quinta-feira, janeiro 18, 2007

Gil Teixeira Lopes

Entrevista realizada provavelmente em 1970, para o boletim da Escola Industrial e Comercial de Peniche. http://www.es-peniche.net/index.php?option=content&task=view&id=11
A propósito duma exposição
Quando, pela primeira vez, admirei alguns quadros do pintor Gil Teixeira L opes, numa exposição, integrada nas festas de Nossa Senhora da Boa Viagem, promovida pelo Núcleo de Artes Plásticas da nossa Escola, verifiquei que apresentavam algo de diferente em relação aos outros que até aí estava habituada a apreciar. A que se deveria essa diferença? Ao homem em si, ou à formação e experiência adquirida ao longo dos anos?
Quis então descobrir e compreender um pouco da obra e do carácter do Pintor.
Diplomado pelo Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, (onde exerce presentemente funções docentes), a sua ascensão como artista conhecido do público fez-se por etapas pontuadas, frequentemente, de muitos e variados prémios nacionais e estrangeiros dos quais destaco, por me parecerem mais representativos, o prémio Nacional de Pintura em 1969 e, mais recentemente, em Julho de 1970— em Gravura -a placa de prata da federação de artistas plásticos da Jugoslávia, na 88 Bienal de Florença,
Para melhor informação dos aspectos da vida e obra do artista, dada a inexistência de publicações que aos modernos artistas nacionais sejam consagradas, consegui entrevistá-lo no Centro de Gravura, situado na Escola de Belas Artes e af apresentei-lhe um questionário concebido após a leitura de algumas obras de iniciação estética.
-O que é essencial para se ser um bom pintor?
Creio que o essencial para ser um bom pintor é possuir dotes naturais, além de todo um enriquecimento conseguido através de uma prática constante.
Paralelamente a todo um aperfeiçoamento estético é fundamental, ainda, haver um repositório de conhecimentos em todas as actividades da vida, que o possam levar a expressar e a poder dar respostas aos estímulos que o pressionam dentro da sua época.
-Acha que no campo da pintura se está o voltar ao figurativo ou predomina ainda o abstracto?
Presentemente, o conhecimento que tenho da arte internacional, leva-me a afirmar que existem em determinados pontos geográficos culturas que ainda se expressam dentro da figuração e outras dentro da abstracção.
Assim, na Europa, nomeadamente em Itália, acontece uma nova figuração mas, por exemplo ainda na Europa parte da Arte Catalã, portanto da Arte de Barcelona, parte da expressão madrilena ainda se expressa através de formas abstractas. Subsistem realmente as duas correntes.
-Qual a relação entre o artista e a Natureza, ou entre Arte e Natureza?
Tenho para mim que a Natureza actua sobre o artista, estimulando-o, provocando-lhe reacções que irão acrescentar todo um repositório de novos conhecimentos ou emoções
à sua experiência anterior.
Deverei porém acentuar que, dentro da nossa época, as criações artísticas raramente são influenciadas pelos aspectos “visuais” da natureza.

-Existirá alguma relação entre o Arte e a Religião?
Sim, mas só para aqueles casos em que o artista está vinculado a uma determinada sociedade onde existe uma dominante religiosa.

-Sabendo-se que os três ciclos época-Geração-Indivíduo, exercem influência na Arte, qual considera o mais potente e porquê?

Considero-os de igual forma, ou sem grandes distinções entre elas. Porém considerados em profundidade histórica, verificamos que em determinadas épocas houve realmente predominância dum deles em relação aos outros, dependendo ainda essa predominância do factor geográfico.

-Existe alguma relação entre a sua pintura e a sua sensibilidade?
Claro que sim. A sensibilidade a que alude,. creio-a produto da minha formação como também é produto da região donde sou natural. Na realidade os seus aspectos paisagísticos e humanos marcaram-me profundamente, não obstante o enriquecimento emocional posteriormente adquirido noutros meios geográficos, ou sob novos ângulos de visão.
Creio que o caso do cor violenta e até dos contrastes dissonantes do minha pintura, estão em relação directa com o local geografico do meu nascimento.

-Quais as reacções do público e do crítica perante o sua obra?
É bastante difícil responder, porque na minha obra, existem já varias intenções. Assim, assinalarei o período em que tive a intenção de entrar em grande diálogo com o público, não apenas o nosso público, mas também o público internacional. Reportando-me a essas fases, creio que duma forma geral reagiu bem, aceitando e compreendendo ou tentando compreender. Depois houve de minha parte um afastamento progressivo por volta do ano de 1965. Uma das ultimas exposições onde estive presente foi, excepcionalmente, na Exposição de Artes Plasticas promovida pela Escola Industrial de Peniche, e a última no Salão Nacional de Arte, Salão onde me foi atribuído o prémio Nacional.
Mais recentemente é o público estrangeiro, que tem aderido à minha obra, mostrando muito interesse pelas exposições de gravura que realizei em França e em Barcelona.
Agora, pela primeira vez em Portugal, numa exposição internacional, apresento 5 gravuras e creio que o público gostou Espero, que numa nova exposição que estou a preparar, e que terá lugar na Sociedade Nacional de Belas Artes, na Sala de Arte Moderna, ele venha de novo tomar conhecimento de um trabalho que tem sido feito mais ou menos no silêncio mas com muita sinceridade.
No que diz respeito á crítica creio que não possuímos um conjunto de indivíduos que critiquem pintura á altura das necessidades dos artistas portugueses. Alguns, limitam mesmo os seus juízos de valor, á um reduzido grupo de artistas que gravita á sua volta. Os outros, para além do olvido a que são votados, também - e isso é uma situação que deve ser revista – não têm oportunidade de apresentar as suas obras porque as galerias ou outras entidades só expõem trabalhos de alguns artistas com quem estabelecem contratos. Assim direi que não há uma abertura em leque, que não há oportunidades para todos. Assim os críticos limitam-se o criticar, a elogiar duma maneira em geral, sempre os seus protegidos.
Nao é, ainda, menos verdade, que a crítica portuguesa tenha pouca originalidade, pois vai beber a fontes estrangeiras os conhecimentos que enuncia. Mesmo, quando possuidores duma sólida formação são desprovidos, na sua quase totalidade, de capacidade de se libertarem de influências estranhas e “gozar” arte.
De momento só me recordo de dois verdadeiramente capazes de “sentirem” arte - Rocha de Sousa e Lima de Freitas. Neles existe uma capacidade de emotividade que a meu ver falta aos outros críticos. São mais abertos, emocionam-se, sentem arte, expressam-se em termos de arte.

-Que é para si bom retrato no sentido humanístico?
Um Retrato, como uma paisagem ou um qualquer elemento de configuração geométrica, acima de tudo, devem ser primeiro-pintura. Só depois e no caso particular que assinala, se deverá reter no retratado, atendendo, se possível as características da sua psiquê.
Nota-se porém que nem todos os artistas podem ou devem pintar retratos. Na realidade, deverão possuir uma capacidade ou dotes naturais que possibilitem intuir a parte psicológica do retratado, e plasmá-la na sua expressão plástica.


-Existem muitos pintores com valor em Portugal?
A meu ver e através do conhecimento que eu tenho da pintura e dos pintores estrangeiros, considero que em Portugal existem, potencialmente, muito bons pintores. Infelizmente as nossas estruturas, não permitem que esse potencial entre em desenvolvimento.
Assim, o jovem artista ao integrar-se na nossa sociedade verifica que ela não é evoluída esteticamente-quiçá por motivo duma falta de preparação que lhe deveria ser ministrada desde a primária - e, dessa forma, podemos dizer que, na esmagadora maioria acabado o curso acaba a sua carreira artística porque não há consumo das obras que produz e não possuindo bases económicas que lhe permitam uma criação livre estiolam, afastando-se, por uma questão de sobrevivência dos caminhos da Arte.


-Qual o pintor que mais aprecia?
Sempre que me têm feito esta pergunta eu respondo que são 100 ou 200. Quando assim falo, é pensando nos artistas de todas as épocas mas, como adivinho a sua próxima pergunta, sempre direi que, actualmente, nacionais os que mais aprecio são, entre vários Júlio Pomar (que muitos já consideram ultrapassado) e Noronha da Costa, Rocha de Sousa e António de Sena.

-Qual o significado para todos da Arte. e que lugar deverá ocupar na nossa organização social?
Todos temos necessidade de expressar sentimentos através de diversos veículos.
Porém verifica-se que todo o humano tem necessidade de se expressar em termos de Arte ou de viver a Arte. Mesmo os que consomem Arte, no fundo, vivem a Arte. A Arte uma forma de expressão do Homem.
-Tem-se feito alguma coisa em Portugal no sentido de iniciar e educar as crianças no campo de informação artística?
Tem. Determinadas individualidades e organismos, têm tido bastante interesse em educar os jovens e as crianças com .bases de educação estética desde a classe pré-infantil. Simplesmente não tem sido possível por diversas razões montar, manter ou desenvolver essa estrutura.
Nomes como os de Nikias Skapinakyss, José Júlio, Delfim Santos, Calvet de Magalhães encontram-se ligados à iniciação estética da criança. Outros poderia citar ligados a esta luta pelo desenvolvimento de estruturas que cobrem essa deficiência.
Mais recentemente podemos apreciar nos esquemas das escolas particulares que uma parte da sua programação é dedicada a esta matéria, o que parece estar a tornar-se extensivo aos estabelecimentos de ensino oficial.

-Acha que os jovens se interessam pela pintura?
Sem dúvida. Até porque os elementos de pintura, os elementos técnico-materiais de pintura - são aliciantes. O problema da cor é fundamental para o humano, sensibilizando-o. Cor e luz são bases de expressão da pintura como são bases de expressão da juventude.

-Na sua opinião o que se deve fazer, no campo da educação da criança e do jovem para lhe despertar o interesse pela pintura e pela Arte?
Continuar a obra já realizada. Não só a nível particular como a nível oficial, nos diversos ramos do ensino, julgando com justiça o lugar que a expressão estética ou artística deve ter para o jovem.

