversas formas, todas apostadas em proporcionar a maior comodidade. As chamadas sela galega e sela mourisca eram as mais utilizadas e à segunda se refere o rei D. Duarte no seu Livro da Ensinança de Cavalgar Toda a Sela.
Todavia, para o homem forte e jovem tal maneira de viajar podia ser extremamente agradável, já para as mulheres, velhos e crianças, a sela tornava-se perigosa e incômoda, apesar de todos os cuidados postos na sua confecção.
De experiência em experiência, acabaram por surgir a entrar em moda as portuguesíssimas “andas”, meio de locomoção preferido pelas damas durante muito tempo e sempre utilizado nas viagens mais longas até ao reinado de D. Sebastião. Consistia este imaginoso meio de transporte numa espécie de leito adaptado a dois cavalos caminhando a par e armado entre sólidos varais que lhes assentavam sobre o dorso. Entre fofas e ricas almofadas, foi assim que passou a deslocar-se a fina flor da fidalguia do século XVI.
Depois das pitorescas andas surgiu a “liteira”. Com o seu tejadilho abaulado e dispondo de duas portas, esta espécie de caixa ambulante assentava em dois varais possantes e compridos que, por sua vez, se apoiavam em dois muares, um à frente e outro à retaguarda; atravessou os tempos e assistiu imperturbável ao aparecimento e morte de vários outros meios de transporte.
Com a dominação filipina vieram as estradas e caminhos de Portugal a conhecer os primeiros coches, mais propriamente chamados, nessa época, carrões ou estufas. O primeiro a entrar no país foi trazido por Filipe II em 1581. A época faustosa de D. João V conheceu os mais ricos e opulentos meios de locomoção, tendo as berlindas e coches do rei “Magnânimo” alcançado fama além-fronteiras mercê das suas talhas douradas e formas caprichosas.
Durante os últimos anos do século XVIII e primeiros do século XIX foram vários os meios de transporte que fizeram triunfalmente a sua aparição. A “malaposta”, que surgiu em 1789, foi como que o grande “expresso” da época para as viagens de longo curso. A “sege”, empoleirada sobre duas grandes rodas, foi o ‘ dos velhos tempos do romantismo.
As classes menos abastadas utilizavam a afrancesada “caleche” e havia ainda a particular “traquitana”. E também a “galera”, que mais não era do que uma “sege” de maiores dimensões, assente não em duas mas em quatro rodas, bem como o “trem”, pelo que se podem considerar estes dois meios de transporte os precursores dos trans portes colectivos urbanos.
Debruçando-me ainda no último quartel do século XIX sobre a situação geográfica da Península de Peniche, ao que nos é dado a conhecer não só por documentos (mapas) e relatos pessoais deixados por elementos que nos visitaram, verifico que são bem patentes as dificuldades sentidas para alcançarem o seu interior. A ser-se trans portado por ve de tracção animal entrar ou sair de Peniche era quase uma aventura. Quem os possuía sô os utilizava para uso interno. As suas deslocações para o exterior eram quase sempre com cavalga duras, sobre o dorso dos animais.
Para bem compreendermos o que era difícil entrar em Peniche, a seguir transcrevo uma descrição de Júlio Cesar Machado sobre as viagens no Oeste, publicada em 1996 em livro editado pelo “Pelouro da Cultura” da Câmara Municipal do Bombarral:
“Não é uma coisa fácil, ao chegar a Peniche, atravessar a praia por causa da areia; e é menos fácil ainda ter a certeza de poder entrar na vila por causa da água. . . Vai um pobre homem perfeitamente sossegado da sua vida, sem a menor aspiração a aventuras de jornada, e, quando a sorte o quer, hei-lo em frente de Peniche a dizer adeus para a praça, a fazer perguntas e dar respostas, que nunca são em concordância, por que a bulha do mar leva as palavras, e sem poder entrar por forma alguma na península que em marés cheias se toma perfeitamente em ilha, deixando refrescar os seus muros pelas ondas que lhos cobrem
No livro de lançamentos da décima da vila de Peniche no ano de 1830 foi lançado o novo importo ordinário das cavalgaduras, que perfazem naquele ano 26 com o imposto anual de 1$000 réis por unidade.