-O que pensa da juventude em geral?
Penso bem. é afinal, como as outras juventudes doutras épocas. No fundo há simplesmente uma diferença de tempo, circunstância e nada mais. No entanto a juventude dos nossos dias parece viver os seus sonhos, os seus admiráveis sonhos com um tão vasto potencial e força criativa que certamente permanecerão para além do estado transitório duma idade cronológica.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Gil Teixeira Lopes. Anos 70/ 70 Anos

Pergunta: o que é que o “Gil Teixeira Lopes. Anos 70/ 70 Anos” tem a ver com a memória de Peniche? Então esperem pelo próximo tema, que sera uma surpresa, sobretudo para os antigos alunos da escola Industrial.
http://cabo-carvoeiro-historico.blogspot.com/2006/11/implantao-do-edificio-da-actual-escola.html

Boletim da Escola Industrial e Comercial de Peniche :Edição de 1970


segunda-feira, janeiro 08, 2007

A ACTUAL AVENIDA 25 DE ABRIL E OS SEUS ANTECEDENTES

Por: Fernando Engenheiro
Em tempos antigos o trajecto que unia a povoação de “Peniche de Baixo” à de “Peniche de Cima” não era mais do que um estreito caminho vicinal. Tinha o seu inicio junto da Igreja da Virgem Maria da Ajuda e estendia-se até ao local que é hoje conhecido por “Alto do Vilas” (início da Rua D. Luis de Ataíde, então designada por “Rua do Casal”).
Foi depois da construção da cinta de muralhas de Peniche, no último quartel do século XVII, que a Câmara Municipal mandou lajear todo aquele espaço de circulação com uma largura que não ia além da que possui a maior parte das ruas da época.
Passou a ter a designação de estrada municipal de 2° classe, embora o povo lhe atribuísse como topónimo a designação de “Calçada de Nossa Senhora da Ajuda”.
Durante muitos anos, ao longo desta calçada, na época única via de ligação dos dois pôlos de povoamento desta península, poucas foram as edificações implantadas.
A Santa Casa da Misericórdia de Peniche, em 1739, mandou construir junto da muralha, próximo do topo sul da rua, uma pequena capela — um dos “Passos” que existiram ao longo do trajecto da tradicional Procissão de Domingo de Ramos.
Outras construções existiram junto do pequeno templo. Serviram de lagar e de arrecadações de alfaias agrícolas. Mais tarde foi ali criado um espaço destinado a resguardar uma pequena embarcação “salva-vidas” com que se pretendia acudir aos naufrágios que se verificassem quer nos mares do Norte quer nos do Sul da península.
Mais uma construção, com dois pisos, foi edificada no outro lado da rua - prédio que ainda existe. Todo o restante terreno envolvente da calçada foi ocupado com explorações agrícolas que chegaram até ao primeiro quartel do século vinte.
A passagem da artilharia trazida pelos franceses aquando das suas invasões durante as Guerras Peninsulares terá provocado danos naquele caminho. Coube ao Município o trabalho de reparação e colocação de novas hajes para substituir as destruídas por aqueles militares que se faziam acompanhar de carretas para transporte de canhões (documentos de despesa da Câmara Municipal de Peniche de 4/1/1811 e 10/3/1811 , respectivamente, de quatro mil quinhentos e vinte réis e cinco mil novecentos e cinquenta réis em metal pagos ao mestre pedreiro Joaquim Madeira, do acréscimo das sisas).
Ao Longo dos anos, dada a pouca elevação que tinha o pavimento desta via, os invernos chuvosos encarregaram-se da sua destruição sendo substituído o seu revestimento por “mac-adam”, que se manteve até 1882, data em que todo o seu piso foi substituído por calçada à portuguesa, calcetamento que se prolongava até às ruínas do extinto Convento do Bom Jesus de Peniche.
Porque até então todo o trânsito com ligação à estrada real n.° 65 (actual EN. 114) era encaminhado para a actual Rua da Alegria, com saída na Travessa da Horta, a Autarquia pretendeu mandar fazer uma variante, um ramal em linha recta até ao portão de Peniche de Cima. Foi esta pretensão apresentada ao Ministério da Guerra, sendo intermediário o Governador da Praça de Peniche, em virtude do terreno necessário, com a extensão de 540 metros, pertencer ao Estado. Em 4-4-1895 foi concedido o terreno em causa, que atravessava as propriedades da Coroa, ficando a cargo da Câmara a despesa da execução e conservação daquele troço de estrada e obrigando-se aquela a repor tudo no estado primitivo quando o Ministério da Guerra o julgasse indispensável, sem direito a indemnização alguma, continuando contudo propriedade do mesmo Ministério o terreno ocupado pela estrada naquela parte. A edilidade aceitou as condições e pôs mãos a obra, tendo ficado o ramal concluído no dealbar do século.

Na sequência de deliberação tomada de 7/3/1902 a Câmara resolveu interferir junto do Governo solicitando autorização para mandar rasgar a cortina da muralha alargando o portão de Peniche de Cima. Por motivos que não me foi possível apurar, a obra não foi então concretizada pois na sequência de outra deliberação camarária, em 7/1/1913, novo pedido é feito nesse sentido ao Comandante Militar desta Praça o qual intercedeu junto do Ministério da Guerra. A autorização foi concedida só podendo a obra ser levada a efeito depois de lavrado o respectivo termo e segundo as condições impostas peio referido Ministério.
Por essa época, atendendo a imposições do Ministério da Guerra, a Câmara Municipal deu prioridade à desobstrução do cimo do actual Largo do Loureiro tendo em vista poder o trânsito circular direito à Ribeira sem ter de utilizar a actual Rua D. Luis de Ataíde (antiga Rua do Casal). Procedeu-se à arrematação do alargamento a 27/5/1913, obra entregue por empreitada a Serafim Joaquim, morador no lugar da Matoeira, Concelho de Caldas da Rainha, pela quantia de duzentos noventa e nove mil réis.
Pouco tempo depois toda a Calçada de Nossa Senhora da Ajuda (muitas vezes referida como Calçada da Ajuda) passou a ter uma vida diferente com a construção de fábricas de conservas nos terrenos que até então serviam para a agricultura.
A Empresa “La Paloma” construiu uma fábrica de conservas com grande dimensão (no local onde hoje se encontra a Escola Secundária) e o Centro Comercial de Conservas, L.da também edificou outro imóvel em frente à igreja de Nossa Senhora da Ajuda com dimensões idênticas, também para a exploração da industria de conservas de peixe.
Antão da Silva Pires também procedeu ali à construção de um edifício de rés-do-chão (com duas água) também para fins industriais e residência.
Mais tarde a firma Manuel Patricio da Cruz & Filhos, L.da mandou construir no lado poente da Calçada uma garagem que servia o público disponibilizando espaço para recolha de automóveis, lavagens, lubrificações e venda de combustíveis.
A última fase de remodelação daquela artéria verificou-se na década de 50, em cumprimento do programa do Plano de Urbanização elaborado na mesma época e integrada numa obra grandiosa que remodelou todas as vias que vão do portão de Peniche de Cima à Ribeira.
Foram demolidos todos os edifícios situados no lado Norte da Travessa do Loureiro dando lugar ao actual Largo do Loureiro (aqui voltou a alargar-se mais a curva, rasgando-se um pouco do ângulo da muralha).
Também, por deliberação camarária de 21/8/1950, se procedeu à demolição de um imóvel de dois pisos, com estabelecimento no piso inferior, que pertenceu a Luis Joaquim Correia, o qual recebeu a indemnização amigável de dez mil escudos. Estava localizado na curva em frente da igreja de Nossa Senhora da Ajuda e era conhecido por a “casa do Carlos Vicente”, arrendatário que ali explorou um estabelecimento de taberna (ver foto).
Já em 1/4/1935, peia importância de quatro contos de réis, por expropriação amigável havia sido adquirido a D. Maria Amália de Carvalho Figueira, o antigo passo ou capelinha e outras dependências que existiam junto da muralha e que foram demolidas mas só na década de 50 foram limpos, ajardinados e arborizados os diversos recintos que a nascente desta rua integram a zona de protecção das muralhas militares.
o Baluarte da Calçada, removida toda a terra que, encostada à muralha, o preenchia parcialmente (e que foi usada para sanear o pântano em que se transformavam as suas zonas mais baixas nas épocas de chuva) foi arborizado e transformado num amplo recinto destinado à prática de desportos diversos foi hipódromo e hoje nele estão instalados campos de ténis).

Também o Baluarte de S. Vicente foi limpo, consolidado e arborizado.
Só foi possível proceder a trabalhos nestas áreas de terreno depois do protocolo celebrado entre o Estado a Câmara Municipal em auto de 15 de Outubro de 1949 pelo qual o Poder Central cedeu ao Município, a titulo precário e gratuito, para ajardinamento e arborização os “prédios militares” denominados “Murraçal do Baluarte da Calçada” e “Murraçal do Baluarte de S. Vicente”.
Em virtude da exígua largura (8 metros) que conservava a abertura existente na cortina de muralhas conhecida por “Portão de Peniche de Cima” - há quantos anos au deixou de haver qualquer “portão” mas o nome perpetuou-se!.. . - se tornar cada vez mais insuficiente e perigosa para o intenso trânsito de veículos que a utilizava (recorde-se que na época era praticamente a única entrada na Vila) a Câmara Municipal, entendendo que novo alargamento se impunha, obteve do poder central a devida autorização e procedeu ao necessário alargamento com a demolição de mais alguns metros de muralha. Para o efeito houve que diligenciar que fosse entregue ao Município, para demolição, o edificio do antigo Posto da Guarda Fiscal de Peniche de Cima que existia encostado à muralha. Foi também adquirido e demolido um outro edificio contíguo onde chegou a funcionar um
estabelecimento comercial.
Os cortes na muralha foram rematados com a colocação de dois pilastrões (projecto do Sr. Arquitecto Paulino Montez) onde duas lápides recordam a evolução desta abertura.
Atravessando o “portão” encontramo-nos no Largo dos Navegantes. Percorrendo a actual Avenida encontramos à nossa direita diversas habitações entre as quais é de destacar um primeiro andar particular que, até 1946, serviu de Escola Primária. Todo o espaço que se segue entre a Travessa do Lagar até à Travessa da Horta (onde hoje existem construções modernas, residências e estabelecimentos comerciais) foi terra de semeadura de jurisdição militar aforada a particulares. A maior parte deste área foi adquirida por Joaquim de Matos Bilhau, então armador e grande comerciante de pescado.

Encontramos depois o Largo da Ajuda, urbanizado e ajardinado pelo Município de acordo com projecto elaborado pelo Engenheiro Alberto dos Reis, projecto que obteve parecer favorável da Junta Nacional de Educação da Direcção do Ensino Superior e das Belas Artes. Neste pequeno jardim foi mais tarde colocada uma estátua evocando o ilustre filho de Peniche que foi D. António Ferreira Viçoso, Bispo da Diocese de Mariana, cidade que foi a primeira capital do estado de Minas Gerais, no Brasil.
Apôs uma curva para a esquerda (saindo do que foi o Ramal da Ajuda e entrando no troço da via que foi a Calçada da Ajuda) encontramos à nossa direita o edifício da Escola industriai e Comercial de Peniche (actual Escola Secundária) construído em 1956 no espaço onde, como já referi, existiu a fábrica “La Paloma” (também conhecida por “Fábrica do Alemão” ou “de San Martin”), a qual possuía na facha da um painel de azulejos coloridos com uma imagem de São Martinho dando a sua capa a um mendigo), painel que actualmente se conserva no Museu Municipal.
A garagem que, como atrás disse, foi edificada pela firma Manuel Patrício da Cruz & Filhos, L.da era constituída por dois pavilhões que hoje já não existem. O primeiro foi demolido para dar lugar à rua “Enfermeiro António Videira” e o segundo foi há muito pouco tempo objecto da mesma acção aguardando o seu espaço a construção de novos edifícios.
Também todos os prédios inicialmente criados na propriedade de Antão da Silva Pires foram nestes últimos anos demolidos dando lugar à construção de modernos edifícios.
Alguns anos depois da grande remodelação desta artéria a Câmara Municipal, dando execução ao que há muito se encontrava previsto no Plano de Urbanização de Peniche e apôs negociação com os herdeiros de José Pereira de Barros, ligou a esta Avenida a já existente Rua António da Conceição Bento, rasgando uma propriedade que pertencia aos referidos herdeiros, que se situava entre as duas vias, e onde existiam terras de cultivo e alguns armazéns.
Refira-se que, na citada época de 50, com excepção dos trabalhos de revestimento betuminoso que, por deliberação de 20/5/1957, foram adjudicados ao empreiteiro Artur do Rosário Dias, a Câmara Municipal executou por administração directa todas as demais obras de pavimentação e colocação de lancis em toda a extensão desta artéria, tendo elevado a sua cota nos pontos mais baixos e rebaixado nos mais altos, de modo a todo o seu pavimento ficasse sem declives acentuados.

Depois de concluídas as obras, foi deliberado pela Câmara Municipal, em reunião de 23/11/1959, que a via conhecida por Estrada da Ajuda e o seu prolongamento até ao portão de Peniche de Cima (conhecido por Ramal da Ajuda) passassem a denominar-se AVENIDA DOUTOR ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR, o que foi aprovado por unanimidade.
Atendendo à vontade dos homens, depois da queda do “Estado Novo”, por deliberação camarária de 22/1/1975, esta via passou a ser designada por “AVENIDA 25 DE ABRIL”. Foi escolhida esta artéria para, na sua bifurcação com a Rua António da Conceição, ser colocado um monumento comemorativo da revolução ocorrida nessa data. A sua inauguração teve lugar às 0 horas da noite de 24 para 25 de Abril de 1988.
Trata-se de um monumento constituído fundamentalmente por uma ABERTURA- um espaço de TRANSIÇÃO, uma PASSAGEM, uma PORTA ABERTA — talhada em grandes blocos de mármore de Estremoz que lhe servem de esteios. E da autoria do escultor penichense João Fernandes Afra.
Peniche, Dezembro de 2006.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Lembranças de um Passado recente.


O antigo porto de pesca nos anos 70

Actual



segunda-feira, dezembro 11, 2006

COMO NASCEU E EVOLUIU A ACTUAL RUA ALEXANDRE HERCULANO CONSIDERADA HOJE ARTÉRIA NOBRE DA CIDADE DE PENICHE II parte e conclusão

A edificação que se segue tem o número de policia 76. Trata-se de uma outra construção da mesma época mandada edificar por Joaquim José Tavares, natural da freguesia de S. Sebastião da Vila de Peniche, oriundo de uma familia da Vila de Cela, Couto de Alcobaça, que fixou residência em Peniche nos fins do século dezoito quando seu avô, o Alferes José Tavares Leão, então ao serviço da Fortaleza de Peniche, constituiu familia casando com D. Jacinta Barbosa de Figueiredo, natural desta Vila.
Manteve-se na posse de herdeiros directos até à data do falecimento de D. Isabel Maria Godinho Tavares, solteira, de 61 anos de idade, natural do Brasil, residente naquela habitação, que, com 61 anos de idade, findou os seus dias a 26 de Janeiro de 1919. Em 1 de Fevereiro do ano anterior, em testamento das suas últimas vontades deixou o edificio a que nos estamos a referir a sua sobrinha Maria das Dores Tavares Freire de Andrade, filha de sua irmã Balbina da Purificação Tavares Freire de Andrade e de Luis Maria Freire de Andrade. Presentemente são suas proprietárias as filhas de D. Maria das Dores: Maria Teresa e Maria do Carmo Tavares Freire de Andrade Bonifácio da Silva.
O prédio que se segue torneja para o actual Largo Dr. Figueiredo Fana. Tratava-se de um antigo lagar que foi adaptado espaço comercial onde funcionou uma drogaria que um grande incêndio destruiu em 1932.
A Câmara Municipal comprou o imóvel em ruínas e ofereceu-o à Administração Geral dos Correios e Telégrafos para esta ali instalar um novo edifício dos correios. Inaugurada a nova Estação dos CTT em 10/4/1938, ali se manteve aquele serviço p durante quase 50 anos. No primeiro andar funcionava o serviço telefónico e no piso superior encontrava-se instalada a residência do Chefe da Estação. Continua sendo propriedade da mesma entidade e nele encontra-se instalado o equipamento telefónico que serve Peniche.
A actual rua Alexandre Herculano, além do primitivo topónimo, foi também designada
por rua da Ponte, do Murraça e do Passeio, a partir de 1834.
Com a passagem do primeiro centenário do nascimento de Alexandre Herculano, político, historiador, poeta e romancista, ocorrido a 28 de Março de 1910, a Câmara Municipal, em sessão camarária de 1 7/3/1 91 0, deliberou alterar o topónimo de Rua do Passeio para Rua Alexandre Herculano dando conhecimento à Comissão Executiva do Centenário da sua participação perpetuando numa das artérias da então Vila de Peniche o nome daquela personalidade.
Até então o trânsito de viaturas não ia além do portão principal da Vila, designado por “Portão da Ponte Velha”, havendo todo o interesse em que se criasse desvio na direcção da Estrada da Ajuda (actual Avenida 25 de Abril) pois que a passagem existente sô permitia o acesso de peões.
A Câmara Municipal procedeu à arrematação da obra de alargamento daquela artéria a 27 de Maio de 1 913 entregando-a por empreitada a Serafim Joaquim, morador no lugar da Matoeira, concelho de Caldas da Rainha, pela quantia de duzentos noventa e nove mil réis.
Passa toda aquela área entre o inicio da Travessa da Ponte e o acesso à Estrada da Ajuda a ter maior actividade por ah ter sido instalada, pouco tempo antes da referida obra, uma escola do ensino primário elementar para ambos os sexos no edifício de l.° andar com o actual número de policia 46 Funcionava numa casa particular alugada, para o efeito, pela Câmara Municipal, a Eduardo Plácido Montez. Depois de 1918 este prédio passou a servir de sede a um grupo desportivo, sendo depois residência da família “Casimiro” que no rés do chão criou uma padaria.
Mais ao lado, Antero do Nascimento obteve da Câmara Municipal, por deliberação de 17/5/1928, aprovação para a construção de um prédio de 2 pisos cujo piso inferior desti nou ao comércio de venda de vinho a copo. Era a conhecida “taberna do Antero à Ponte”, remodelada mais tarde para dar lugar ao actual café e cervejaria “Nau”.
Mais a Norte continuava com grande actividade o estábulo, com oficina de ferrador,
do “José Ferrador” grande atracção para as crianças de então, sempre de olhos atentos quando lhes era possível assistir à operação de pôr ou renovar as ferraduras nos animais. o seu espaço está hoje ocupado por um imóvel de 2 pisos onde funciona no piso inferior um estabelecimento de electrodomésticos.
A Câmara Municipal sob a presidência de António Maria de Oliveira chegou a projectar construir um mercado municipal no espaço do actual “Jardim da Cascata”, durante muitos anos ocupado com armazéns e arrecadações dos serviços municipais de limpeza. o projecto, da autoria do Arquitecto Paulino Montez, chegou mesmo a ser aprovado, embora nunca se tivesse concretizado. Com a demolição da casa da guarda e outros anexos tinham dado apoio ao portão militar e das arrecadações que haviam sido criadas pela Câmara quando utilizou a área para os seus serviços, todo o espaço sul do “Baluarte de Ponte” foi saneado dando lugar ao actual espaço ajardinado.
Mais à frente, a Norte, do outro lado do acesso à “ponte velha”, José do Rosário Leitão, negociante de peixe, natural e residente em Peniche, em zona pertencente ao prédio militar n° 67, alugada, a 2/5/1942, pelo Depósito de Presos de Peniche, com a renda anual de 153$OO, quando um seu cunhado era Presidente da Câmara Municipal, manda construir um barracão com a extensão de 24 metros, encostado a muralha militar, tendo levantado sobre esta uma parede de alvenaria com a altura de um metro.
Na mesma época de 40, João Mendes Madeira Sobrinho, gerente da Fábrica de Conservas, Judice Fialho, mandou construir, em frente a este armazém, a sua casa de habitação, um vasto imóvel de dois pisos, em terreno adquirido por compra a Carlos Maria Freire de Andrade. Com a morte deste e de sua esposa, seus herdeiros arrendaram
o prédio à Junta Central da Casa dos Pescadores que ali fez funcionar uma Maternidade durante as décadas de 70 e 80.
Logo a seguir, para Norte, na zona contígua, José Fernandes Pinto, industrial penichense, no espaço de uns velhos pardieiros e de casa de habitação construiu uma garagem de recolha de automóveis, com serviço de lavagens, lubrificações e abastecimento de combustáveis. Esta construção foi aprovada pela Câmara Municipal no princípio da década de 50.
Mas foi a partir de 1954, com a execução da obra de remodelação de todo o acesso de Peniche de Cima à Ribeira, que foi radicalmente transformado o aspecto desta rua no troço entre a “Ponte Velha” e o “Alto do Vilas”, com a demolição de várias construções antigas e a sua reconstrução após o alargamento da via de acordo com o Plano de Urbanização. Isto sô foi poss apôs negociação com os proprietários dos vários prédios ali existentes. Cito algumas das escrituras que resultaram dessas negociações:
Escritura de expropriação, a 14/6/1958, entre a Câmara Municipal e Floriano Maria de Abreu e Olegário Julio Ferreira (L.° de Escrt. n.° 13 do Notário Privativo da C.M.P.). A 24/6/1959 com Maria Guilhermina Ribeiro Guizado Mota Carmo (L.° de Escrt. n.° 14).
A 23/7/1959 com os Herdeiros de Francisco Martinho (L.° de Escrituras n.° 14). A 22/7/1969 com Manuel Gomes Bastos (L°. de Escrt. n.° 20).
Em todas estas negociações, a Câmara Municipal de Peniche, para além de pagar as indemnizações acordadas, tomou a responsabilidade de mandar proceder, à custa do Municipio, à construção ou reconstrução de habitações destinadas à substituição das moradias demolidas.
Já longos anos passados depois destas obras, a Câmara Municipal quis pôr a descoberto toda a muralha militar fronteira a esta artéria. Restava o armazém ali construído na década de 40 por José do Rosário Leitão.
A edilidade, então sob a presidência de Luis Alberto de Matos Almeida, entabulou negociações com os herdeiros da propriedade e, a 6/8/1982, a viúva, Joana Andrade Leitão e os restantes herdeiros, fizeram entrega ao Município do imóvel e restante terreno ocupado, mediante escritura lavrada naquela data, pela importância de dois milhões de escudos. Seguiu-se a sua demolição e o ajardinamento de todo aquele espaço.
Pouco mais se fez depois em toda aquela artéria, para além da destruição do muro de vedação do “Jardim da Cascata” e da recente remodelação da iluminação pública.
Peniche, Novembro de 2006.