Face à necessidade dos seus habitantes terem comunicação com o exterior, com a construção dum troço de estrada na zona designada pelo istmo, direito à ponte, então de madeira, que atravessa o rio da Alagoa (hoje designado por Rio de São Domingos), já era possível a circulação de veículos de tracção animal.
Nos finais do século XIX já funcionava como meio de transporte a “Diligência”, com os seguintes preços: Para Óbidos (servindo os comboios correios): 400 réis. - Para Atouguia da Baleia: 100 réis. - Para Serra de El-Rei: 200 réis. - Para Amoreira: 300 réis. - Para Caldas da Rainha: 500 réis. Tinha partida, da Praça Jacob Rodrigues Pereira, duas ou três vezes por semana. Os embarques eram para os viajantes momentos muito emotivos, não faltando nas despedidas os choros, os abraços e os desejos de feliz jornada.
Na época ainda se viviam muito os medos da vadiagem, os crimes e os roubos pelos trajectos que seguiam de umas povoações para as outras.
Mas foi nos princípios do passado século XX que se iniciou uma profunda transformação nos meios de transporte com a incorporação da máquina de vapor ao caminho-de-ferro e ao barco. E desde então até aos nossos dias o progresso dos meios de transporte foi constante. Em especial, cabe destacar o aparecimento do automóvel (que incorpora o motor de combustão interna) e o dos aviões.
O grande impulso que os transportes registaram na primeira metade do século XX permitiu a ampliação dos mercados, solucionou o abastecimento de matérias-primas à indústria e, portanto, contribuiu para a expansão da produção mercantil. Com isto se confirmou o marco de grande desenvolvimento que experimentariam os intercâmbios internacionais.
Foi a partir da década de 20 (primeiro lustre) que Peniche viu pela. primeira vez os transportes motorizados a substituírem os transportes de veículos de tracção animal.
Foram tempos heróicos. Derrubando as mentalidades, apareceu um José Nabéu a criar a primeira carreira de que Peniche dispôs para Caldas da Rainha tendo, por sua vez, a firma Jacinto & Baltazar assegurado a ligação de Peniche a S. Mamede, com destino à estação de comboio. As camionetas de passageiros eram, tal como as de carga, de carroçaria aberta.
Mas foi também nesta década, mais propriamente em 1924/25, que se formou em Peniche uma das primeiras empresas de transportes públicos do nosso País - a EMPRESA DE TRANSPORTES DE PENICHE, LDA, com um número considerável de sócios. Entre eles:
João Maria da Conceição (João Barnabé), José Bruno (José Fadista), Jacinto Gabriel (Jacinto Cocheiro), José Marques Júnior, Joaquim Duarte Martins e José Júlio Cerdeira. E para assegurar a boa gestão da empresa até foi contratado na Alemanha um técnico competente.
Não havia meios de transporte que resistissem às péssimas condições em que se encontravam as estradas portuguesas, mesmo apôs a criação do Ministério das Obras Públicas, em 1852, onde o então ministro Fontes Pereira de Melo ao tomar conta dessa pasta deu grande incremento à construção e reparação de estradas, cujos percursos macadamizados ainda na época não atingiam as três centenas de quilômetros.
Houve ainda a ideia lançada por Hermínio Prazeres na sessão ordinária de 29/11/1926 da Comissão de Iniciativa de Turismo (Livro de actas da C.I.T., 1926/33) que ‘lembrou a conveniência de se arranjar um vapor para fazer carreira entre esta vila e Lisboa, cujo escritório podia ser o seu. Nada ficou resolvido sobre o assunto’ (Lembro aqui que a via marítima foi o meio de transporte de mercadorias e passageiros utilizado entre Peniche e todo o litoral português, se onde incluíam ilhas adjacentes e províncias ultramarinas com inclusão, na época, do próprio Brasil, com carreiras próprias, comandadas por capitães naturais de Peniche).
Mas foi a partir da década de 30, nos seus últimos anos que, novas empresas surgiram em Peniche em substituição da anterior empresa de camionagem: a “CAPRISTANO E FERREIRA”, com os seus, para a época, luxuosos carros pintados de amarelo escuro com frisos a vermelho, tendo como ponto de partida e chegada a Praça Jacob Rodrigues Pereira, frente a agência de apoio, instalada em dependência no rés do chão de um prédio que o seu proprietário, José Maria de Oliveira, dispensou a titulo de aluguer. Proporcionava deslocações para Caldas da Rainha, onde se situava a sede da empresa, com ramificações para Nazaré, Figueira da Foz, Leiria, Rio Maior e Santarém, tendo uma deslocação diária de Peniche/Lisboa.