domingo, novembro 26, 2006

A IMPLANTAÇÃO DO EDIFICIO DA ACTUAL ESCOLA SECUNDARIA NA ZONA ONDE SE ENCONTRA E O ENSINO TÉCNICO EM PENICHE

Por : Fernando Engenheiro
Foi nos finals do século dezanove, mais propriamente em 1886, que se procedeu no nosso País à organização do ensino industrial e comercial.
Até essa data as artes aplicadas não tinham, em Portugal, quem as cultivasse e, muito menos, quem as ensinasse.
A princípio, o ensino técnico foi frouxo, hesitante, quase nulo; havia um certo retraimento na frequência das aulas, por não estar bem evidente o que dali adviria de útil para a prosperidade da Nação que por essa época não se via a braços com a crise económica. Esta, porém, no final do século estendeu os seus tentáculos empobrecendo os nossos mercados, tornando mais áspera a vida, encarecendo todos os géneros, dificultando o acesso a todas as profissões.
Neste calamitoso período o ensino e as escolas industriais começaram a ressentir-se; a frequência tornou-se maior, a afluência dos alunos obrigou os governos a olhar com mais atenção para esta área de ensino; mandou-se vir do estrangeiro os melhores professores.
Pouco tempo depois o ensino industrial tomou uma feição prática e verdadeiramente útil com a criação em diversos pontos do País de escolas industriais que incluíam o ensino de desenho industrial.
E neste período que Peniche, por carta de Lei de 30 de Junho de 1887, foi contemplada com a criação de uma escola de desenho inaugurada, em 26 de Setembro do mesmo ano, pelo Inspector Fonseca Benevides em representação do Governo. Foi designada por “Escola de Desenho Dona Maria Pia”.
Na escola seria ministrado o ensino do desenho elementar e do desenho industrial do ramo ornamental a alunos dos dois sexos e o ensino profissional de rendas a alunas.
Teve como sua primeira directora D. Maria Augusta Bordalo Pinheiro. Figura das mais notáveis da sociedade portuguesa do século dezanove, nascida a 14/11/1841 e falecida em 22/10/1915, esta lustre dama foi pintora e desenhista
- sobretudo de flores - e essas qualidades, de entre outras, levaram-na a interessar-se pelas obras das rendilheiras da beira-mar, obras em que viu o embrião de uma arte susceptível de largos voos.
, instalou-se a ministrar a sua actividade no vasto edifício onde anos antes havia funcionado o “Seminário das Orfâs Desamparadas”, sito na antiga Rua Direita ao Terreiro da Fortaleza, actual Rua Marquês de Pombal, n° 69, cedido a título de aluguer pelo então seu proprietário João Batista Ribeiro Guizado (hoje conhecido pelo solar da Família Guisado).
Fruto do seu esforço e da sua dedicação, dois anos de- pois a Oficina de Rendas da referida escola conquistou a medalha de ouro da Exposição Internacional de Paris (1889) e anos depois, mais propriamente em 1 895, novo galardão em Belém (Brasil).
Atendendo ao grande desenvolvimento da escola e oficina havia um grande interesse em dotá-las de edificio próprio, o que até constituiu grande ambição do Município. Ainda chegou a ser escolhido local para a sua implantação mas o sonho que não se concretizou. Mais ou menos no local escolhido, no que vina a ser o Jardim P veio a ser construído o edifício-sede do Clube Recreativo Penichense.
Anos depois, continuando sem casa própria, a escola, com a classificação de “Escola de Artes e Ofícios” , com a designação de “Escola de Rendas” , e passando, pela reforma de 1 de Dezembro de 1918 (Decreto n. 5029), a admitir só alunos do sexo feminino, é transferida para um prédio situado na mesma rua, tornejando para a rua Latino Coelho, ocupando o primeiro e segundo andares.
Tratava-se de um edifício mais central, que havia sido construído com a finalidade de nele ser explorado um hotel mas que, desde o falecimento do seu anterior proprietário ocorrido a 22 de Novembro de 1909, se encontrava devoluto sem nunca ter tido qualquer tipo de actividade.
Pela reorganização de 1930-31 (Decretos 18.420 e 20.420) passou a ter a designação de ‘Escola Industrial de Rendeiras Josefa de Óbidos”, mantendo-se a frequência exclusivamente feminina, distribuída por dois cursos: rendilheiras e costura e bordados.
Posteriormente o plano de estudos atribuído à Escola de Peniche pelo Estatuto do Ensino Profissional Industrial e Comercial incluiu o Ciclo Preparatório, cuja frequência é faculta da a alunos de ambos os sexos.
Continuando no mesmo edifício das ruas Marquês de Pombal/Latino Coelho é também criado ah, pela Portaria n°14.065, de 28/8/1952, o Curso Complementar de Aprendizagem do Comércio.
Este espaço já não suportava o movimento atingido pela escola e havia que colocar à disposição dos alunos e professores instalações adequadas até ao previsível aumento de frequência, que na realidade se verificou.
Refira-se que a Câmara Municipal muitos anos antes, em reunião de 7 de Maio de 1942, deliberara oficiar ao Governa dor Civil do distrito de Leiria informando que era uma aspiração da Autarquia e da População do Concelho que na reorganização do Ensino Técnico, esta Escola se tomasse numa Escola Industrial e Comercial semelhante à Escola Industrial e Comercial Rafael Bordalo Pinheiro, de Caldas da Rainha. e João Vaz de Setúbal, com uma secção de serralharia civil ou mecânica e carpintaria, sem deixar contudo de existir a secção de rendas.
A 8/2/1951 foi contactada a Câmara Municipal de Peniche pela Caixa Geral de Depósitos, Crédito e Previdência inquirindo sobre o interesse que poderia ter em possuir a título de compra uma propriedade sita em Peniche, na então Estrada da Ajuda, que consistia numa antiga fábrica de conservas de peixe, desactivada e entregue àquela Caixa, por falta de pagamento dentro dos prazos acordados para créditos con- cedidos, pela Sociedade de Conservas “La Paloma, L. da” Tratava-se de um prédio murado com mais de 15.000 m2 ocupando a área coberta 4.485 m2 e tendo o terreno livre 9.412 m2. Compreendia o edifício da antiga fábrica e anexos, um bairro operário e casas de habitação.
Aquele estabelecimento conserveiro era também conhecido por “Fábrica do Alemão”, designação que tinha origem na nacionalidade do seu proprietário o Sr. M. Stichaner Rotth”. Também era conhecida por “Fábrica de S. Martin” dado o painel de azulejo existente na fachada edifício principal.
A Câmara Municipal interessou-se pela aquisição daquela vasta propriedade visando em especial poder oferecer ao Estado o terreno necessário à edificação de uma escola industrial e comercial. A Administração da Caixa Geral de Depósitos, pelo seu oficio n° 2153, de 25/11/1953, ainda antes de concretizada a aquisição, deu ao Município autorização para que no edifício principal da fábrica pudessem provisoriamente funcionar desde logo algumas salas de aula, dado que o edifício onde aquela Escola se encontrava já não comportava o elevado número de alunos matriculados.
Por deliberação camarária de 31/1/1955 foi aceite o valor de novecentos mil escudos para a compra, feita mediante a concessão pela mesma Caixa de um empréstimo do mesmo valor, amortizável em vinte anos, ao juro anual de quatro por cento, ficando caucionado pelas receitas ordinárias do Município e, em especial, pelos adicionais às contribuições do Estado a arrecadar pela autarquia.
A escritura de compra e venda foi lavrada a 23/5/1956 nos Serviços Notariais da Caixa Geral de Depósitos, sendo o Município de Peniche representado pelo seu Presidente, Senhor António da Conceição Bento.
Cedido ao Estado o terreno necessário à edificação da Escola, procedeu depois o Ministério das Obras Publicas, pela Junta das Construções para o Ensino Técnico e Secundário, à abertura de concurso público para arrematação da empreitada de “Construção da Escola Industrial e Comercial de Peniche” (denominação adquirida pelo Decreto-Lei n. 39 264, de 4/7/1953).
Foi na sede da Junta, na Rua Garda de Orta, n. 68 - 1 .°, em Lisboa, que se procedeu, em 5/9/1956, à abertura das propostas deste concurso cuja base de licitação foi de 6.885.424$00.
Houve dois concorrentes, sendo a proposta mais baixa de 6.743.000$00, apresentada pelo empreiteiro Fernando Pires Coelho, de Lisboa, a quem a obra foi adjudicada.
As obras tiveram inicio em 17/12/1956 e a sua conclusão verificou-se em 29/12/1958. 0 custo total das instalações foi de 12.655.000$00.
De salientar que a área coberta é de 3.602 m2, a área do terreno 6.500 m2 e a superfície dos pavimento é de 6.680 m2. Em 5/12/1959, em sessão solene, foi feita a entrega das instalações na presença dos Ministros das Obras Públicas e da Educação Nacional. O dia 13 do mesmo mês, foi dia de grande festa em Peniche com a inauguração da Escola Industrial e Comercial de Peniche, acto que registou a presença dos Senhores Ministro das Obras P e Subsecretário de Estado da Educação Nacional. Na mesma data também se inauguraram as obras de remodelação das Avenidas Dou tor António de Oliveira Salazar (actual Avenida 25 de Abril) e Engenheiro José Frederico Ulrich (actual Avenida do Mar), além de novas escolas do Plano dos Centenários e da electrificação de diversas localidades do Concelho.
Na época de novas instalações, a Escola Industrial e Comercial de Peniche foi a trigésima escola concluída no âmbito do 1 .° Plano de Fomento.
o novo estabelecimento de ensino começou por servir uma população escolar mista de 1 .000 alunos, com os cursos do Ciclo Preparatório, Geral de Comércio, de Serralheiro, de Electricidade e de Costura e Bordados com oficina anexa de Rendilheiras.
Justificava-se, atendendo não só à imponência e grandeza dos edifícios sob o aspecto urban mas também sob o aspecto pedagógico, que se estabelecesse uma zona de protecção daqueles, a quai, simultaneamente, permitiria maior desafogo aos respectivos logradouros e a criação de campos de jogos. Para tanto era necessária a demolição do inestético edifício, situado a Norte e Poente, onde se localizava o bairro que fora residência dos antigos operários da extinta Fábrica de Conservas de Peixe “La Paloma”, adquirida no seu todo, como já foi dito, pela Câmara Municipal de Peniche. A Câmara Municipal aceitou a responsabilidade de realojar aquelas 60 famílias procedendo à ampliação do Bairro Senhor do Calvário e deliberou, em sessão camarária de 31/8/1 960, aceitar a proposta de 500.000$00 feita pela Junta das Construções para o Ensino Técnico e Secundário para aquisição do terreno destinado à ampliação do logradouro da Escola, valor que cobria parte da despesa a fazer com a criação de novas residências para as famílias dos antigos operários. Assim nasce ram no referido Bairro Senhor do Calvário mais 30 blocos de casas geminadas.
Depois de cumpridas todas as formalidades legais, procedeu-se à escritura de compra e venda a 6/12/1962 no Notário Privativo da Câmara Municipal representada esta pelo seu Presidente, já então o Senhor Victor João Albino de Almeida da Baltazar, e sendo a Junta das Construções para o Ensino Técnico e Secundário do Ministério das Obras Publicas re presentada pelo Engenheiro Civil Manuel Joaquim Pinto de Sá Costa Reis.
A partir da Portaria n. 608/79, de 22 de Novembro, tendo em consideração o disposto no artigo 3Y do Decreto-Lei n° 219, de 17 de Julho do mesmo ano, a Escola passou a usar a designação de “ESCOLA SECUNDARIA DE PENICHE”.
No presente ano lectivo mantém cursos nocturnos com 133 alunos de ambos os sexos e cursos diurnos com 258 alunos do sexo masculino e 351 do feminino.
Peniche, Agosto de 2006. http://www.es-peniche.net/

sábado, novembro 25, 2006

COMO NASCEU E EVOLUIU A ACTUAL RUA ALEXANDRE HERCULANO CONSIDERADA HOJE ARTÉRIA NOBRE DA CIDADE DE PENICHE

por:Fernando engenheiro
Delas já nada existe, nem quaisquer vestígios testemunham as primitivas construções que, espalhadas aqui ou acolá, foram edificadas por toda aquela artéria que começou por ser designada por “RUA DO MAR”. (Livro de Escrituras de 1677/1680, fls. 15/16).
Foi a partir da construção da cinta de muralhas que lhe fica fronteira que o seu alinha mento se definiu. O seu desenhador, o Tenente Mestre de Campo Simão Mateus, poupou toda aquela zona, pois por pouco a rua não foi eliminada para dar lugar à muralha. E o Ministério da Defesa do Reino sancionou o que lhe foi proposto, possivelmente tomando em consideração o ângulo do Baluarte da Ponte. Os seus moradores conseguiram assim resistir sem que para isso tivessem sido sujeitos a sobras ou sido desalojados.
No primeiro arrolamento das contribuições para avaliação dos rendimentos municipais efectuado em 1618 (pouco tempo depois da elevação de Peniche a sede de Concelho), residiam ali famílias das mais diversas profissões, tais como: 2 de pescadores, 1 de marinheiros, 1 de calafates, 1 de carpinteiros, 1 proprietário de caravela e outro de fragata, 2 sanfoneiros, 1 bombardeiro e 1 serralheiro. Ali se situava também açougue da Irmandade Marítima do Corpo Santo.
Na época o aglomerado urbano de Peniche tinha cerca de 5000 habitantes, o que contribuiu para que merecesse o título de “VILA”.
Em meados do século XVII a Vila abrigava já cerca de 8000 habitantes. E no terceiro quartel do mesmo século ainda num alvará de D. Afonso VI se podia salientar que os moradores de Peniche estavam “muito opulentos e frequentados de negócios”.
Dentro de todo este desenvolvimento e com pretensões ao progresso de Peniche, Alexandre Ribeiro da Gama, natural desta Vila, homem de negócios, grande mercador, com visão para o futuro, adquiriu, por compra, todo o quarteirão entre a Travessa da Ponte (actual inicio da Rua Arquitecto Paulino Montez) e o Largo do Chafariz (actual Largo Dr. Figueiredo Fana), confrontando pelo Poente com a Rua do Casai (actual Rua D. Luis de Ataide) e uma viela que lhe ficava ao meio, considerado como terreno municipal. Tratava se de uma área devastada pelo terr maremoto ocasionado pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755. Ali promoveu a construção de um imóvel de dois pisos destinado a sua residência, fronteiro à rua principal e tornejando para a Travessa da Ponte, sendo o piso superior constituído por 8 vãos onde fixou os seus aposentos, sendo o rés do chão destinado a estabelecimento de mercearia, retrosaria e diversos armazéns contíguos de venda de alfaias agrícolas e cereais - noutras secções vendiam-se apetrechos marítimos da mais variada espécie, onde incluía a drogaria da época (tintas, alvaiades, breu e substâncias untuosas) e, ainda, todos os materiais destinados a construção.

No edificio principal foi criado o primeiro estabelecimento de um Correio Geral para esta terra, a cargo daquele mercador sem qualquer remuneração, ficando a seu cargo todas as despesas com o estafeta nas suas deslocações a Caldas todas as semanas.
Alexandre Ribeiro da Gama exerceu ainda outras actividades nesta Vila, tais como a cobrança das Rendas da imposição, administradas pelo Município, e a de Vice-Consul da Nação Britânica. Decorridos largos anos, apercebendo-se de que o seu fim estava próximo, não tendo herdeiros directos nem tendo nunca constituído familia, fez o seu testa- mento no dia 12/6/1793, a favor de sua sobrinha Maria de Jesus, casada com Matias José Ventura, e de seu caixeiro António de Almeida Coelho, ficando os dois herdeiros com partes iguais da herança.
Poucos meses depois, a 26/11/1793, estavam os seus restos mortais a serem recebidos pelo Guardião do Convento do Bom Jesus de Peniche a fim de serem inumados, a seu pedido, na Capela Mor da igreja daquela comunidade religiosa.
À frente dos seus negócios de comércio ficou, por algumas décadas, o seu herdeiro e antigo caixeiro. Também este não teve herdeiros directos pelo que, a 28/1/1831 , fez testamento a favor dos seus sobrinhos, com consentimento de sua esposa, a quai ficou como usufrutuária durante os poucos anos que, como viúva, lhe sobreviveu. Seus sobrinhos eram naturais e residentes no lugar da Fonte da Bica, da freguesia de Nossa Senhora da Conceição, do lugar de Rio Maior, ter- mo da Viia de Santarém. Peniche pouco ou nada lhes dizia e, ao que nos afigura, apressaram-se a transformar em dinheiro os bens imóveis herdados. Foi o que aconteceu apôs a morte de sua tia D. Ana Rita do Espirito Santo em 20/3/1840.
Alguns anos depois, mais propriamente a 3/10/1846, veio destacado para a Praça de Peniche o então Capitão da 6. Companhia do Regimento de Infantaria n.° 10, Sezinando Ribeiro Artur, com uma força de 61 praças, que aqui se manteve até 11 de Janeiro de 1848. Este militar terminou a sua carreira com o posto de Coronel. Seus familiares, com o aval de sua esposa D. Cândida de São José Ribeiro Artur, decidiram fixar em Peniche a sua residência permanente.
Em terreno adquirido aos herdeiros de António de Almeida Coelho promoveram a construção de um edificio de dois pisos, sendo o piso superior de seis vãos (que incluíam 2 sacadas). Para a época era um imóvel com algum destaque. Coube-lhe o numero de policia 68 e tinha serventia para uma viela pública com acesso pela Travessa da Ponte. Por morte de Sezinando Ribeiro Artur e de sua esposa herdaram este prédio o filho Generai Bartolomeu Sezinando Ribeiro Artur e sua esposa D. Maria da Costa Ribeiro Artur. Estes, por sua vez, deixam os bens a seu filho o Engenheiro Sezinando Ribeiro Artur, subdirector dos Caminhos de Ferro de Lourenço Marques que, não sendo casado, tem dois filhos perfilhados e reconhecidos por escritura pública Artur da Costa Ribeiro. naturai de Nelas e Berta da Costa Ribeiro Artur. nascida em Lisboa, freguesia da Pena (foi a esposa do antigo Presidente da República eleito em Julho de 1951, Francisco Higino Craveiro Lopes). O Engenheiro Sezinando, com 43 anos de idade, na cidade de Lourenço Marques, fez testamento em 27/9/1918. Faleceu no dia seguinte.
O usufruto do imóvel (então já a rua era designada por “Rua do Passeio’ foi atribuído a suas irmãs Sara Ribeiro Artur e Isabel Ribeiro Artur, enquanto vivas, ficando depois das suas mortes a pertencer inteiramente a sua filha Berta da Costa Ribeiro Artur, instituída unica e universal herdeira.