Em simultâneo também aqui se fixa, para exploração da linha Sul, a empresa “JOÃO HENRIQUES DOS SANTOS”, com partidas e chegadas no Largo 5 de Outubro, em transportes não inferiores aos da empresa anterior, pintados de cinzento com frisos a vermelho, ligando a Torres Vedras, sede da empresa, com ramificações diversas, tendo como destino principal Lisboa, com chegada no Largo da Anunciada e mais tarde na Rua da Palma (Garagem Navarro).
Novas alterações surgem em meados da década de 50 com a empresa “Capristano e Ferreira” a transformar-se na empresa “CAPRISTANOS” e mais tarde, em 1971 , a empresa “CLARAS”, com a sede em Torres Novas, a tornar-se proprietária das duas anteriores (Capristanos e João Henriques dos Santos), esta última já há algum tempo adquirida por compra pela primeira. Continuou a existir a empresa “Capristanos Turismo”.
Tinham terminal da zona Sul em Lisboa na Rua Cidade de Liverpool , transferido na década de 70 para a Avenida Casai Ribeiro, excepto o “SOL EXPRESSO” que fazia parte do Grupo de Empresas Transportadoras Privadas que tinha o seu terminal na rua de Entre- campos (junto à Praça do Campo Pequeno) e, mais tarde, na Avenida Duque de Avila, 12 (Arco do Cego).
Com as alterações politicas do País verificadas a partir de 1974 as empresas de transportes colectivos foram em grande parte nacionalizadas, mediante indemnizações aos seus proprietários. A empresa CLARAS foi abrangida pela nacionalização e integrada na empresa estatal designada por “RODOVIÁRIA NACIONAL”.
Sentia-se em Peniche necessidade de substituir a acanhada e velha estação que servia os transportes colectivos (um velho armazém situado no Largo Bispo de Mariana) criando condições de conforto e dignidade que servissem utentes e trabalhadores e ao mesmo tempo aliviassem o centro da cidade da circulação dos autocarros.
Começou a Câmara Municipal por proceder, por escritura lavrada a 13/2/1985, à adjudicação à Firma Projectoplano, Consultores Económicos, com sede em Lisboa na Avenida Fontes Pereira de Melo, à elaboração de um projecto destinado ao “CENTRO DE COORDENAÇÃO DE TRANSPORTES DE PENICHE” pelo preço de um milhão trezentos e sessenta mil escudos. Este projecto vina a ser abandonado e substituído por outro mais modesto elaborado pelos Serviços Técnicos Município, em face dos elevados custos da obra prevista e reduzido valor da comparticipação estatal que era possível obter para a sua concretização.
Em reunião realizada no dia 7/8/1991 a Câmara Municipal procedeu à adjudicação definitiva, pelo valor de 39.518.022$00, à Firma Jorge Milar, L.da, com sede na freguesia e Concelho de Pombal, no lugar de Charneca, à empreitada da construção da nova estação rodoviária, a construir na PRAGEIRA, cuja escritura foi lavrada a 9/10/1991 , entre o então Presidente do Município, João Augusto Tavares Barradas e o sócio gerente daquela Firma Manuel Jorge Gonçalves Fernandes.
Em 29/6/1993 procedeu-se à inauguração do “CENTRO COORDENADOR DE TRANSPORTES DE PENICHE”, designação da nova estação rodoviária, com cerimónia simples que consistiu no descerramento duma placa a assinalar o acto ocorrido praticamente ao mesmo tempo em que o Centro entrava ao serviço público. Entre as entidades que ali se encontravam recordamos a presença dos senhores Secretário de Estado das Obras Públicas, Governador Civil do Distrito, Director-Geral da Rodoviária do Tejo, Presidente da Câmara Municipal e Presidente da Assembleia Municipal de Peniche.
A Central permite nos seus oito cais a partida simultânea de outras tantas camionetas e está equipada com diversos serviços de apoio do público. Desafogou-se assim o trânsito e estacionamento na sensível zona da Escola Primária n˚1 e do Mercado Municipal.
Em reunião ordinária de 23/3/1993 a Câmara Municipal de Peniche deliberou adjudicar à Sociedade Anónima “RODOVIÁRIA DO TEJO, SA” a concessão de exploração daquela Central de Camionagem de Peniche, pelo prazo de dez anos, prorrogáveis por iguais períodos de tempo, pelo preço anual de 1.000.000$00 (um milhão de escudos). E da responsabilidade da concessionária a conservação de todas as instalações objecto de concessão, ou seja edifícios, cais de embarque, zonas de parqueamento e respectiva vedação. O respectivo contrato foi objecto de escritura lavrada pelo Notário Privativo da Câmara Municipal em 11/5/1993, outorgando em representação do Município o seu Presidente, João Augusto Tavares Barradas, e em representação da sociedade anónima “Rodoviária do Tejo, SA.” António Marcelino Ferreira Arat e Borges Francisco Justo dos Santos, respectivamente, Presidente e Vogal do respectivo Conselho de Administração

domingo, janeiro 06, 2008

O Comboio para Peniche que nunca chegou a aparecer

Fernando Engenheiro
Foi em 28 de Outubro de 1856 que o nosso País viu pela primeira vez um meio de transporte sobre carris.
Tratava-se da locomotiva que por carris com a extensão de 36 km, entre Lisboa e o Carregado, estava destinada a rebocar carruagens de passageiros e de carga. Logo de seguida a linha continuou até Santarém e mais tarde até à fronteira, “com o desígnio de ligar Portugal com o resto do mundo de que se achava isolado”.
Na época discutia-se se o mais urgente seria ligar Lisboa à Europa se ao Porto. O Ministério das Obras Publicas, criado em 1852, tendo a frente dos seus destinos o então Ministro Fontes Pereira de Melo, encarregou uma comissão de estudar a possibilidade de fazer entroncar uma linha vinda do Porto com a linha do Leste.
Como era de crer, a cerimónia da inauguração da quele primeiro troço realizou-se com grande brilho e despertou a maior curiosidade popular.
A composição era formada por dezasseis carruagens e os seus primeiros utilizadores na viagem que os levou até ao Carregado foram o Rei D. Pedro V, o Cardeal Patriarca de Lisboa e o Cabido Patriarcal além de numerosos convidados.
Apôs a inauguração, ao longo de 50 anos, a um ritmo que nada ficava a dever ao praticado noutros países, prosseguiu em Portugal a construção duma rede ferroviária que iria finalmente dotar o País dum poderoso factor de desenvolvimento geográfico no extremo da Península.
Estavam os olhos postos nos caminhos de ferro mas quanto a estradas pouco ou nada se fazia. Naquele tempo as estradas de acesso a Peniche - como aliás sucedia a quase todas do País encontravam-se praticamente intransitáveis, num estado de abandono que arruinava a economia regional. Impediam o intercâmbio das populações e atrofiavam de forma muito sensível as actividades económicas da zona litoral da Estremadura.
Peniche, lesada desde sempre quanto a meios de transporte para o exterior, tinha que se valer da via marítima para resolver grande parte dos seus problemas de comunicação. Surgia agora uma oportunidade: “a via férrea”.
Resolveu a Câmara Municipal de então, em sessão ordinária de 15/12/1904, representar a Sua Majestade rogando-lhe o seu alto apoio para o deferimento de um pedido da construção de uma linha férrea de tracção eléctrica ou a vapor, sem dano algum para o Estado, que partindo da linha de Oeste, entre as estações de Pero Negro e Dois Portos, seguiria pelo Vale da Tourrinha, Azoeira, S. Mamede, Torres Vedras, Ponte de Rol, Lourinhã e Atouguia da Baleia, terminando em Peniche.
Entretanto, a 17/4/1905, a Edilidade resolveu pedir ao Director Geral da Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses “para que seja creado no lugar da Dagorda, Concelho de Obidos, um apiadeiro, pois que esse melhoramento era de grande utilidade para os povos deste Concelho trazendo-lhes inúmeras vantagens”.
Novas alterações, com novos projectos, são apresentadas a par- tir de 1909. Desta vez a Câmara resolveu representar ao Governo de Sua Majestade pedindo a construção da linha de Setil a Peniche, natural prolongamento da linha de Vendas Novas.