Faleceu D. Berta da Costa Ribeiro Artur Craveiro Lopes em Julho de 1958 e seu marido, o Marechal Francisco Higinio Craveiro Lopes, a 2/9/1964. Sua tia D. Isabel Ribeiro Artur Bonifácio da Silva, a última usufrutuária, faleceu anos depois a 14/6/1981 . A partir de então o imóvel, livre de quaisquer obrigações, entrou na posse dos herdeiros (os filhos do Marechal) que procederam à sua venda.
Os adquirentes, personalidades ligadas à Secção local do PSD, negociaram depois com o construtor civil João Manuel Garcia o aproveitamento do local. O velho edifício de dois pisos foi demolido e no seu espaço foi construído um edifício de 3 pisos, com um tratamento arquitectónico de linhas direitas e, talvez, pouco feliz. Foi vendido em propriedade horizontal tendo parte de um piso sido destinada à sede local do partido político “PPD/PSD - Partido Social Democrata”.
O prédio que se segue (para Sul), com o actual número de policia 72 foi mandado edificar por Carlos Filipe Freire de Andrade, Cirurgião Mor da Praça de Peniche, com a finalidade de ser oferecido a sua filha Maria da Graça Freire de Andrade como dote do seu casamento com o médico militar José Gomes Ribeiro. Estes, no entanto, fixaram residência em Lisboa e o prédio foi, ao longo de 50 anos, residência do Dr. João Baptista Frazão, figura de destaque em Peniche pela sua intervenção politica e com especial relevo no meio clinico local pelos seus dotes de simpatia e profissionalismo. Deixou viúva sua esposa aos 77 anos de idade, a 24/3/1953. Sua mulher sobreviveu até aos 93 anos, tendo falecido a 18/3/1977.
Porém já há longos anos que este imóvel tinha mudado de proprietário.
Maria da Graça, apôs a sua viuvez do Coronel Médico Gomes Ribeiro, deixou em testamento, em 29/7/1928, parte dos seus bens móveis e imóveis a seus afilhados: Sara de Jesus Henriques da Silva Guerra, Rosa da Ajuda Henriques e tenente do exército Amadeu Maria Henriques. Coube a este oficial o edifício em causa, que se manteve na familia até princípios da década de 80. Presentemente é seu proprietário um estranho a toda esta família que o adquiriu por compra quando se encontrava devoluto.

domingo, novembro 12, 2006

O PADRE CRUZ PERMANECEU EM PENICHE AMIUDADAS VEZES

Por: Fernando Engenheiro
Francisco Rodrigues da Cruz era o nome completo daquela figura singular que a fé e a memória dos homens melhor conhece pela designação de Santo Padre Cruz.
Nasceu em Alcochete no dia 29 de Julho de 1859 e era o quarto filho de Manuel da Cruz, homem abastado, justo e generoso, bom cristão, cumpridor da Lei de Deus, e de D. Catarina de Oliveira Cruz.
Seu pai, dizia quem o conhecia, gabava-se de na sua casa, mandada construir por ele, nem um inicio prego ter sido pregado ao domingo. E nos anos de más colheitas, quando os caseiros não po diam pagar a renda inteira, perdoava-lhes tão liberalmente que havia quem o censurasse. Mas ele respondia que nunca tinha sentido a falta do que por caridade deixava de receber. Era homem de caracter e de vontade forte, que foi alguém graças ao esforço do seu trabalho tenaz e honesto. Aprendeu a ler já em plena mocidade mas soube orientar a sua vida e a família como se tivesse grandes estudos.
Seus filhos terão passado os seus primeiros anos, aqueles que mais marcam o espírito e o coração, num ambiente profundamente cristão.
Francisco partiu para Lisboa, aos 9 anos de idade, com Manuel, o irmão mais velho, e não recebeu nenhuma formação religiosa nos colégios e escolas que frequentou.
Mas a fé que de pequenino lhe acenderam na alma e os bons hábitos adquiridos ajudaram-no a conservar-se fiel às tradições ca t de muito novo entregue a si mesmo e desamparado
espiritualmente
Aos 16 anos, tendo terminado os preparatórios, nos quais deu provas de ser aluno muito aplicado, era chegado o momento de escolher a carreira da sua vida. Para os familiares e para os que o rodeavam não foi novidade a sua vontade ser Padre, o que também era o desejo dos seus pais, embora nunca o tivessem manifestado. Seu pai, para lhe deixar inteira liberdade na escolha, aconselhou-o a matricular-se na Faculdade de Teologia de Coimbra.

Terminada a formatura em Teologia, aprovado com a maior classificação, já doutorado, sentiu o chamamento de Deus para a vida religiosa na Companhia de Jesus “em “virtude das práticas que ouvia”.
Concluídos estudos universitários, o Dr. Francisco da Cruz foi convidado para professor de filosofia no Seminário de Santarém, aguardando a idade de se poder ordenar, pois contava ainda apenas 20 anos.
Só passados dois anos, no dia 3 de Junho de 1882, recebeu a Ordem de Presbítero.
Permaneceu no Seminário de Santarém, com a mesma actividade de professor, até Outubro de 1886, dali saindo para ocupar o lugar de Director do Colégio dos órfãos, em Braga.
Anos depois, o Servo de Deus de Braga passou para o Seminário de Farrobo, próximo de Vila Franca de Xira. Em 1896 este Seminário mudou-se para S. Vicente de Fora, em Lisboa, onde o
Padre Cruz continuou a ser Director espiritual. Em 1905, o Seminário Menor passou de S. Vicente para Santarém. Francisco permaneceu em Lisboa, continuando a residir no Paço de S. Vicente de Fora. A sua vida tomou, então, em absoluto, o carácter missionário que o marcou até ao fim dos seus dias na terra.

Mas foi a partir da primeira peregrinação a Roma, no dia 9 de Maio de 1909, onde foi recebido por Sua Santidade o Papa Pio X no dia 18 daquele mês, que não mais parou de pregar a palavra do evangelho por todos os sítios onde lhe foi possível chegar. Um encontro de dois santos, numa encruzilhada dos caminhos da vida, é sempre um acontecimento que à distância nos impressiona, embora no momento possa passar desapercebido no mistério e segredo de Deus.
Implantada a Republica em 5 de Outubro de 1910, já a sua fama de santidade, que o acompanhou a vida inteira, era largamente conhecida. Não teve qualquer problema com a perseguição sofrida então por muitos ministros da Igreja Católica pois foi sempre mui to respeitado. Por essa altura passou a dividir o seu tempo entre o Limoeiro e Caxias, as duas prisões onde se encontravam a maior parte dos Jesuítas dos Colégios do Bairro, de Campolide e da residência do Quelhas.
Foi a partir e durante as décadas de 30 e 40 que se fez sentir por amiudadas vezes a sua presença em Peniche pela grande ligação que tinha com D. Maria Herculana da Silva Rodrigues, senhora de grandes virtudes e devoção católica, que escolheu aquele servo de Deus para seu padrinho de casamento com Ezequiel dos Santos.
Era hospede de sua casa sempre que se deslocava a Peniche, onde era reconhecido por onde passava, quase sempre a caminho da Igreja de S. Pedro para celebrar a missa diária.
Ficou na memória de muitos a sua participação no Congresso Eucarístico realizado em Peniche a 8 de Junho de 1941 , acontecimento que muito honrou o povo desta terra.
Em 1940 o Rev. Padre Cruz, satisfazendo assim o desejo que acalentava havia 60 anos, ingressou na Companhia de Jesus, criada por Santo Inácio de Loyola.

Aos 89 anos de idade faleceu em santidade na casa das Senhoras Caldas Machado, no Largo do Caldas, em Lisboa, onde residia. Entregou a alma ao Criador no dia I de Outubro de 1948.
A notícia da morte do Padre Cruz foi dada pela Emissora Nacional no noticiário das 13 horas e retransmitida de boca em boca por todos os que deste ou doutro modo dela tiveram conhecimento.
Por sua vontade, conforme documento escrito e assinado em 22/5/1945, foi o seu corpo depositado no jazigo da família religiosa a que, fazendo os santos votos, se uniu a 3 de Dezembro de 1940 – à Companhia de Jesus.
A sua alma vivia de intenso amor a Deus e ao próximo. Sensível a todas as misérias humanas, o seu ministério predilecto era exercido junto dos humildes, dos presos nas cadeias, dos doentes, dos pobres, dos necessitados e dos pecadores. O Processo Informativo da sua

beatificação começou em Lisboa a 10 de Março de 1951 e foi entregue à Santa Sé em 17/9/1965.
Apôs a sua morte uma romaria é notada todos os dias no Cemitério de Benfica, em Lisboa, onde seu corpo está depositado. Nos dias do aniversário do seu nascimento, da sua morte e no dia de finados quase não se pode passar em frente do seu jazigo que, nestes dias, mantém a sua porta aberta.
A Câmara Municipal de Alcochete prestou-lhe diversas homenagens mas o País inteiro perpetuou o seu nome em diversas ruas e até bairros têm o seu nome como topónimo.

Também em Peniche, por deliberação camarária de 29 de Outubro de 1987, a pedido dos habitantes de um arruamento do Bairro de Santana a que inicialmente fora atribuída a designação de “Travessa Escondida”, o nome do Padre Cruz figura na toponímica local.

quinta-feira, novembro 09, 2006

O ORGÃO FIXO COLOCADO NA IGREJA DE S. PEDRO NO século XVIII

Por : Fernando Engenheiro
A tradição musical da Igreja é um tesouro de inestimável valor que excede todas as outras expressões de arte, sobretudo porque o canto sagrado, intimamente unido com o texto, constituí parte necessária ou integrante da Literatura solene.
Não cessam de a exaltar, quer a Sagrada Escritura, quer os Santos Padres e os Romanos Pontífices a partir do Santo Padre Pio X (1 903/1 914), que vincaram com mais insistência a função ministerial da música sacra no culto divino.
Sempre a Igreja Católica e também outras confissões religiosas - mormente as saídas da Reforma -, utilizaram o canto como elemento importantíssimo da Liturgia... e o orgão surge no primeiro plano.
E, pois, de grande apreço na igreja Católica o orgão de tubos, instrumento musical tradicional cujo som é capaz de dar às cerimónias do culto um esplendor extraordinário e de elevar poderosamente o espírito para Deus.
Porque todo ele se revela como elemento preponderante na Liturgia da igreja e porque a sua existência fez “nasce entre nós artistas músicos que deixaram composições maravilhosas que hoje nos deleitam, é importante em Portugal o património organistico existente.
Também a Cidade de Peniche, na majestosa Igreja de S. Pedro, desde os fins do século XVIII, mais propriamente na sua última década, passou a ser possuidora de um grande orgão - instrumento musical de tec1 com sons por tubos construídos em estanho.
No interior daquele templo, ao levantarmos a vista para a altura do coro, na época também designado por coreto, os nossos olhos prendem-se, no seu velho orgão que, pela imponência, nos maravilha com a sua caixa, ensamblamento e toda a composição onde encerra os tubos e a sua maquinaria.

Ao admirarmos aquele belo exemplar, que a muitos frequenta dores daquela Casa de Deus poderá passar despercebido, mais nos orgulhamos do nosso passado, do legado que nos deixaram e mais sentimos o imperioso dever de o conservar e, se possível , de lhe dar nova vida para nos poder deliciar os ouvidos com o sopro musical saído dos seus tubos...
Foi a partir da construção do referido coro (Livro de receita e despesa da Irmandade do Santissimo Sacramento de S. Pedro, de 1749/1805, fls. 78v.) com capacidade para os capitulares tomarem assento no lugar que lhes competia para em coro rezarem o oficio canónico: constante de salmos, leituras da Sagrada Escritura e orações e distribuído pelas diversas horas d Matinas, Laudes, Prima, Tércia, Sexta, Nona, Vésperas e Completas, o que possível mente nunca teve essa actividade, que se colocou numa parte daquele espaço o Orgão de que falamos, em lugar escolhido como o mais eficaz para obtenção dos melhores resultados act
Não se conhecem as suas origens nem como foi adquirido, nem tão pouco a sua classificação, embora as suas características apontem para que seja classificado como “Orgão Ibérico” ou, simples- mente, como “Orgão Português”.
Também não se pode dar como certo o seu construtor, embora na época, entre 1756-1828, tenha existido em Lisboa o célebre e famoso organeiro António Xavier Machado e Cerveira, que construiu mais de uma centena de orgãos, colocados em diversos pontos do país e até do Brasil. Machado e Cerveira construiu orgãos por encomenda própria, enviando todas as peças para os locais onde seriam montados por um dos seus oficiais ou por alguém do local, embora talvez não tão habilitado.
Não me foi poss fazer a identificação própria destes casos já que, quase sempre,todas as peças vinham numeradas, classificadas e até com instruções de montagem escritas a tinta preta na própria peça. Para tornar o seu custo mais acessível não perdendo porém as qualidades próprias da sua construção, até peças eram aprove de outros órgãos.

- Com o mestre que fez o orgão_____________________________________________________223.200
- Com um homem que serviu ao dito mestre___________________________________________ 1.980
- Com um oficial do dito que se lhe deu de luvas _______________________________________1.200
- Com o pintor que dourou os canudos, e frontaria do

orgão e ouro para a dita obra__________________________________________________________4 820
- Com o entalhador que fez a caixa do dito orgão _______________________________________3.900
-Com madeira para a dita caixa, e coreto que se fez ___________________________________19.075
- Com jornais de oficiais que fizeram a dita caixa e coreto_______________________________26.760
- Com ferragens para a dita caixa e pre para o coreto____________________________________6.885
TOTAL ______________________________________________________________________________287.820

Com a colaboração dada pelas Confrarias das almas e de Nossa Senhora do Rosário, aprovadas pelos seus Juízes, Oficiais e Mordo mos, com assento na Igreja de S. Pedro, foi possível ajudar a com partilhar nas despesas da aquisição daquele instrumento musical,
a cargo da irmandade”do Santíssimo Sacramento da Igreja de S. Pedro, iniciativa em que se despenderam as seguintes importâncias:
Com a informação destes preciosos elementos, concluímos que só o miolo foi importado e que todo o resto foi feito no próprio espaço onde actualmente se encontra.
Teve a sua solene inauguração na festa anual que se fazia naquele templo em louvor de Nossa Senhora do Rosário, a cargo da sua Confraria (de Brancos e Pretos), cuja imagem se venerava no altar onde hoje se rende culto a Nossa Senhora da Boa Viagem.
A partir de então e até à abolição das Ordens Religiosas (que ocorreu a partir de 1834)foi a manutenção do orgão entregue aos cuidados do Convento do Bom Jesus de Peniche até porque ali existiam elementos competentes para o desempenho de funções de organista.
Não é difícil imaginar o grande interesse dos amantes da musica sacra por aquele instrumento musical.
Na época aqui vivia José Leal Moreira, mestre da musica desta então Vila de Peniche, com o partido de quarenta mil réis em cada um ano pagos pelo “Cofre dos Sobejos das Sisas” da mesma Vila havendo-os, sendo o dito mestre da música obrigado a ensinar de graça os moradores da referida vila;por provisão da Rainha D. Maria I de 5 de Dezembro de 1778.Talvez a ideia da aquisição do orgão se deva ainda que de uma forma indirecta aquele professor de musica que teria todo o interesse em formar alunos organistas.
É exemplo disto seu filho Eleutério Leal Moreira, seu aluno, que foi mestre da Capela da Sé Patriarcal, organista e professor de piano, durante os últimos anos do século XVIII e princípios do XIX. Escreveu somente musica religiosa com acompanhamento ao orgão. A maior parte das suas composições encontra-se na Biblioteca Nacional, na Biblioteca da Ajuda e no Arquivo da Sé de Lisboa. Muitas das suas obras terão sido tocadas pelo seu autor no orgão da Igreja de S. Pedro. Faleceu em Peniche, de onde era natural, depois de 1839, solteiro e sem geração.
Por longos anos ecoaram naquele templo os sons do velho orgão, “enchendo a alma” acompanhando solenes “Te Deum Laudamos” - acções de graças a Deus - especialmente cantados quando em Peniche eram recebidos membros da realeza, altos eclesiásticos e militares de alta patente.
Outros organistas exploraram as capacidades do majestoso orgão mas não há memórias da sua actuação até aos primeiros anos do século XX aquando das solenidades litúrgicas que assinalavam os dias do corpo de Deus; de S. Pedro, Orago do templo; da Cadeira de S. Pedro; de Nossa Senhora do Rosário; o Domingo de Páscoa e o Natal.
E já depois da Implantação da Republica, pela mão do mestre José Cândido de Azevedo Mello, continuou o velho orgão a encher de sonoridade musical a Igreja de São Pedro.
José Cândido, figura ímpar na arte musical em Peniche, fez realçar aquele instrumento em momentos litúrgicos de grande esplendor. Alguns alunos seus também o usaram, como os organistas Joaquim Desidério Júnior e sua nora D. Romana Ester Caldas Pereira Fausto de Mello.
Alguns anos antes da morte do mestre José Cândido, ocorrida a 1/9/1950, mergulhou aquele grande instrumento musical num silêncio profundo, que pela minhas contas já lá vai com 60 anos, sem que ninguém tentasse a sua recuperação do estado de abandono em que se encontra uma das jóias do nosso património local.