Não faltaram concelhos interessados e favor des- ta obra tais como: Alenquer, Cartaxo, Santarém, Rio Maior, Bombarral e até Obidos. Dado o enorme desenvolvimento do comercio de pescarias em Peniche seria grande melhoramento para toda a região, tornando tudo mais fácil.
Os seus representantes junto do Governo lutaram para que o assunto tivesse êxito, esforços que se prolongaram em todo este processo até 1915, sem qualquer resolução. Os tempos eram difíceis, dadas as grandes alterações políticas verificadas no País: tinha-se dado a implantação da Republica a 5/10/1910.
Depois de alguns anos de silêncio, a partir de Março de 1926, foi constituída uma comissão, composta pelas mais cotadas individualidades de Peniche e da região, a fim de se avistar com a Administração da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses a quem foram apresentar a ideia da construção duma linha férrea, que ligasse a Vila de Peniche à povoação da Dagorda, alegando a referida comissão o péssimo estado das estradas, o que muito vinha contribuindo para que Peniche não pudesse progredir.
Desta comissão faziam parte, entre outros: Frederico Pinto Basto, Dr. João Batista Frazão, Luis da Gama Marques Leal, José António Judice Fialho, Dr. Tiago Sales, Coronel Amílcar Mota, Arquitecto Paulino Montez, António Andrade, Dr. Francisco Seia, Pedro Monteiro, Coronel Costa Pereira, Hermínio Prazeres, António Luís Pereira Montez, Benito Garcia, Ramiro de Matos Bilhau, Carlos de Oliveira e Tavares de Almeida. Este pequeno troço Peniche/Dagorda era o mais viável e a única alternativa que lhes dava confiança, sendo a única orientação a tomar para conseguirem aquele tão almejado melhoramento, atendendo a que, devido à fraca situação do Pais, também não nada havia a esperar do Estado.
Pairava então nos espírito dos membros da Comissão a ideia de um empréstimo e de um contrato de construção e exploração feito com a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses. Possivelmente a grande contribuição vinha das firmas conserveiras que se haviam instalado em Peniche e que estavam bastante interessadas no assunto.
Isolados como nos encontrávamos pelas péssimas vias de comunicação de que sempre dispusemos, entenderam na época que qualquer dos traçados em projecto deveria interessar igualmente ao desenvolvimento industrial e comercial desta vila e concelho e constituiria importante enriquecimento desta tão desprezada região.
Por outro ado havia uma luz ao fundo do túnel. Depois de uma reunião para o efeito realizada na Câmara Municipal do Bombarral e para o qual a Autarquia foi convidada a assistir, organizou-se a Federação das Câmaras de Alenquer, Cadaval, Bombarral, Lourinhã e Peniche que, do Parlamento, já tinha conseguido a necessária autorização para a construção da linha férrea Carregado-Peniche, ou Vila Franca Peniche, não tendo sido possível até então levar a efeito este melhoramento por as condições económicas do País não permitirem ainda a formação de empresas que se abalançassem à sua exploração.
Mais um fracasso. Nada se adiantou e o País entrou numa nova era governamental na sequência da revolução militar de 28 e Maio chefiada por Gomes da Costa. O Dr. António de Oliveira Salazar aceitou a pasta de Ministro das Finanças e do ministério defraudado que recebeu pouco já se podia esperar. Aguardaram-se novas oportunidades.
E digna de notar a perseverança e a coragem dos homens que tiveram tal sonho. Lembro aqui: Joaquim de Barros Vala, José Gonçalves dos Santos, Torquato de Jesus Leitão, Manuel Rodrigues Coelho, António Mateus Dias, Hermano dos Santos e António Fortunato Gomes que, ainda a 27/6/1929 (3 anos depois), compareceram na Estação do Rossio a fim de, com as forças vivas de outros concelhos lesados com as medidas tomadas quanto a vias de comunicação, apresentar ao Governo o seu veemente protesto.
Nova luta pelo comboio se fez sentir em Abril de 1948, que não passou ao ado em toda a região,
com novo pedido ao Ministério das Obras Públicas a quem foi entregue uma representação pedindo a construção da via férrea Rio Maior-Peniche.
Até hoje estamos a aguardar a satisfação de uma petição com 60 anos.
Peniche, Dezembro de 2007.