domingo, setembro 24, 2006

A CONSTRUÇÃO NAVAL EM PENICHE AO LONGO DOS SÉCULOS

Por: Fernando Engenheiro
As navegações e conquistas dos portugueses justificam historicamente a existência por todo o nosso litoral de polos de construção naval.
A natural posição do país, à beira dum imenso oceano e próximo dum continente estranho ao dele, impeliu os seus naturais para as rudes ides do mar onde cedo encontraram parte da sua alimentação.
Depois da organização politica do agregado, surge o plano de defesa da sua vida colectiva.
D. Dinis, no século XIII, com uma alta visão de homem de Estado, contrata italianos para ensinar aos nossos a rudimentar arte de navegar conhecida no Mediterrâneo e manda cultivar madeiras para construir embarcações.
No século seguinte começaram os reconhecimentos na costa noroeste africana. No período de quatrocentos, o Infante D. Henrique funda a escola de Sagres, criadora da ciência náutica que gerou a moderna civilização transoceânica. Na mesma época descobrem-se os arquipélagos da Madeira e Açores e continua-se a ladear a costa de Africa. Gil Eanes passa o Cabo Bojador, Bartolomeu Dias o das Tormentas. E no alvor do século XVI Gama descobre o caminho marítimo para a índia e Cabral atinge o Brasil. Fernando de Magalhães completa a epopeia volteando o globo.
A história aparece então em toda a sua beleza ao ter-se conhecimento da sabedoria e inteligência com que o plano foi concebido e executado.
Da India vieram o ouro e as especiarias. Do Brasil madeiras preciosas e outras riquezas. Na África formaram-se centros colonizadores.
A realização desse plano deu-nos uma supremacia sobre os outros povos que é ainda a razão da existência do Portugal de hoje.
Tiveram os navegadores os seus cooperadores nos reis, nos sábios e no povo que deu os contingentes para as tripulações mas muito em especial os artífices para a construção dos navios que as fizeram transportar.
Merecem todo o nosso respeito e consideração estes modestos colaboradores dos nossos descobrimentos marítimos pela forma como se houveram na fábrica dessas naves que resistiram à furia das águas e dos ventos. Procediam às suas construções o mais próximo possível de um cais, denominando-se a área ocupada por “Tercena”, antiga designação de “estaleiro naval”.
Estavam os artifices da construção naval divididos em petintais, carpinteiros e calafates. O petintal corresponde ao “carpinteiro de machado” de hoje, que se distingue dos outros carpinteiros por saber trabalhar com a enxó de cabo grande (para escavar as madeiras rijas do cavername). O termo “petintal” desapareceu e o de “carpinteiro” generalizou-se a ambas as categorias de artífices. Hoje distinguem-se ainda os “carpinteiros de branco” e os “de machado”. O petintal ou carpinteiro de machado, por vezes, acumula com o oficio de calafate (artífice especializado das essências florestais, bom linho e boas estopas). Oficiais de outros ofícios havia que cooperavam nos trabalhos da factura das embarcações, como cordoeiros, ferreiros e remolares, mas a acção destes exercia-se com a embarcação na água.
Os carpinteiros, calafates, tal como os arrais, mareantes e pilotos das naus de guerra da carreira da India, gozavam de grandes privilégios concedidos pelos reis D. Fernando, D:
João I, D. Duarte, D. Pedro (Regente), D. Afonso V, D. João Il, D. Manuel, D. João III, D. Sebastião e D. José e por fim confirmados pela Rainha D. Maria I. Pode dizer-se que essas classes, pela isenção de impostos e liberdades de que gozavam, estando dispensados de vários serviços que competiam à maioria dos cidadãos, eram tratados quase como nobres. Havia possivelmente a compreensão de que o destino da Pátria deles muito dependia.
Eram ciosos dos seus direitos, não permitindo que lhes superintendessem nem o Almirante do Reino, nem os Vedores da Fazenda, nem sequer o Almoxarife da área da sua residência, recebendo somente ordens dos seus legítimos mestre examinadores de carpinteiros e calafates.
Peniche, com as suas características e dada a sua situação geográfica, é, desde há muito, um importante polo da construção naval no nosso pais, não havendo já memória desde quando a arte da construção naval tem a sua actividade por estas bandas.
Pelo que nos é dado aperceber, não era difícil fazer chegar a esta então “ilha de Peniche” a madeira necessária para a construção das embarcações, vinda do vasto Pinhal de Leiria, por via marítima da Praia de S. Pedro de Moel, embarcada em navios de cabotagem que fundeavam perto de terra e que a levavam para Lisboa, alguma tendo como destino final as “tercenas” navais situadas na Ribeira das Naus, fazendo desvio para a entrega das encomendas destinadas a esta costa.
o documento mais antigo sobre os artifices da construção naval em Peniche que me foi possível consultar está registado no Livro de Vereações da Câmara Municipal de Peniche (2/12/1650) e relata o seguinte testemunho:
o Licenciado António de Aguiar da Silva apresentou uma provisão do Conde de Cantanhede, do Conselho de Sua Majestade, na qual se ordenava que o dito licenciado viesse a Peniche e ordenasse que todos os carpinteiros de navios ai existentes fossem trabalhar num galeão que se estava aprestando para ir à índia. Assim, foram declarados Domingos Gomes, Mateus João e Antão Luiz, como carpinteiros competentes para esse fim. Sabendo-se que os dois Últimos estavam no Algarve, foi mandado apresentar nos armazéns de Sua Majestade, dentro de 3 dias, Domingos Gomes”.
O galeão era um meio de transporte misto, tão bem armado como a nau. Uma das exigências da artilharia para as naus e galeões, em muitos casos, somava um total (para ambos os tipos de embarcação) de 37 peças de ordenança, incluindo um camelo, 12 esferas, 8 pedreiros, 12 falcões e 6 berços, sendo a tonelagem destes navios variada entre 480 e 520 toneladas.
Acompanhou ao longo dos tempos esta industria a Irmandade dos Carpinteiros Navais, datada de 1 506, que tinha como Patrono o Glorioso “S. ROQUE”, que abrangia todos os trabalhadores da arte, não só em Lisboa como de todo o Pais. Era costume quando algum irmão da Irmandade estava doente pôr-se-lhe à cabeceira da cama a imagem de S. Roque, por ser o advogado contra a peste e bexigas. Outro costume duma interessante ingenuidade, que nos relatam as memórias, era o das filhas dos carpinteiros oferecerem os travesseiros da noite do noivado ao Santo, para serem felizes com os seus maridos.
Subsidiavam-se os carpinteiros mutuamente, não se esquecendo da sua Irmandade até mesmo quando longe no Brasil e resgatavam à sua custa os irmãos prisioneiros dos mouros no norte de Africa.
Resta da veneranda Imagem deste Santo que em tempos existiu ao culto na Igreja de S. Pedro, desta cidade, a pequena cabaça em madeira, seu atributo, em poder actualmente dum particular.
Recordo aqui que a construção naval em Peniche teve, ao longo dos tempos, os seus altos e baixos. Faço questão de aqui mencionar os mais conhecidos calafates de Peniche dos primeiros anos do século XX: Fernando Maria Malheiros
- Isaac d’Assumpção Bernardo - Carlos Domingos da Costa - Francisco Martins e Francisco Maria Malheiros, que eram especialistas em barcos de navegação à vela, designadamente o “Batel”, o “Lugre”, a “Barca”, a “Escuna”, o “Cerco volante”, o “Palhabote”, o “Patacho”, o “Caíque” e as lanchas.
Os ventos da História mudaram e à medida que a revolução industrial avançava as velas foram rareando e com elas os bonitos veleiros.
Foi então, nos fins da década de vinte, que as barcas e os caíques, mais usuais na nossa praça, começaram a ser substituídos pelas traineiras. O seu tempo tinha passado, já não era rentável a embarcação à vela, dado terem surgido fontes alternativas de energia com melhores rendimento.
Foram a máquina a vapor e o motor que fizeram arriar as velas.
Passaram a construir-se aqui traineiras do modelo entrado nesta praça em 1913, o primeiro exemplar comprado em Vigo a 19 de Abril daquele ano por António Andrade, de Peniche, modelo de embarcação que passa a ser denomina do “traineira tipo Vigo”.
As sucessivas alterações nas dimensões e características dos cascos das traineiras tipo Vigo resultaram no modelo dito “tipo Peniche”, que surge em 1927 - com a sua popa direita e motor a petróleo, com as dimensões de 12,60 m de comprimento, 3,60 m de boca e 1,70 m de pontal.
Os artífices de Peniche vão sempre tentando não ficar para trás nos seus modelos de construção. Anos depois, em 1936, foi construída uma traineira que ostenta já alterações de formato, principalmente à proa, equipada com o primeiro motor a gasóleo. Nos primeiros anos da década de 50 são construídas as traineiras do modelo “popa de leque”, forma prática de desviar as redes da hélice, já que a manobra destas era feita a uma das bordas. Em simultâneo foi feito pedido ao Poder Central para que as traineiras passassem a ter aumento de 13 para 14 metros, de modo a permitir instalar um porão de gelo avante do porão do peixe.
A partir de então, nos meados do século vinte, regista-se a grande evolução da construção naval em Peniche. A frota estava envelhecida e desactualizada para a captura do grande volume de peixe já movimentado na época.
Os pequenos estaleiros que existiam em recintos fechados, nas ruas das Amoreiras e S. Marcos, Largo de Nossa Senhora da Conceição e outros, foram substituídos por áreas espaçosas, junto à costa. Constituíram-se firmas e facilitou-se o ingresso de novos aprendizes no ofício.
Com as novas instalações, junto às praias, deixou de ter grande utilidade para o fim para que foi criada a chamada “Rampa da Ribeira”, construída entre o Campo da Torre (Campo da República - junto da entrada exterior para a Fortaleza) e a praia do então Portinho de Revés. Esta rampa, revestida a pedra polida, foi durante muitos anos o caminho das embarcações que no seu “bota-abaixo” atravessavam o Campo da República em direcção ao mar.
(continuação da página anterior)
Contudo, com as suas mudanças, a nobre arte da carpintaria naval não perdeu o velho sabor do segredo medieval. As suas modalidades de trabalho bastante contribuíram para as obras primas apresentadas. À volta da industria da construção naval propriamente dita passou a girar uma série de indústrias auxiliares ou complementares (fabricação e manutenção de motores, a serralharia específica, o material eléctrico, etc.), sendo que actualmente nos estaleiros navais existentes por todo o país só é construído o casco da embarcação, que representa aproximadamente 50% do seu valor total.
É curioso salientar que após a grande evolução da construção naval em Peniche, em 1961 , estavam registadas na Capitania do Porto de Peniche 305 embarcações de propulsão mecânica e 447 de velas e remos e que em 1982 se mantinham os números elevados de 316 e 901 (entre as quais 44 traineiras, 20 cercadores e 72 embarcações da pesca industrial não associada.
Havia, sem dúvida trabalho suficiente para os quatro principais estaleiros e outros de menor importância. Neles 300 pessoas trabalhavam em barcos de madeira, não só nas grandes construções mas também nas grandes e pequenas reparações.
Com o afastamento dos principais mestres calafates, pelas idades avançadas e pelas doenças a que foram sujeitos, alguns dos seus operários e discípulos juntaram-se e formaram, a 27 de Março de 1977, uma cooperativa designada por UNIÃO DA GAMBOA - ESTALEIROS NAVAIS DE PENICHE - Sociedade Cooperativa de Responsabilidade Limitada, constituída por escritura pública lavrada no Cartório Notarial de Peniche. Dela faziam parte 13 elementos. (Livro de Notas número 2/D). Mais tarde, a 9/11/1983, no mesmo Cartório Notarial, foi consagrada alteração dos estatutos da cooperativa, na presença do Notário Rui Jorge Pereira Mendes.
Com o encerramento dos outros espaços ficou a funcionar o estaleiro da Praia da Gamboa
(junto da Estrada Nacional n.° 114, na freguesia de Ajuda, em Peniche.
No mês de Outubro de 2003 o Último barco em construção naquele estaleiro, o “Principe do Alentejo”, encomenda de um armador de Sines para a pesca do cerco, estava em acabamentos para ser lançada à agua e os 10 trabalhadores que acompanharam a obra viram o seu futuro incerto e preocupante com a falta de encomendas para construção de novas embarcações.
A crise vivida no sector das pescas deu origem ao encerramento deste estaleiro, um dos Últimos resistentes na arte da construção naval em madeira não só em Peniche como no País. O currículo desta empresa foi vasto na sua modalidade de construção. Dedicou-se não só à construção de embarcações de pesca como de recreio e de transporte de passageiros. Foi deste estaleiro que saiu para as águas do Atlântico o “Cabo Avelar Pessoa”, embarcação que faz o transporte para a ilha da Berlenga. A maioria das construções foram encomendas de traineiras (barcos entre os 18/20 metros) mas a maior obra ali concretizada foi uma embarcação com 32 metros de comprimento.
Continuam em actividade os Estaleiros Navais do Porto de Peniche, autorizada a concessão da construção e exploração à Junta Autónoma dos Porto do Centro, outorgada mediante concurso público conforme deliberação do Conselho de Ministros de 30/4/1992.
Em plena actividade, parte das suas obras é feita com materiais inovadores à base de poliéster com fibra de vidro. Os Estaleiros Navais de Peniche construíram já 10 embarcações de pesca para o Governo de Cabo Verde, encomenda que ascendeu a 12 milhões de euros (2,4 milhões de contos). Já então, desde a criação deste estaleiro, dele tinham saído seis navios em fibra de vidro e dois de aço. A frente dos destinos desta empresa está Carlos Norberto Freitas Mota, na qualidade de Presidente do Conselho de Administração.
Continua em actividade o recurso tradicional à madeira pois é de grande necessidade o apoio a dar às reparações da frota existente no nosso porto.
Todo este desenvolvimento naval significa “inovação” e demonstra a capacidade nacional para “produzir embarcações de dimensões significativas com um bom nível de qualidade”.
Continua, assim, a actividade da construção naval em Peniche mantendo a importância económica tem tido ao longo dos séculos, desde a época dos descobrimentos até aos nossos dias.
Não esquecendo a memória de todos aqueles que ao longo dos séculos trabalharam na construção naval em Peniche, recordo aqui o nome de alguns mestres e artífices que no início da primeira metade do século XX se mantinham em actividade. Uma singela homenagem aos grandes mestres irmãos Malheiros (Manuel António Malheiros, Francisco Fernandes Malheiros (Chico Malheiros) e António Malheiros) e seus familiares ligados ao mesmo ramo, mestre Carlos Domingos da Costa e seus filhos, mestre José Carriço, mestre João Principe, mestre Manuel Rapaz, mestre José Inácio Bandeira e outros que os acompanharam (José Homem, José Carepa, Mário Leitão (Mário Carinhas - pai e filho), Cesaltino Leitão (pai e filho) e muitos mais... não esquecendo aqui o trabalho árduo dos “Serradores” que se deslocavam das suas terras por períodos grandes (quase sempre trabalhadores da zona de Pedrogão) que só regressavam às suas terras depois de concluídos os trabalhos que lhes eram confiados.